Alternativa a partidos e religiões está a crescer em Portugal

O Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, António Reis, defendeu que a maçonaria em Portugal está a crescer e surge como uma alternativa a ideologias, religiões ou partidos que evita cair em "dogmatismos e sectarismos" destas instituições.

Agência LUSA /

Intervindo num debate sobre a Franco-Maçonaria organizado em Lisboa pelo Instituto Franco-Português, António Reis não referiu números exactos, mas garantiu que "nos últimos dez anos o número de maçons do Grande Oriente Lusitano duplicou".

Guiada pelo princípio do "livre pensamento", a maçonaria "pode contribuir para preencher um vazio espiritual" - apesar de não fazer qualquer "apelo ao transcendente" - sem cair nos "efeitos perversos" associados aos partidos ou religiões, nomeadamente os "dogmatismos e sectarismos", afirmou António Reis.

Tanto António Reis como a Grã-Mestre da Grande Loja Feminina de Portugal, Maria Belo, que também esteve no debate, referiram os constrangimentos que sentiram enquanto membros e deputados do Partido Socialista na defesa das suas ideias, porque tiveram que estar sempre submetidas às "estratégias de poder".

"Os partidos são instrumentos de conquista de poder em que "a liberdade de discurso é limitada" e "afastaram-se das práticas de cidadania porque prometeram muito e criaram algumas desilusões, defendeu António Reis.

Na maçonaria, que traz "uma proposta de moral universal", o único poder que se reivindica "é o poder dos valores", especificamente "a liberdade, a igualdade, a fraternidade, a laicidade e a cidadania", acrescentou.

"A maçonaria não obriga a uma disciplina rígida", cria "espaços de livre expressão e discussão entre partidos e religiões diferentes" e cultiva entre os seus membros a participação ou criação de obras de solidariedade social.

Assumindo as "fragilidades" da maçonaria enquanto instituição humana, António recusou no entanto que a instituição pactue com esquemas de "socorros mútuos, cunhas ou promoções".

Num debate em que se abordou também o lado feminino da maçonaria em Portugal, Maria Belo lembrou que a primeira loja feminina, ainda dependente da maçonaria francesa, surgiu em Portugal em 1983 e só em 1997 se autonomizou.

A questão da separação entre as maçonarias feminina e masculina é pacífica para os dois lados, que se visitam e partilham mesmo alguns rituais.

Questionada sobre a falta de tomadas de posição da maçonaria sobre questões como o aborto, a igualdade de géneros na sociedade ou as quotas, Maria Belo afirmou que a natureza da maçonaria é promover e exercer a discussão e a liberdade de opinião, pelo que não há tomadas de posição da instituição sobre "as questões de fundo", antes relativamente a casos concretos.

No entanto, a Grande Loja Feminina de Portugal cultiva entre as suas maçonas a "luta pela participação política", sem estar subordinada às acções que partem de "órgãos masculinos dos partidos" que defendem, por exemplo, as quotas.

Em relação a temas como o racismo, António Reis e Maria Belo recusaram que a abertura a pessoas de todos credos e ideias políticas abra caminho a ideais racistas, até porque os princípios da maçonaria são "incongruentes" com esses ideais.

António Reis rejeitou, no entanto, um "relativismo cultural" cego, afirmando que a maçonaria "não transige com práticas de países" que conflituam com os seus ideais, citando algumas práticas como a excisão feminina ou o apedrejamento de adúlteros.

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