Alto quadro do Banco Privado Português constituído arguido

Alto quadro do Banco Privado Português constituído arguido

Pelo menos um alto quadro do BPP foi constituído arguido no âmbito da investigação em curso às operações de gestão do banco. As diligências realizadas por elementos do Ministério Público, da Polícia Judiciária (PJ) e da Comissão de Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) conheceram ontem uma primeira etapa de 12 horas.

RTP /
Uma auditoria ao BPP permitiu descortinar prejuízos de 247 milhões de euros e capitais próprios negativos de 15 milhões de euros RTP

As buscas ontem efectuadas nas instalações do Banco Privado Português em Lisboa terminaram cerca das 21h30, segundo António Laranjeiro, responsável pela comunicação daquela instituição financeira.

A RTP apurou que um alto quadro do BPP foi constituído arguido na sequência das buscas; o arguido não é o ex-presidente executivo do banco, João Rendeiro.

Desencadeadas após uma queixa submetida pelo Banco de Portugal à Procuradoria Geral da República, as diligências de terça-feira constituíram apenas a primeira fase da investigação ao BPP.

A investigação estará relacionada com a gestão de João Rendeiro, que há dois meses entregou a presidência da instituição a administradores interinos nomeados pelo Banco de Portugal.

Imagem de repórter fotográfico a aguardar a saída de investigadores da sede do BPP em Lisboa

As buscas tiveram por objectivo recolher registos de movimentos bancários que estarão ligados a aplicações financeiras suspeitas.

As suspeitas das autoridades incidem sobre eventuais práticas de branqueamento de capitais, gestão danosa e desvio de fundos para off-shores. Em análise estará também a falsificação de documentos.

A cargo do Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa, a investigação visa “avaliar o que o banco fez e o que não deveria ter feito”, explicava ontem uma fonte judicial citada pela Agência Lusa.

Na terça-feira, enquanto os agentes da Polícia Judiciária percorriam os ficheiros do BPP, a administração do banco confirmava as diligências em comunicado: “A administração do Banco Privado Português comunica que hoje, pelas 9h30, apresentou-se na sede do Banco uma equipa de investigação dirigida por um juiz de instrução, munida de um mandado de busca e apreensão de documentos, no âmbito de um processo a correr no Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa”.

João Rendeiro alega desconhecer motivos da investigação

Contactado pela RTP, o antigo presidente executivo do BPP João Rendeiro assegurou que nada sabe sobre os motivos que levaram as autoridades a deslocarem-se às instalações do banco na capital.

Numa reacção análoga, o futuro presidente da Privado Holding, Diogo Vaz Guedes, diz desconhecer os detalhes das diligências do Ministério Público e da Polícia Judiciária.

A actual equipa de gestão do banco afirma também desconhecer o teor das investigações, limitando-se a garantir que “prestou e continuará a prestar às autoridades, como é sua obrigação, toda a colaboração que lhe for solicitada”.

Confrontado, na Assembleia da República, com as investigações ao Banco Privado Português, Pedro Duarte Neves, vice-governador do Banco de Portugal, guardou silêncio.

“Vim aqui para prestar declarações no âmbito da comissão parlamentar [de inquérito à nacionalização do Banco Português de Negócios] e não vou fazer qualquer declaração”, frisava ontem o quadro do Banco de Portugal.

Problemas remontam a Novembro

As primeiras denúncias de problemas na saúde financeira do banco fundado por João Rendeiro foram levadas às autoridades em Novembro. Desde então a CMVM mantém na instituição uma equipa permanente de supervisão prudencial, que tem vindo a escrutinar a contabilidade.

Perante a ameaça de colapso do BPP, um grupo de seis instituições financeiras desbloqueou um empréstimo de 450 milhões de euros, que viria a ser avalizado pelo Banco de Portugal.

A instituição presidida por Vítor Constâncio acabaria por assumir a gestão do BPP, nomeando uma nova administração chefiada por Fernando Adão da Fonseca.

Os críticos do plano de salvamento alertaram para a aplicação de largas somas no resgate de grandes fortunas, uma ideia que o Governo de José Sócrates se apressou a rebater.

Para defender os interesses de dezenas de clientes que não conseguiam ter acesso aos montantes depositados no BPP foi criada uma associação. O treinador do Sporting de Braga, Jorge Jesus, foi um dos rostos mais mediáticos entre os clientes impedidos de resgatar os depósitos.

BPP e João Rendeiro foram alvo de providências cautelares e queixas-crime.
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