Ambiguidades na aliança entre Cerejeira e Salazar
A historiadora Irene Pimentel apurou algumas diferenças de orientação entre Cerejeira e Salazar quando investigava para a biografia do Cardeal. O “silêncio ensurdecedor” em relação às vítimas da PIDE era interrompido sempre que considerava que o Estado podia infringir as liberdades da Igreja Católica. Um jogo em que se articulam interesses do Vaticano, padres oposicionistas, organizações da juventude e polícia política.
Eram as ideias feitas de praticamente todas as pessoas e que variam consoante o campo ideológico em que se encontram. Tendo lutado contra o regime ditatorial, eu entendia que a Igreja chefiada por Cerejeira era o braço direito do regime salazarista.
Com o estudo matizei um pouco essa noção, que era caricatural, e apercebi-me que até houve, ao longo dos anos, algumas divergências, embora não de muita monta nem muito radicalizadas. Cerejeira, que sempre se pautou por defender o que considerava a "sua" Igreja em vez de apoiar o regime, entenda que o regime de Salazar era o ideal para voltar a dar o que considerava que a Igreja tinha perdido durante a Primeira República. Especialmente nos primeiros anos, foi instituída a separação entre a Igreja e o Estado, foram aprovadas leis da família, que eram contra tudo o que a Igreja defendia; houve perseguição a padres, um movimento anti-clerical, acabaram os feriados religiosos e o Estado deixou de subvencionar a Igreja como fazia no tempo da monarquia.
Cerejeira e Salazar mantiveram a separação Igreja - Estado, embora com uma ligação umbilical maior. Evidentemente que o relacionamento entre a Igreja Católica e o regime salazarista é fortíssimo. Cerejeira sabia que era através do apoio ao regime que podia conquistar mais benesses e o regime também sabia que a Igreja lhe podia ser muito útil a todos os níveis: no que respeita ao corporativismo, para eliminar a luta de classes, na questão anti-comunista e na questão dos missionários. Cerejeira não gostou muito de uma espécie de estatização - com o nome de nacionalização - das missões, ou seja, a necessidade do regime português dar a sua autorização a cada vez que havia um bispo ou um missionário nomeado pelo Vaticano.
A Concordata veio ser uma prova desse entendimento?
Justamente, Cerejeira lutou sempre para que fosse assinada uma Concordata entre o Estado e a Igreja Católica. Houve um processo extraordinariamente longo, entre 37 e 40, de discussão sobre o Acordo Missionário e a Concordata, assinada em 1940. É verdade que o regime deu muito à Igreja, mas Cerejeira pensava que poderia ter beneficiado muito mais. Disse, em vários momentos, que o Vaticano entendia ter feito demasiadas concessões ao Estado Português e que este não tinha compensado da forma como o Vaticano esperaria. O Estado comprometeu-se a apoiar as missões. Cerejeira foi o capelão-mor dos bispos castrenses e a Igreja Católica defendeu sempre o esforço da guerra colonial, sendo por isso criticado pela Oposição ao regime. Na defesa do Império português não havia divergência com Salazar; mas enquanto este defendia uma linha mais "civil" do Minho a Timor, Cerejeira seguia a perspectiva da missão católica, da missionarização. As colónias estavam ali, faziam parte do Império português para serem missionarizadas, no sentido de trazer mais gente para o catolicismo.
Houve algumas igrejas que tinham sido estatizadas que não voltaram de imediato à Igreja Católica, assim como uma discussão muito prolongada sobre a questão do casamento que era até aí registado civilmente e o Vaticano queria que fosse só registado catolicamente. Cerejeira não conseguiu o que pretendia. Salazar fez um compromisso: o casamento católico conta tanto como o registo civil, mas este tem de continuar. Por outro lado - e este foi o grande benefício da Igreja- , duas pessoas casadas pela Igreja Católica deixavam de se poder divorciar. Esta cláusula da Concordata foi a primeira a ser abolida logo a seguir ao 25 de Abril. Aliás, a primeira grande manifestação pós-25 de Abril não foi por causa de aumentos de salários ou de outros tipos de liberdades, mas justamente para que essa lei do divórcio fosse abolida, porque, através da impossibilidade de um novo casamento, provocava muitos filhos ilegítimos. (A Concordata só foi renegociada em 2004.)
Manuel Gonçalves Cerejeira (Lousado, 1888 - Lisboa, 1977) nasceu numa família do Minho rural em 1888. Estudou no Liceu Seminário de Guimarães e concluiu o curso complementar de Letras, no Porto. Depois de uma passagem pelo Seminário de Braga, inscreveu-se no curso de Teologia em Coimbra, onde também estudou Direito e História. Foi professor durante uma década na secção de Ciências Históricas até à nomeação como Auxiliar do Patriarca de Lisboa. Após a morte de D. António Mendes Belo, em 1929, ocupou o seu lugar e, por ser o mais novo do Colégio Cardinalício, foi chamado de Cardeal-Menino. Durante o pontificado de mais de quatro décadas (saiu em 1971 com 82 anos), o cardeal Cerejeira particiou nos conclaves que elegeram Pio XII (1939), João XXIII (1958) e Paulo VI (1963). Cerejeira foi o cardeal que participou em maior número de conclaves, tendo sido decano da Ordem dos Presbíteros do Triunvirato entre a morte de João XXIII e Paulo VI. Nessa circunstância, governou a Igreja em conjunto com o Camerlengo até à eleição do novo Papa. O Cardeal Cerejeira foi membro da Real Academia de La História de Madrid, da Academia de Letras Brasileira e da Academia de Letras de São Paulo. Foi distinguido com a Grão Cruz da Ordem do Cruzeiro do Sul, Grã Cruz da Ordem Militar de Cristo, (1932) , Grã-Cruz da Ordem de Santiago de Espada (1936), Cruz Meritíssima de São Raimundo de Penhaforte (1945) e as mais altas distinções da Ordem de Malta e da Ordem Equeste do Santo Sepulcro e Grã-Cruz da ordem do Infante Dom Henrique (1969).
Qual foi a posição de Cerejeira face à detenção de membros do clero mais oposicionistas?
Foi o silêncio, muitos opositores e pessoas da Igreja Católica que foram divergindo do regime criticaram sempre o "silêncio ensurdecedor" do Cardeal Cerejeira. Sabia o que se estava a passar relativamente ao bispo do Porto, quando a partir de 1959 foi proibido de entrar em Portugal e teve de iniciar um exílio de 10 anos. O bispo do Porto diz, mais tarde, que ele "não mexeu uma palha".
Cerejeira esteve em silêncio. Prudência, prudência, prudência! Já em 68, num livro em que faz um balanço da sua vida, Cerejeira defende-se e responde a várias críticas. Esta é já uma fase completamente diferente, de crise para a Igreja. Explica que foi muito prudente, porque tinha de avaliar como proceder para gerir os casos mais complicados na Igreja de modo a interceder por eles junto do regime.
No caso do padre Abel Varzim, muito importante nos anos 40, que dirigia o jornal "O Trabalhador" da Juventude Operária Católica (JOC), também afastado pelo regime, Cerejeira foi de novo acusado de nada ter feito... A dada altura, o padre Perestrelo, que abriu a Sé de Lisboa aos conspiradores do chamado "golpe da Sé", em 1959, foi perguntar ao Cardeal Cerejeira o que devia fazer uma vez que tinha sido chamado à PIDE. Cerejeira respondeu "vá, não lhe vai acontecer nada". Acabou mesmo por ser preso, não esteve muito tempo, mas foi preso. Cerejeira sabia que havia tortura, que a PIDE era brutal, até porque teve uma familiar presa que mandou dizer que ouvia gritos na sede e nas prisões da PIDE.
A embaixatriz do Brasil, que morava por trás da (Rua) António Maria Cardoso (onde ficava a sede da PIDE-DGS), assistiu à queda de um preso do célebre 3.º andar, onde os presos eram torturados.
A única vez em que há um registo de conversa em que Cerejeira faz qualquer coisa contra (a PIDE) é justamente na sequência da queixa da embaixatriz do Brasil. Falou com o Trigo Negreiros (ministro do Interior) que, por sua vez, vai ter com o Neves Graça (chefe da PIDE) e ambos dizem que aquele homem tinha resolvido suicidar-se, que é como a PIDE dizia sempre que havia um preso que morria na fase do interrogatório. Responderam também que os gritos que a embaixatriz dizia ouvir eram normalmente os familiares dos presos que queriam fazer estardalhaço. Cerejeira acabou por aceitar (as explicações), mas é a única vez que pergunta directamente: "Espero que a polícia não tenha um comportamento que não seja digno de um cristão..." O Neves Graça, de uma forma um pouco insolente, escreve ao Cerejeira a responder "senhor Cardeal, não sei se percebe, mas estamos aqui a defender o património comum e estamos a lutar contra os comunistas, que também são os inimigos da Igreja".
Que sabemos sobre o processo de decisão dentro da Igreja portuguesa sobre questões controversas como a entrevista de Paulo VI com os dirigentes dos movimentos independentistas africanos?
É preciso dizer que Cerejeira viveu até 77, sobreviveu sete anos ao seu amigo Salazar, e que deixou de ser Cardeal Patriarca em 71. Não sabemos nada do que diz dessa entrevista concedida por Paulo VI aos dirigentes dos movimentos de libertação das colónias portuguesas de África. Nunca se mexe em relação às muitas divergências do clero africano com o regime, como a situação do bispo da Beira, Sebastião de Resende. O episódio dos padres de Macuti e as acusações de massacres em Moçambique já foram depois de ele "sair" do Patriarcado.
Tenho de dizer que, para esta biografia, não pude consultar os arquivos do Patriarcado porque ainda não estão disponibilizados, embora me tenha sido dito que estão a ser analisados para, em breve, poderem ser disponibilizados. Quando perguntei se podia consultar, a Igreja entendeu que ainda era muito cedo. De facto, na lei dos arquivos portugueses está referido o período de 50 anos para os casos mais complicados, mas depois há uma latitude de liberdade. Foi por este motivo que pude consultar arquivos da PIDE posteriores, com menos de 50 anos.
Considera que tem o distanciamento histórico necessário?
A diferença entre História e Jornalismo é que nós (historiadores) já sabemos tudo o que se passou relativamente a um assunto, porque a questão chegou ao fim. Por exemplo, tudo o que foi antes do 25 de Abril acabou no 25 de Abril, mesmo até o comportamento da Igreja Católica. Podemos entender que houve continuidade, ruptura ou ambos, mas de facto o comportamento da ditadura acabou ali. É por isso que se pode fazer investigação sobre a polícia política. Acabou naquele momento.
Nas situações em que a passagem para a democracia não procedeu por ruptura torna tudo mais difícil, até para aceder aos arquivos. Os arquivos da Igreja Católica são diferentes porque a Igreja não tem a nossa noção do tempo, é tudo contabilizado em milhares de anos.
Uma vez que o Cardeal Cerejeira sobreviveu ao 25 de Abril, pego um pouco na forma como a Igreja Católica e as novas elites do regime democrático divergiram do que tinha acontecido no primeiro período da República quando houve uma grande ruptura. Houve uma adaptabilidade muito grande quer da Igreja, quer do novo regime em relação à Igreja.
Que fontes se revelaram mais interessantes?
Consultei tudo que Cerejeira escreveu, a nível religioso e historiográfico, uma vez que foi, ele próprio, um investigador; e o arquivo Salazar. Algumas pistas da documentação foram encontradas no Vaticano pela Rita Almeida Carvalho, muito importantes sobretudo em relação à forma como foi nomeado Cardeal.
O processo que não foi nada pacífico e havia vários candidatos, a ponto de se dizer que Cerejeira foi uma segunda ou terceira escolha. É muito interessante porque é uma escolha que agrada aos militares republicanos conservadores que estavam no Governo à época. Estamos a falar em 1930, ainda Salazar era ministro das Finanças, mas já estava a ganhar hegemonia dentro do regime. Alguns republicanos dentro do regime apoiaram Cerejeira porque este, tal como Salazar, não só defendia a separação (Estado-Igreja) que era a linha do Vaticano, como defendeu a linha de Leão XIII no sentido de os católicos participarem no jogo político fosse o regime monárquico ou republicano. Isso foi muito importante e retirou a "ideia" de uma actuação só em regimes simpáticos para a Igreja. Conseguiram fazer uma separação entre os interesses do catolicismo e os do monarquismo, agregando católicos também republicanos. Quanto a mim, foi a grande visão dos dois no início dos anos 20 do século XX.
Vamos agora dar um grande salto, não tanto geográfico, mas no tempo. Há algum registo de tomada de posição crítica do Cardeal Cerejeira à deportação de republicanos refugiados em Portugal e entregues às tropas franquistas?
O "silêncio ensurdecedor" está lá sempre. Ele só não tem um silêncio ensurdecedor quando acha que o Estado pode infringir as liberdades e a actuação da Igreja Católica. Daí a grande polémica que teve com o ministro Carneiro Pacheco, em 1938, quando vêm à luz do dia as organizações estatais de juventude: as Mocidades Portuguesa (1936) e Portuguesa Feminina (1938). A Igreja Católica tinha as suas próprias organizações, na Acção Católica, e temeu que o Estado enveredasse por uma via totalitária, ou seja, que só deixasse permanecer as organizações estatais, como na Alemanha nazi. Na Alemanha hitleriana tudo o que eram organizações de acção católica ou acabavam ou os jovens ali organizados entravam na Juventude Hitleriana. Cerejeira temeu que acontecesse o mesmo em Portugal e ergueu-se logo quando o ministro da Educação (Carneiro Pacheco) quis acabar com o escutismo católico.
São sempre questões ligadas ao espaço de actuação da Igreja, como a intenção de estatizar as Misericórdias que levam Cerejeira a divergir do regime salazarista. Durante o regime era claro que Salazar era quem mandava na política e os católicos podiam intervir a nível da Educação, da assistência e do social, e eventualmente no político desde que não fossem contra ele. Cerejeira manteve essa linha.
Estamos a falar de um jogo de poder, baseado na delimitação de espaços, de "território"?
É exactamente isso: uma delimitação de espaços, "a cada um o seu território". Quando Cerejeira vai cumprimentar Salazar, em 32, pela chegada à Presidência do Conselho de Ministros, diz: não te esqueças que estás aqui por vontade de Deus e com o apoio da Igreja; ao que Salazar responde: estou aqui por nomeação do Presidente da República e a partir de agora os nossos caminhos divergem. Tu ocupas-te da Igreja e eu ocupo-me do Estado.
Aliás, não sabemos bem o que se passou porque temos de contar com as fontes. Neste caso, é Franco Nogueira quem descreve a situação, uma fonte bastante insuspeita porque fez uma hagiografia e um elogio ao Salazar. Escreve mesmo que, a partir daquele momento, "os dois amigos e ex-companheiros (da Casa) dos Grilos olharam um para o outro e nunca mais seria nada igual". Mas Franco Nogueira também está a defender pseudo-independência da Igreja Católica em relação ao Estado Novo. Temos de contextualizar os motivos de tal chamada de atenção. Cerejeira potenciou as divergências com Salazar a seguir ao 25 de Abril, porque lhe convinha e ao contrário do que até então tinha acontecido.
Os seus amigos e pessoas em volta disseram que ele sempre se tinha erguido contra a censura, contra a polícia política, que tinha tido uma posição de Humanista em relação ao Império colonial. É verdade que Cerejeirra disse que estávamos nas colónias para fazer a missionarização e que era preciso tratar bem os africanos, mas nunca se ergueu contra o estatuto do indígena, nem contra os trabalhos forçados.
Encontrou algum registo de uma tomada de posição crítica sobre o apoio concedido por Salazar a Franco durante a guerra civil de Espanha?
De novo o silêncio, a não ser em dois ou três aspectos em que o discurso de Cerejeira não seguia o da Igreja Católica em Espanha. Mas também o discurso de Salazar não era o de Franco. É preciso dizer que os rebeldes franquistas fizeram um golpe de Estado relativamente ao Governo legitimamente eleito da Frente Popular e assumiram sempre que estavam numa cruzada religiosa. Cerejeira não gostava disso. Muitas destas interpretações podem ser corroboradas ou contraditas no dia em que acedermos aos arquivos de Cerejeira. Por exemplo, temos as cartas que escreveu a Salazar, mas não temos as cartas de Salazar para Cerejeira e que devem lá estar.
A propósito do anti-semitismo nazi, houve alguma intervenção a favor do acolhimento de judeus?
Não, é sempre o silêncio. A Igreja Católica, mesmo os jornais católicos "A Voz" e "O Novidades" erguem-se, a dada altura, contra o que se estava a passar na Alemanha e na Polónia - a perseguição à Igreja católica - por causa dos relatórios dos bispos alemães e polacos. O local do extermínio, do Holocausto, na Polónia, era extraordinariamente católico. Os católicos também foram perseguidos mesmo na Alemanha, embora não tanto como na Polónia. Acontecia era que, se um católico (alemão) se erguesse contra o regime nazi ia, evidentemente, para o campo de concentração, o que não acontecia se a sua actuação se limitasse ao campo religioso.
A Alemanha nazi tentou fazer uma Igreja católica nacional, ou seja, estatizada, uma proposta a que a Igreja Católica portuguesa e até o Papa faziam muitas críticas.
Irene Flunser Pimentel licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, em 1984; concluiu o mestrado em História Contemporânea na Universidade Nova de Lisboa, com a tese "Contributos para a História das Mulheres no Estado Novo. As organizações femininas do Estado Novo (Obra das Mães pela Educação Nacional e Mocidade Portuguesa Feminina), 1936-1966"; doutorada na mesma universidade com uma investigação sobre a PIDE/DGS, Polícia Política do Estado Novo (1945-1974) em 2007.
Iniciou-se nos trilhos da investigação académica nos anos 90, tendo centrado os seus estudos no período do Estado Novo "porque vivi esse período e estive politicamente activa. Sempre me interessei por saber se os mitos e as imagens que tinha na cabeça eram, de facto, assim", dizia à RTP no dia em que ficou a saber da sua escolha para Prémio Pessoa (2007).
Irene Pimentel é autora de vários trabalhos sobre o Estado Novo: "Biografia de um inspector da PIDE" (2008); "Portugal, Um País de Refúgio. Os Refugiados em Portugal. 1933/1945", em colaboração com Christa Heinrich (Alemanha, 2008), na Alemanha; Fotobiografia de José Afonso (2007); PIDE/DGS 1945-1974 (2007); "Mocidade Portuguesa Feminina" (2007); "Vítimas de Salazar. Estado Novo e Violência Política", em co-autoria com João Madeira (2007); "Os Judeus em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial. Em fuga a Hitler e ao Holocausto" (2006); Fotobiografia de Manuel Gonçalves Cerejeira (2002); "História das Organizações Femininas do Estado Novo" (2001).
Integra o Instituto de História Contemporânea da universidade em que se doutorou, tendo publicado diversos artigos em jornais e revistas portuguesas e estrangeiras sobre o Estado Novo, a II Guerra Mundial, o nacional-socialismo e o Holocausto.
Tem sido consultora de séries de ficção e documentários: "Anos Quentes"; "Cartas a Uma Ditadura"; "Ei-los que partem" (2006); "Franco e Salazar" (2002); "As mulheres no Século" (2002); "Enfermeiras do Estado Novo" (2001); "Traga o seu jornal" (2001); "Natal 71" (2000). É co-autora (com Jacinto Godinho) de uma série de documentários sobre a PIDE/DGS, a exibir na RTP.
Cerejeira tem dois textos muito importantes, um de 38, contra o nazismo e o totalitarismo. Depois, o jornal do Episcopado, a que preside, o "Novidades" publica muitos textos contra a forma como os católicos são tratados na Alemanha. O próprio jornal "A Voz", que até é mais pró-regime e monárquico do que o "Novidades", publicou em 42 um artigo dizendo que havia coisas muito estranhas que se estavam a passar em Auschwitz. Ainda não era sobre o extermínio, que estava a começar, mas de um período anterior, em que o jornal noticiava o assassinato de jovens nesse campo. A censura portuguesa corta, dizendo que o reportado era de tal maneira horrível que não se devia acreditar.
Em relação ao relacionamento entre o Papa Pio XII e a Alemanha nazi?
É uma questão muito actual, porque só agora se estão a abrir os arquivos e depende de como se interpreta.
Sem ter estudado esse tema, penso que se está a potenciar muito o pseudo-apoio que terá dado a alguns novos convertidos, judeus convertidos ao cristianismo, mas também sempre com a condição que eles se convertessem. Muitos passaram por Portugal; eram refugiados judeus que se tinham convertido ou pelo menos disseram que se tinham convertido ao cristianismo. Graças a isso obtiveram um visto do Vaticano e outro de entrada no Brasil e puderam, assim, entrar em Portugal. Sobre eles, diziam as autoridades que eram "católicos não arianos".
Segundo a lei, era muito difícil entrar em Portugal. Depois, a ditadura portuguesa felizmente tem estes espaços em que as pessoas se podem enfiar para contornar a lei. Pela lei, um refugiado judeu ou perseguido pelo nazismo só entrava se tivesse um visto do país de destino ou se pudesse garantir que saía de Portugal dentro de um ou dois meses ou apresentasse um bilhete de barco, o que a maior parte das pessoas não tinha. Por isso é que, graças a Aristides Sousa Mendes, há tantos refugiados em Portugal.
Como reagiu o Cardeal Cerejeira perante confrontos eleitorais em que houve candidatos oposicionistas carismáticos, como Norton de Matos e Humberto Delgado?
Até é possível ir um pouco atrás, a 45, ano da célebre frase de Salazar das "eleições tão livres como na livre Inglaterra". Alguns católicos, entre os quais Francisco Veloso, que tinha sido colega de Salazar e Cerejeira em Coimbra, apoiam o MUD (Movimento de Unidade Democrática). Salazar deve ter dito a Cerejeira: cuidado com as ovelhas tresmalhadas, vê o que fazes. Cerejeira tem um célebre discurso referindo que a Igreja Católica não diz em quem é que se vota, ela própria e o clero não intervêm no jogo político, mas os católicos devem intervir tendo como único cuidado não votar em pessoas contra os valores católicos. O regime considerou que houve uma ambiguidade de Cerejeira, porque não disse de forma clara em quem os católicos deviam votar.
Durante as presidenciais de 49, também não se percebe a intervenção de Cerejeira na célebre polémica que envolveu a utilização da Igreja Católica pelo regime. Os elementos de apoio ao Norton de Matos fizeram um comício na Voz do Operário, em que algumas mulheres do movimento de apoio criticaram o facto da Igreja Católica utilizar a superstição para levar as mulheres atrás. Isto deu uma grande polémica e o regime percebeu que podia utilizar a situação como arma eleitoral. Então, um grupo de mulheres do apoio ao candidato do regime promoveu várias missas e comícios, um dos quais no Pavilhão de Desportos, em Lisboa, para levantar a honra da Virgem Maria e de Nossa Senhora de Fátima, que tinha sido vilipendiada pelo Norton de Matos. Não se conhece a atitude de Cerejeira, mas quase de certeza que teve ali uma mãozinha.
Em 1958 é mais grave, porque há um texto do Episcopado referindo que os católicos têm de intervir e perceber que o próprio Papa diz que não se pode votar em comunistas. Nessa altura havia muitos mais católicos progressistas do lado de Humberto Delgado. Por outro lado, havia a história do bispo do Porto que não disse textualmente ser a favor de Delgado, mas queixa-se por ter sido obrigado a voltar a Portugal para votar no candidato do regime, dando a entender que votou porque era isso que esperavam dele, mas começa a criticar o regime.
Salazar quer sempre que Cerejeira seja menos prudente, quer sempre uma atitude menos ambígua. Até o facto de ele não apelar ao voto contra Humberto Delgado, que é o candidato que pode pôr em causa o regime, e o facto de alguns católicos apoiarem o general deixa Salazar furioso. A seguir à eleição, Salazar tem uma célebre frase: "a partir de agora a Frente Nacional da qual o regime se ergueu está quebrada". Está a falar dos católicos. Tem muitas conversas com Cerejeira a quem diz para ter mão no rebanho
Na sua condição de mulher, como vê a "utilização" dos movimentos das mulheres pelo regime?
Há uma célebre frase do Carneiro Pacheco que indica os homens e mulheres no Estado Novo se organizavam em torno do mote: "um lugar para cada um, cada um no seu lugar". É muito interessante. As mulheres em casa, casarem, tratar do lar e das crianças, quando muito, no espaço público, estão na educação e na assistência. Os homens a lutarem pelo regime e a trabalharem no exterior. Tudo é visto desta forma.
(Mas) há um efeito perverso nisto. Ao dizer que "um lugar para cada um, cada um no seu lugar" as organizações femininas estatais, caso único nas ditaduras, foram dirigidas por mulheres. Daí (o Estado Novo teve de) criar uma elite feminina, também adaptada ao regime e que era exactamente ao contrário do que se queria para as mulheres. Em vez de membros dessa elite feminina se casarem e construírem um lar - como todas as mulheres - para se dedicarem ao seu trabalho de serem uma elite feminina, de dirigirem as jovens (de prestarem educação e assistência), o Estado Novo até achava bem que não se casassem.
A oposição não "utiliza" as mulheres, mas tem uma secção de apoio ao candidato Norton de Matos que resolve introduzir a questão feminina. O regime também utiliza isso e daí as grandes manifestações das mulheres de apoio ao Salazar em 58.
Para além da Mocidade Portuguesa Feminina e da Obra das Mães foi criada, em 49, a organização Movimento Nacional Feminino, para apoiar o candidato presidencial do regime, Óscar Carmona. Depois do susto do "terramoto" que representou a campanha presidencial de Humberto Delgado, em 58, querem refazer essa organização e utilizam a "mailing list" da Acção Católica e, em 61, há outra vez o Movimento Nacional Feminino de Cecília Supico Pinto, já para apoiar o esforço de guerra.
Há sempre uma utilização, o que é muito curioso porque ao mesmo tempo há um regime que diz que "o lugar da mulher é no lar".
O subtítulo Príncipe da Igreja tem a conotação do príncipe de Maquiavel, no sentido de delimitação de território?
É curioso porque, na sessão de apresentação do livro, o António Matos Ferreira fez a mesma interpretação. Faz todo o sentido. Eu não pensei nesse sentido; às vezes fazemos uma escolha e não vemos todas as suas leituras. O subtítulo do Príncipe foi-me sugerido pela editora e que eu achei boa ideia porque permite-me tecer uma crítica interpretativa e, ao mesmo tempo, é algo que o próprio assume. Ele considera-se o Príncipe da Igreja porque até ao Vaticano II os bispos eram considerados príncipes da Igreja; a hierarquia da Igreja era igual à hierarquia do regime monárquico, feudal.
É, também, para mostrar que é um homem do Vaticano I, o arauto da Igreja luxuosa, que mostra o seu poder, no trono, expansivo, exibicionista, o ouro. "O príncipe" sugere o que ele quer mostrar e ao mesmo tempo uma espécie de crítica ou interpretação distanciada.
Também condizente com a sua personalidade extrovertida. Parecia que estávamos a falar de um "jogo de xadrez" político.
Evidentemente. Todos estes homens leram Maquiavel e sabem muito bem o que é o jogo político. É preciso ver que são militantes políticos desde a juventude. Dentro da linha de intervenção política são militantes quer no CADC (Centro Académico de Democracia Cristã) de Coimbra e quer no Centro Católico.
Na Introdução do livro escreve que sente empatia pelas figuras que escolhe biografar. Quais eram as características de Cerejeira que despertaram e alimentaram em si essa empatia?
Acho que só se pode fazer uma biografia se se tiver esse mínimo de empatia, que não é a mesma coisa que a simpatia. Também tive empatia com o inspector da PIDE e não encontro nele nada que me agrade. O grande problema é que todos são seres humanos, mesmo aqueles que se tornam monstros, assim como há os nazis e os SS a um nível muito mais grave.
Cerejeira não é um monstro, mas é um ser humano com as suas contradições, com as suas fraquezas e hipocrisias. Penso que é uma pessoa muito da aparência, como Salazar, só que mais expansivo. Um lado que me agradou nele é o da curiosidade intelectual e o facto de ter sido um académico, embora um investigador que utiliza a História sempre para legitimar o cristianismo. Do ponto de vista historiográfico, acho que não se deve utilizar a História para legitimar qualquer ideologia embora seja sempre marcada por estas, não conseguimos escapar a isso, mas podemos tentar que não aconteça. A leitura de certos documentos de sua autoria nesse aspecto suscitou em mim alguma curiosidade, assim como o facto de ler os inimigos (Marx, Sartre). Não é um obscurantista.
Ele é muito paternalista e considerava o clero como o seu rebanho. Quis formar uma elite eclesiástica, gostava de conversar com essa elite mas o grande problema é que esses são os primeiros a divergir dele, porque pensam pela própria cabeça.
Como reage às críticas que poderá ouvir de tentativa de branqueamento de uma figura do regime?
Já estou habituada. Quando fiz "O Inspector da PIDE" já o simples facto de fazer algumas comparações que têm de ser feitas do ponto de vista historiográfico, entre quantas pessoas foram mortas na Alemanha, Espanha e Portugal, levou algumas pessoas a acusarem-me de estar a branquear. Em História temos de dizer como as coisas são. E mais: não é por a PIDE ter matado menos gente que não foi tão horrível, porque destruiu a vida de muitas pessoas de um modo que nem temos a noção - desde a tortura até a um "não" nas autorizações para entrada na função pública.
As pessoas que me criticam dizem que não vão ler. "O Inspector da PIDE" foi assim todo o tempo: não vou ler, porque não vou ler porcaria, mas criticam a dizer que é porcaria. Vi noutro dia numa crítica, relativamente a este livro sobre Cerejeira, num blogue, que achei muito "boa". Dizia: as pessoas têm de estar atentas porque isto é branqueamento. Não sei o que está dito, porque também não vou ler, mas pelo simples facto de estar escrito "o Príncipe da Igreja", esta historiadora do regime - estão a chamar-me do regime - já está a dizer bem do senhor. Acho que é ao nível da estupidez.