António Arnaut afirma-se "essencialmente um intelectual" e diz que já nada quer da política
*** Texto de Casimiro Simões ***
Porto, 06 Dez (Lusa) - O advogado António Arnaut, fundador do Partido Socialista, admitiu hoje à Lusa que é "essencialmente um intelectual" e que não pretende regressar à política activa de que está afastado há 25 anos.
"Estou mais virado para as coisas do espírito", acrescentou o ex-ministro dos Assuntos Sociais em declarações à Lusa, a propósito do lançamento, no Porto, do seu primeiro romance "Rio de Sombras".
António Arnaut, que se estreou na poesia há 53 anos, abandonou já a barra dos tribunais e promete terminar, um dia, a sua vida pública como escritor.
Militante número 4 do PS, António Duarte Arnaut, de 71 anos, convidou o causídico Miguel Veiga, fundador do PPD-PSD, e seu amigo do tempo em que ambos frequentavam a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, para a apresentação, hoje no Porto, do seu último livro, "Rio de Sombras".
O livro é um romance histórico que questiona em que medida a acção político-partidária será ainda "compatível com a lisura de carácter" e com a ética.
"Há ainda na política lugar para a ética, como queria Hegel, ou apenas para a astúcia, como ensinou Maquiavel? E, se for este o caso, como parece pelo número cada vez maior dos seus discípulos, devem as pessoas sérias afastar-se da vida partidária, como acto de protesto, ou afrontar as labaredas em que se podem queimar?", pergunta Arnaut.
Desde que publicou, em 1954, o seu primeiro livro, "Versos da Mocidade", o antigo grão-mestre do Grande Oriente Lusitano deu à estampa mais duas dezenas de obras literárias.
Nestas, predominam a poesia e a ficção, além de ensaios e trabalhos diversos, em que ressaltam estudos e conferências sobre o escritor Miguel Torga, seu amigo, o Direito e a Maçonaria.
Embora ainda ligado à sociedade de advogados de Coimbra que ajudou a erguer, a que pertence agora o filho, António Manuel Arnaut, na prática já não exerce advocacia, actividade que o consagrou como referência dos palcos da Justiça.
Também a política, na qual se iniciou como opositor à ditadura de Salazar, e o PS, em cuja fundação participou, em 1973, já não o entusiasmam como outrora.
Afastado da política activa há 25 anos, deputado e ministro dos Assuntos Sociais após o 25 de Abril, António Arnaut destacou-se como autor da lei que criou o Serviço Nacional de Saúde (SNS).
"A primeira coisa que fiz na vida foi escrever poesia e hei-de morrer como escritor. A vida política não me permitiu publicar mais", lamenta.
Recorda que ganhou o gosto pela literatura muito jovem, quando o avô materno, António Freire "Moço", proprietário rural e "excelente contador de histórias", lhe facultava alguns dos autores clássicos portugueses.
Na casa de António "Moço", na aldeia natal da Cumieira, concelho de Penela, o pequeno Arnaut começou por ler as obras completas de Camilo Castelo Branco e Guerra Junqueiro, que um parente tinha trazido do Brasil.
"Sendo um `letras grossas`, o meu avô incutiu-me no espírito a sedução pelo maravilhoso", refere o autor de "Rio de Sombras", seu primeiro romance, com a primeira edição já esgotada.
António Freire "Moço" morreu quase com 100 anos. No livro de ficção "Rude Tempo, Rude Gente", publicado e 1985, o neto dedica-lhe um post-scriptum.
António Arnaut, que acaba de se estrear como romancista, com "Rio de Sombras", vê a poesia como "a linguagem autêntica do belo".
É um admirador dos poemas e contos de Miguel Torga, os quais, já adulto, leu muitas vezes ao avô António, pagando-lhe com a mesma moeda a "sedução pelo maravilhoso".
Entende que entre a poesia e o conto, géneros literários que marcam a sua obra, "há uma parede meeira", que separa e une dois vizinhos, como aquelas que dividem inúmeros prédios, urbanos e rústicos, uma realidade que António Arnaut bem conhece das andanças de advogado.
Com Torga, que morreu em Coimbra, em 1995, além da amizade tinha "muitas afinidades políticas e literárias", características confirmadas por sua filha, Ana Paula Arnaut, professora da Faculdade de Letras de Coimbra, que apresentou "Rio de Sombras" naquela cidade.
No livro, "entre tantos episódios menos edificantes para a democracia", segundo Ana Paula Arnaut, "ficamos a saber da inflexibilidade de um Partido Comunista que, depois da Revolução, esquece `os velhos republicanos e democratas` e afasta da cena partidária o camarada Ademar Lopes, por pertencer à Maçonaria".
"Sabemos, ainda, de múltiplas manobras que, agora, decorrem nos bastidores de um PS que, com frequência, e em virtude da ambição desmesurada de carreiristas da mais variada espécie, esquece os mais elementares valores de solidariedade e de honestidade humana e política", acrescenta Ana Paula Arnaut.
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