Alegado membro do gangue diz que só vendia o que o outro membro do "casal" furtava
Porto, 05 Dez (Lusa) - Um dos suspeitos de integrar um grupo acusado de 30 assaltos em 14 concelhos do Norte disse hoje em Tribunal que se limitou a vender artigos que supunha serem roubados pelo homem com quem formava "um casal".
Na primeira audiência do julgamento do grupo, no Tribunal de São João Novo, no Porto, Nelson Monteiro explicou que os artigos lhe eram dados por Rui Filipe Pinto, outro dos arguidos, com quem coahabitava "como um casal".
Questionado sobre se conhecia a proveniência desses bens, disse: "Era um bocado difícil não saber. Eu vivia com ele".
Já Rui Filipe foi o único dos arguidos ouvidos nesta audiência que confirmou o essencial dos factos que lhe eram imputados na acusação.
"Lembro-me de ter feito os assaltos, mas não me recordo de datas", disse o arguido, que recusou o papel de líder do grupo, que lhe era imputado pelo Ministério Público (MP).
Rui explicou que actuou sempre com alguns outros membros do alegado gangue, composto por cinco pessoas, admitindo mesmo o seu envolvimento em mais alguns assaltos que não constam da acusação.
O gangue está acusado do envolvimento em 30 assaltos a residências de 14 concelhos do Norte, entre 2005 e inícios de 2007.
Só num dos assaltos, numa vivenda da Trofa, roubaram bens no valor global de 100 mil euros.
Para entrarem nas residências, arrancavam os canhões das fechaduras das portas.
"Um ficava em vigilância nas zonas comuns do prédio. O outro ou os outros rebentavam as fechaduras e faziam os assaltos", contou Rui Filipe.
Este arguido, que já teve duas condenações por furto e tem cinco outros processos pendentes pelo mesmo motivo, reconheceu que o produto dos assaltos se destinava a garantir a sua sobrevivência, numa altura em que estava desempregado, e alimentar o vício da cocaína.
Rui explicou que a maioria dos artigos roubados eram vendidos na Feira de Vandoma, no Porto.
Referindo-se ao caso concreto de assalto a uma residência não habitada de Matosinhos, que o procurador classificou "de fora do comum", Rui contou que os bens furtados, incluindo máquinas de lavar, foram levados a pé para a sua residência, que ficava a 500 metros de distância, "ou nem tanto".
O arguido admitiu ter convencido um dos co-arguidos que o ajudou a levar aqueles bens, Paulo Ribeiro, de que se tratava de uma mera mudança de móveis e não de um assalto.
Paulo, um cortador de carnes verdes que tem pendente outro processo por passar cheques sem provisão, corroborou que ajudou em Matosinhos porque Rui lhe pedira o "especial favor" de colaborar na muda de bens que teria comprado ou lhe teriam sido dados.
Paulo, que disse sempre ter pensado que Rui Pinto era mediador imobiliário, admitiu apenas o seu envolvimento directo num assalto na Trofa, de onde foram roubadas, entre outras coisas, três caçadeiras, que ele próprio vendeu em Fafe, e uma moto Harley.
Hugo Silva, o quarto de cinco arguidos, não quis prestar declarações e o quinto, António Pereira, faltou ao julgamento, incorrendo numa multa de quatro unidades de conta (384 euros).
Nesta primeira sessão, o colectivo de São João Novo ouviu também três vítimas dos assaltos, incluindo a advogada Ana Vieira, que viu desaparecer do seu apartamento, num sétimo andar do Porto, uma série de jóias herdadas, no valor global de 10 mil euros.
Os factos ocorreram maioritariamente em 2006 e os alegados autores são homens de 24 a 35 anos, um detido preventivamente, outro em prisão domiciliária, dois sujeitos a apresentações periódicas às autoridades e outro em parte incerta.
Os cinco homens foram detidos pela PSP no âmbito da Operação Midas, assim baptizada porque o grupo privilegiava o furto de artigos em ouro.
Mas, segundo o MP, o grupo levava também bens como motos, armas, faqueiros, máquinas de lavar roupa e louça, notas estrangeiros ou mesmo lençóis e um telefone fixo. Ou seja, tudo, o que pudesse ser convertido em dinheiro.
O julgamento, que se prolongou por toda a tarde, tem novas sessões marcadas para os dias 12 e 19.
JGJ.