Agricultores prevêem "explosão social" em Setembro
Os agricultores do Baixo Mondego e da Gândara deixaram esta terça-feira no Governo Civil de Coimbra um documento a pedir a José Sócrates que "mande calar de uma vez por todas" o titular da pasta da Agricultura, Jaime Silva. Os organizadores do protesto reafirmam que o Governo "merece ser castigado" nas urnas e antecipam uma "explosão social" a partir de Setembro.
"O ministro da Agricultura, cada vez que fala, é só para denegrir a imagem dos agricultores, que devia defender, não fala verdade por desconhecimento ou má-fé", lê-se no documento levado ao Governo Civil de Coimbra. Um texto reivindicativo aprovado por unanimidade.
A dois meses das eleições legislativas, os agricultores apresentam-se como "vítimas da guerra entre distribuição e indústria", acusando o Executivo de José Sócrates de ter "ignorado as soluções" apresentadas há quatro meses para atenuar "o estrangulamento da agricultura do Baixo Mondego e Gândara".
CNA reitera que Governo "merece ser castigado"
Perante a situação de "caos", o presidente da Associação dos Orizicultores de Portugal, Carlos Laranjeira, antevê uma "explosão social em Setembro". Por sua vez, João Dinis, dirigente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), renova o apelo ao voto dos agricultores contra a maioria socialista: "Em Setembro vai haver eleições. Este Governo merece ser castigado com o nosso voto".
O retrato da crise fora já traçado na véspera por outro dos elementos da CNA presentes em Coimbra. Isménio Oliveira, da Associação Distrital de Agricultores do Centro, alertava segunda-feira para uma "situação gravíssima" nos sectores de produção de batata, leite e arroz, "que também se espera vir a sofrer grandes problemas no final do ano".
Após a entrega do documento reivindicativo no Governo Civil de Coimbra, os agricultores encaminharam-se para um hipermercado da cidade, onde adquiriram leite e arroz de produção portuguesa. A marcha entre a Avenida Fernão de Magalhães e o Fórum Coimbra reuniu perto de 800 pessoas. À cabeça da manifestação, uma burra transportava um cartaz com uma caricatura do ministro da Agricultura.
"A nossa ida é um gesto de boa-vontade, um gesto de desejo de cooperação e de articulação da produção, da indústria e da distribuição", explicou à Antena 1 o presidente da Associação de Orizicultores de Portugal, Carlos Laranjeira.
"Estado de espírito dos agricultores é muito mau"
Quanto à possibilidade de os agricultores organizarem novas acções de protesto, o dirigente da Associação de Orizicultores deixou um alerta: "Que Deus nos acompanhe. O estado de espírito dos agricultores é muito mau. Estão a consumir arroz agulha porque o põem a metade daquilo que devia estar. As pessoas, com a crise, têm ainda mais apetência para caminhar para o agulha, porque põem o arroz carolino nacional a 1,14 euros, quando ao lado têm arroz a 47 cêntimos. Isto é brincar com toda a gente".
Carlos Laranjeira conta reunir-se na próxima sexta-feira, em Lisboa, com a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição.
"O que pretendemos é a aproximação entre todos, que não seja por nossa culpa que não se façam acordos para salvar a agricultura", afirmou o dirigente.
Governo alega que arroz foi escoado "a preços satisfatórios"
Na resposta às queixas dos agricultores, o Governo sustenta que toda a produção de arroz de 2009 foi escoada a bom preço. Em declarações à Antena 1, o secretário de Estado da Agricultura e Pescas, Luís Vieira, recordou os preços da produção final por quilo.
"O arroz foi escoado da produção normalmente, a preços satisfatórios, na ordem dos 40 cêntimos por quilo, que foi aquilo que a indústria pagou aos senhores produtores, e além disso ainda há uma ajuda de 14 cêntimos por quilo que o Estado paga. Por cada quilo de arroz, há uma ajuda directa a cada agricultor", afirmou o governante.
"Estamos a falar de um valor, somando aquilo que é remunerado pelo mercado e a ajuda directa que o Estado dá, de 54 cêntimos por quilo. Portanto, a questão que era colocada e que vi nalguns produtores, preocupados com a produção de arroz, não existe, porque o escoamento foi todo feito", insistiu Luís Vieira.
Ao abrigo do argumento de que o país está integrado num "mercado global", Luís Vieira defende que a sensibilização para o consumo de produtos portugueses passa também pela gestão das grandes superfícies. O secretário de Estado da Agricultura e Pescas admite, por último, que o preço do arroz no mercado internacional sofreu uma quebra em 2009, deixando um apelo ao consumo de mais arroz de produção portuguesa.