Amiga de Marçal fala de fins-de-semana mas não se recorda de pormenores
Uma amiga de Hugo Marçal declarou hoje que em 2000 passou fins-de-semana com aquele arguido do processo Casa Pia em Mira e Évora e uma semana na Serra da Estrela, mas sobre as estadias evidenciou falta de memória.
A dificuldade em identificar e falar sobre os sítios onde esteve, passeou, tomou refeições e pernoitou, levou inclusivamente a juíza a questionar a testemunha se tinha algum problema de saúde ou se estava a sentir bem durante a sessão.
Ouvida na 249ª sessão de julgamento, começou por dizer que conheceu Hugo Marçal em finais de 1999, em Lisboa, mas sem precisar o local, e que manteve um relacionamento de seis meses com o advogado de Elvas e ora arguido.
Durante a instância de Sónia Cristóvão, defensora de Hugo Marçal, a testemunha disse ter passado fins-de-semana numa casa que o advogado possuía em Mira, perto de Coimbra (onde o arguido estava a tirar um mestrado), mas dessas estadias e das idas à Serra da Estrela e Évora (onde passou um fim-de-semana) disse "não se recordar" de muita coisa.
Este e outros arguidos são acusados de, em 2000, se encontrarem aos sábados na vivenda de Gertrudes Nunes, em Elvas, onde mantinham abusos sexuais com menores da Casa Pia, que ali eram conduzidos por Carlos Silvino.
A testemunha, que afirmou ser contabilista de profissão, justificou, a dada altura, a sua falta de memória com o facto de "aquele ter sido um período muito complicado" da sua vida, pelo que "sempre tentou esquecer" aquela fase.
Do pouco que foi dito, o tribunal ficou a saber que Marçal chegou a pernoitar uma vez na casa da testemunha em Massamá, mas até nas saídas com o advogado para beber um copo nos bares da Avenida 24 de Julho teve dificuldade em indicar o nome de um desses estabelecimentos, tendo o mais próximo sido "Stones".
José Maria Martins, advogado do principal arguido Carlos Silvino da Silva ("Bibi"), quis saber em que empresa a testemunha era contabilista, tendo esta e outras intervenções irritado a defensora de Hugo Marçal.
A testemunha continua o seu depoimento segunda-feira.
Na sessão de hoje foi ainda ouvida a irmã de Hugo Marçal - Maria Luísa Marçal Cardoso - que relatou que o arguido nunca estava em Elvas ao fim-de-semana, devido aos afazeres profissionais e ao mestrado, que o obrigava a deslocar-se a Coimbra aos sábados.
Disse ter passado grande parte desses fins-de-semana com a mulher de Marçal (sua cunhada) e nunca ter conhecido ou ouvido falar de nenhum dos arguidos do processo Casa Pia.
Alegou que não era possível o apresentador de televisão Carlos Cruz ter passado por Elvas sem alguém saber, pois aquela cidade alentejana é "um lenço de assoar".
"Elvas é um lenço de assoar. Tudo se sabe. Nunca ouvi dizer que Carlos Cruz esteve em Elvas", insistiu, alegando que também nunca viu qualquer "Ferrari" (um dos carros do médico e arguido Ferreira Diniz) naquela cidade, onde a acusação diz terem ocorrido abusos sexuais na casa da arguida Gertrudes Nunes.
Durante o dia de hoje, o tribunal ouviu ainda outras testemunhas, entre as quais Maria Isabel Carvalho Pinheiro, chefe da divisão da Acção Social da Casa Pia e que esteve na instituição entre 1999 e Fevereiro de 2005.
Nesta audição, Miguel Matias, José Maria Martins e o procurador João Aibéo insurgiram-se, sobretudo, contra o facto de a testemunha ter apontando três das testemunhas/vítimas deste processo como sendo dos alunos que na altura davam mais problemas, quando o universo de alunos internos rondava os 700 e a testemunha exibia dificuldade em soletrar o nome de outros miúdos problemáticos.