Alenquer sonha com o seu "Campo Pequeno"
Alenquer reabilitou a paixão pela "festa brava" através de um clube taurino que em três anos reuniu 700 sócios, criou um grupo de forcados e sonha agora com uma praça polivalente semelhante ao reabilitado Campo Pequeno.
Na vila que, entre o início do século XX e a década de 1980, chegou a ter duas praças de touros, o clube taurino recorre presentemente a um recinto desmontável para os espectáculos tauromáquicos.
O presidente do Clube Taurino Alenquerense, António José Duarte, gostaria, no entanto, de conseguir um local fixo para touradas na vila, que à semelhança do Campo Pequeno, em Lisboa, fosse um recinto multiusos que passasse pelo investimento privado.
Inaugurada na terça-feira passada depois de um longo processo de reabilitação, a praça de touros lisboeta é agora um espaço renovado e ampliado que inclui uma galeria comercial, restaurantes, supermercado, parque de estacionamento e cinema.
A cerca de 40 quilómetros da capital, em Alenquer, a praça de touros fixa é ainda um sonho.
Mas o mais importante já está feito: o clube taurino, a mais recente colectividade do concelho, começou por retomar as largadas de touros nas ruas da vila durante a feira anual, suspensas desde o início da década de 1980, iniciativa fundamental para ganhar a adesão da população.
O clube arrancou com 300 sócios fundadores, conseguiu mais do que duplicar este número em três anos, criou um grupo de forcados, outro de danças sevilhanas e construiu uma sede sem qualquer subsídio.
Antes de arrancar, porém, o clube preocupou-se, segundo o director do museu local, Filipe Soares Rogeiro, em "auscultar a adesão das pessoas", em vez de começar por se virar para a criação de infraestruturas.
Segundo o presidente da colectividade, a ideia era "saber de que lado estava a população", a qual mostrou uma surpreendente adesão massiva.
Prova dessa adesão é o grupo de forcados do clube, que envolve cerca de 30 rapazes, de entre 17 e 26 anos, e as aulas de danças sevilhanas frequentadas por mais de 30 pessoas, de entre oito e 45 anos.
"Os forcados foram um dos factores decisivos para a criação do clube porque havia muitos miúdos do concelho que pegavam noutros grupos", contou António José Duarte.
A construção da sede da associação, que inclui um bar e até uma pequena capela, representando um investimento de 70 mil euros, foi suportada exclusivamente pelos sócios, com a compreensão dos fornecedores, que "deram a possibilidade de construir e ir pagando à medida que as receitas entravam".
Segundo o presidente do clube, "mais de 50 por cento do investimento já foi amortizado através dos eventos" organizados pelos sócios, como a novilhada e a corrida de touros anuais, a participação num festival de sopas (que venceram em duas edições com a criação de uma "sopa de corno") ou de uma viagem anual a Olivença para assistir a uma corrida de touros de morte.
As touradas são, de resto, um espectáculo com tradições em Alenquer, onde no final do século XIX já existiam praças privadas em quatro quintas do concelho, a mais conhecida pertencia aos marqueses de Castelo Melhor, na freguesia do Carregado.
A segunda praça fixa da vila, única em alvenaria (a primeira seria de madeira), foi inaugurada em 1920 e na comissão constituída para a sua construção "estava todo o tipo de pessoas, desde monárquicos católicos a republicanos", contou à Lusa Filipe Soares Rogeiro, historiador e director do museu local.
No recinto, com 2.900 lugares, os espectáculos tauromáquicos realizavam-se no "domingo de Pentecostes, nas festas do Espírito Santo, no último domingo de Agosto, por ocasião da feira anual", refere a antiga revista Panorama.
Destacaram-se como cavaleiros tauromáquicos em Alenquer, D.
António José de Siqueira, Conde de São Martinho, ou Artur Ferreira da Silva, e, nas décadas de 1980 e 1990, o matador de touros Rui Bento Vasques, que fez carreira sobretudo em Espanha.
Mas de Alenquer é também proveniente um dos mais destacados pioneiros do abolicionismo tauromáquico, o deputado Carlos Testa, que já na última década do século XIX defendia o fim do espectáculo.
"A história da luta entre os que gostam e os que não gostam de touradas não tem trinta anos, é muito anterior", sublinhou Filipe Soares Rogeiro.
O concelho foi também um privilegiado criador de toiros bravos, tendo concentrado, entre as décadas de 1960 e 1990, quatro ganadarias.
A mais antiga ganadaria, na localidade de Merceana, remonta, contudo, "pelo menos ao século XVI", apesar de a utilização dada aos animais ser necessariamente distinta, já que a corrida de touros à portuguesa com as características actuais tem cerca de 200 anos.
Em Alenquer nasceu também grande parte da iconografia taurina, já que o pintor Álvaro Duarte de Almeida produziu centenas de cartazes de touradas enquanto habitou naquela vila.
O pintor, que retratou a óleo o toureiro Diamantino Viseu, foi também o ilustrador da Enciclopédia Tauromáquica.
E é olhando a toda esta tradição e ao entusiasmo dos jovens da vila que o presidente do clube sonha com o seu "Campo Pequeno", que considera "o melhor exemplo a seguir", até porque, remata, "as coisas não morrem, mudam".