Aluno que acusou Carlos Cruz terá ido a sua casa desmentir a história
Carlos Cruz afirmou hoje que o ex-aluno da Casa Pia que o apontou como frequentador da casa do diplomata Jorge Ritto em 1982, foi em 2002 à sua residência na companhia de jornalistas desmentir a história.
Na sessão da tarde de hoje, o apresentador de televisão foi confrontado pelo advogado da Casa Pia e das vítimas, António Pinto Pereira, com o nome de um antigo aluno (identificado), testemunha no processo.
Carlos Cruz, que se tem quase limitado a responder a questões relacionadas com datas concretas no processo (sábados), anuiu em responder, dizendo que conhece o "rapaz" em questão, porque este foi levado a sua casa, em Cascais, a 29 de Novembro de 2002, por jornalistas do jornal "24 Horas".
Segundo a versão apresentada por Carlos Cruz na 25 sessão do julgamento, o jovem foi indicado pelos jornalistas daquele diário como sendo o antigo aluno da Casa Pia que em 1982 "tinha dito que tinha ouvido dizer (a outro aluno, que identificou) que ele era frequentador da casa do embaixador Ritto" e que em 2002 foi desmentir a história.
O arguido afirmou mesmo que o então director do jornal lhe mostrou a primeira página para do dia seguinte, com a manchete: "Rapaz que acusou Carlos Cruz confessa que mentiu".
Questionado por que motivo anuiu ao pedido de recebê-lo em sua casa, Carlos Cruz afirmou que tinha curiosidade em "conhecer a sua cara" e que este esteve na sua residência entre 45 minutos a uma hora, sempre acompanhado por jornalistas.
Disse ainda que o antigo aluno, à data empregado de mesa no Casino do Estoril, lhe pediu desculpas por ter envolvido o seu nome, estendendo o pedido à mulher e à filha mais velha, que chegaram entretanto.
"Disse que o seu colega lhe tinha dito que me tinha dado uma +banhada+ (roubado)", referiu, acrescentando que, segundo a versão do jovem, a conversa terá ocorrido em 1982, quando ambos "estavam a ver o programa +TV Rural+ enquanto esperavam por um filme do Tarzan" na televisão, versão que mais tarde o amigo lhe veio a desmentir.
O apresentador garantiu que foi a única vez que esteve com o antigo aluno, embora este na ocasião lhe tivesse dito que já o tinha visto no Casino do Estoril, e negou que alguma vez lhe tenha dado o seu número de telemóvel.
A sessão da tarde de hoje voltou a ser dominada com pedidos de esclarecimento do advogado Pinto Pereira sobre movimentos bancários de Carlos Cruz, transacções com cartões de crédito, passagens na Via Verde e localizações de chamadas de telemóvel.
Pinto Pereira quis ainda aprofundar qual o relacionamento do arguido com o seu antigo colaborador Carlos Mota, chegando mesmo a perguntar-lhe se este alguma vez tinha desabafado consigo questões relacionadas com pedofilia ou com um processo em Odemira, na década de 80, em que era suspeito de abuso sexual de menores.
Carlos Cruz negou que Carlos Mota alguma vez lhe tivesse falado desses assuntos e esclareceu que a relação com o seu colaborador "era muito cordial" tendo nele "bastante confiança", mas que não passava disso, sendo as conversas entre ambos de circunstância.
O apresentador de televisão foi ainda questionado se sabia porque motivo Carlos Mota tinha fugira após a sua prisão preventiva e como é que tinha encarado a frase que este proferiu à porta da cadeia anexa à PJ para os órgãos de comunicação social: "Se Carlos Cruz é pedófilo eu também sou!".
Cruz disse desconhecer o motivo da fuga e à segunda questão não respondeu, a conselho do seu advogado, Ricardo Sá Fernandes, por se tratar de "uma pergunta de manifesto mau gosto".
Durante o interrogatório, o apresentador voltou a garantir que, apesar de ter passado "centenas de vezes" na Avenida das Forças Armadas, em Lisboa, nunca entrou no prédio número 111, onde a acusação diz terem ocorrido abusos sexuais de menores da Casa Pia.
Da parte da manhã, o advogado das vítimas da Casa Pia, António Pinto Pereira, insistiu em questionar Carlos Cruz sobre avultadas transferências e depósitos em numerário, mas o arguido recusou-se a responder alegando que estas questões "estão fora do âmbito do processo".
A defesa de Cruz manteve a mesma estratégia de responder a questões relacionadas apenas com os dias (sábados) constantes da acusação e do despacho de pronúncia, remetendo para depois a audição das testemunhas/vítimas (constituídas como assistentes no processo) os esclarecimentos agora requeridos.
Esta decisão foi tomada depois de um representante do Ministério Público ter admitido poder vir a alterar as datas dos crimes imputados aos arguidos.