Analistas prevêm campanha "agressiva" e "determinante"
"Agressiva e interessantíssima" ou determinante na formação da opinião da "maior parte das pessoas" são opiniões distintas de dois docentes universitários analistas dos fenómenos eleitorais sobre a campanha para o referendo do aborto que hoje se inicia.
José Adelino Maltez, professor catedrático do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), disse à Agência Lusa prever que o período oficial de propaganda vai ser "mais intenso" do que habitual noutras consultas eleitorais.
Já o seu colega Pedro Magalhães, director do Centro de Sondagens da Universidade Católica, sustentou que os 11 dias de campanha vão fazer parte do eleitorado "mudar de opinião".
"O debate vai ser em torno de uma questão que parece simples", mas o tema do aborto "é mais complexo" do que optar entre diferentes projectos políticos como sucede nos outros actos eleitorais, defendeu este analista.
"A maior parte das pessoas está à espera da campanha para formar opinião", disse Pedro Magalhães à Lusa.
Adelino Maltez, também Director do Centro de Estudos do Pensamento Político do ISCSP, tem opinião distinta e considerou que o resultado, que passará, em seu entender, sempre pela vitória do "Sim" variará consoante o escalão etário dos abstencionistas.
Se forem os eleitores mais velhos a ficar em casa, o resultado será algo próximo dos 60 por cento a favor da despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) e 40 contra. Já se a abstenção colher mais no eleitorado jovem, os "resultados serão mais encostados ao Não", previu Adelino Maltez.
Quando confrontados com as sondagens que têm sido publicadas, e que dão uma vitória ao "Sim", mas com valores que diminuem à medida que se aproxima a votação, Pedro Magalhães defendeu que nos referendos "a imprevisibilidade é sempre maior que nas eleições" tradicionais e sustentou que a "campanha influencia indecisos, mas também todos os outros" eleitores.
"O referendo é a eleição em que os factores políticos têm menos importância" e onde as "predisposições [políticas dos eleitores] são menos favoráveis", afirmou o docente, que não revelou o sentido do seu voto.
Adelino Maltez, que disse ser pelo "Sim", salientou que o "grande teste" do dia 11 de Fevereiro é saber se o referendo será válido - o que implica que mais de metade dos eleitores têm de ir às urnas.
Mas o desfecho do referendo terá particular importância para a cúpula da Igreja, caso ganhe o "Sim". "Será a primeira vez que a Igreja perderá umas eleições", acentuou Adelino Maltez.
Esse empenho, disse, encontra-o na "campanha da igreja", com os bispos e padres a assumirem as suas posições publicamente e de forma inédita.
A este envolvimento da hierarquia católica o analista soma a campanha "mais agressiva" do "Não", ao mostrar "fetos e embriões", numa atitude "muito radical", que disse contrastar com a "postura moderada" que encontra no "comando do `Sim`", que atribui ao PS, partido do Governo.
"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?", é a pergunta colocada aos eleitores a 11 de Fevereiro, igual à do referendo de 1998.
Para a campanha, estão inscritos na Comissão Nacional de Eleições (CNE) 17 movimentos de cidadãos (cinco pelo "sim" e 12 pelo "não") e 10 partidos políticos.
Cerca de 8,4 milhões de eleitores estão recenseados para o referendo e a campanha dura 11 dias, entre 30 de Janeiro e 09 de Fevereiro.