Alegre evoca portugueses que “defendiam a bandeira"

O candidato presidencial Manuel Alegre voltou 48 anos depois a Nambuangongo, seu local de operações quando militar colonial, e evocou os antigos combatentes que “defendiam a bandeira e cumpriam o seu papel".

RTP /
Manuel Alegre em romagem a Nambuangongo Ricardo Bordalo, LUSA

Alegre cumprira uma comissão em Angola entre 1962 e 1963, tendo participado nas operações em Nambuangongo, província angolana do Bengo. Nesse tempo, deslocava-se com frequência a Nambuangongo, integrado em escoltas. Agora regressou a esse local rico em memórias, na sequência da visita que fizera a Moçambique integrado na comitiva de José Sócrates.
Segundo a Agência Lusa, o poeta e candidato presidencial emocionou-se em Nambuangongo ao deparar com um conjunto de sepulturas entre as quais se contava a do soldado José António Teixeira Pinto, caído em 1962, e portanto seu contemporâneo no local.

Um poema escrito na altura por Manuel Alegre "Canção com Lágrimas", inspirava-se na infelicidade do alferes miliciano Manuel Ortigão, morto por uma mina. Também esse contemporâneo foi emocionadamente evocado pelo actual candidato à presidência.

Não é a primeira vez que o curriculum colonial dos candidatos surge no contexto das eleições presidenciais. Na corrida entre Cavaco Silva e Jorge Sampaio, o primeiro destacara o facto de ter cumprido as suas obrigações no tempo da guerra, ao passo que o segundo justificara a ausência de curriculum equivalente invocando uma isenção por motivos de saúde. Com Manuel Alegre, a história das eleições volta a ter um presidenciável que fez a guerra.

Em declarações prestadas por ocasião da visita, o poeta e candidato referiu-se a Nambuangongo como "um lugar mítico", e acrescentou: "Escrevi os primeiros poemas depois de passar por aqui (...). Eu voltei aqui hoje, tinha que voltar aqui... é a minha peregrinação à terra que era a fronteira entre a vida e a morte... quem aqui estava podia morrer em qualquer momento com um tiro de flagelação, com uma emboscada, e por isso o tempo cabe todo num minuto".

Embora recordasse principalmente os militares seus companheiros, o visitante teve ainda uma palavra para os anfitriões: "Aqui se combateu, sofreu, morreu, se derramou sangue de um lado e do outro". E acrescentou: "É também com emoção que vejo que toda aquela agressividade está hoje a ter outra agressividade, mas para a construção, como é disso exemplo uma nova escola, um novo hospital... é a vida a florir num local que foi de morte".

Algumas, poucas, "coisas boas" ficam, segundo Alegre, dos tempos difíceis da guerra. Entre elas, recordou "a camaradagem, a fraternidade das armas, fica a amizade, para mim também ficaram os poemas que escrevi por causa de Nambuangongo".

E concluiu que "fica sobretudo essa memória da fraternidade que nasce da guerra, que nunca mais se esquece... e os militares de um lado e do outro são hoje irmãos. Para muitos de nós era uma guerra sem sentido, fora do tempo, muitos portugueses defendiam a independência de Angola e a democracia em Portugal, mas estavam aqui, defendiam a bandeira e cumpriam o seu papel".

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