Ambientalistas detidos à porta da Vicaima
Os ambientalistas da Quercus e Greenpeace terminaram o bloqueio iniciado às 07:00 de hoje à empresa Vicaima, a quem acusam de transformar madeira abatida ilegalmente no Brasil.
Os activistas, que se haviam acorrentado ao portão da unidade fabril, foram levados pela GNR para o posto de Vale de Cambra, devendo ser presentes ao juiz de instrução hoje à tarde, que avaliará a queixa de invasão de propriedade apresentada pela empresa.
O final do bloqueio à transformadora de madeira Vicaima, para chamar a atenção para o abate ilegal de árvores no Brasil, ocorreu pelas 12:00 e os nove activistas da organização internacional Greenpeace que estavam acorrentados ao portão da fábrica, oito espanhóis e um alemão, saíram voluntariamente.
Devido à empresa ter apresentado queixa na GNR, alegando que o local do protesto se situa dentro da propriedade da empresa, os ambientalistas foram transportados em jipes da GNR para o posto de Vale de Cambra.
Para a GNR de Vale de Cambra seguiram também dirigentes da Quercus, nomeadamente Luís Galrão, que foi agredido no local, afim de que fosse identificado o agressor e mostrar as imagens que documentam os incidentes.
Antes dos ambientalistas acatarem a indicação das autoridades para levantarem o bloqueio, o administrador da Vicaima, Arlindo Costa Leite, convocou os jornalistas para refutar as acusações do Greenpeace e da Quercus, assegurando que a empresa labora com madeiras de abate legal e importadas dentro da legalidade.
"A Vicaima utiliza madeiras importadas de abates legais e é uma empresa certificada em termos ambientais e de qualidade. A Madeiporto [empresa do grupo dedicada à importação] é importadora há 46 anos, pauta-se pela legalidade e está em processo de certificação FSC [que controla a origem das madeiras]", disse.
Arlindo Costa Leite anunciou que a empresa vai apresentar queixa contra a Quercus para ser ressarcida dos prejuízos causados pela acção de hoje, que estimou em mais de dez milhões de euros.
"A empresa vende 70 por cento para exportação, nomeadamente para Inglaterra e tem que respeitar prazos apertadíssimos, sob pena de ser contratualmente penalizada com pesadas indemnizações. Cada hora que passa somos obrigados a indemnizar e já lá vão quatro horas e meia", salientou.
O administrador da Vicaima justificou o facto de não ter havido diálogo com os ambientalistas por terem tentado pressionar a empresa.
"Pessoas que barram a entrada aos próprios donos da fábrica não podem ser aqui bem recebidos", disse, acrescentando que não costuma receber ninguém sem agendar reuniões e sob pressão.
Os ambientalistas permitiram a entrada dos trabalhadores, a quem distribuiu panfletos de sensibilização, mas impediu a entrada e saída de viaturas.
Inicialmente, os dirigentes da Quercus e Greenpeace foram recebidos cordialmente pelo director de produção da Vicaima, Filipe Ferreira, mas a chegada dos administradores foi marcada por incidentes, com um operador de câmara de televisão e um dos dirigentes da Quercus a serem agredidos, apesar da presença de elementos da GNR no local.
Segundo Domingos Patacho, da Quercus, a acção dos ambientalistas foi feita na Vicaima porque é uma das maiores empresas processadoras de madeira em Portugal e "deve assegurar que toda a madeira que utiliza tem origem legal, em florestas geridas de forma sustentável".
De acordo com o ambientalista, Portugal é o quinto maior importador mundial de madeira da Amazónia brasileira, onde a desflorestação afectou, só em 2003, o equivalente a um terço do território português.
Domingos Patacho sustenta que as associações ambientalistas têm informações de que o grupo Vicaima, a que está ligada a Madeiporto, opera com produtores que promovem o abate indiscriminado de árvores da Amazónia.
A acção de hoje dos ambientalistas surge na sequência da tentativa de impedir a descarga de um navio carregado de madeira exótica, na semana passada, no porto de Leixões, gorada pelo facto de estar livre um cais a montante da ponte levadiça, onde os activistas se tinham acorrentado.
Luís Galrão, da Quercus, disse aos jornalistas, no momento em que era levantado o bloqueio, que "tudo podia ter ficado resolvido em dez minutos se tivesse havido abertura da empresa, o que lamentavelmente não aconteceu" e que o bloqueio foi voluntariamente terminado para evitar mais incidentes.
Quanto aos prejuízos invocados pela Vicaima, disse que a empresa os terá de provar nas instâncias judiciais, onde a Quercus apresentará queixa pelas agressões.