Aquacultura aposta em mais espécies mas "esquece" consumidores

A criação de peixes e bivalves em regime de aquacultura é um sector em crescimento e visa novas espécies mas os estudos sobre o consumidor português ainda são praticamente inexistentes, reconheceram especialistas.

Agência LUSA /

Começando por afirmar que "a aquacultura não é um substituto mas um com plemento da pesca", Maria Teresa Dinis, do Centro de Ciências do Mar do Algarve, congratulou-se por, em 2003, este sector ter sido um dos que "mais cresceu".

A nível mundial, "a aquacultura registou, em 2003, um crescimento de 6, 8 por cento, ficando à frente da avicultura (4,1 por cento), das pescas (3,2 por cento) e da suinicultura (3,1 por cento)", sublinhou a coordenadora da equipa d e aquacultura do Centro.

Mesmo assim, em 2004, "o total de produção nacional destas espécies foi de sete mil toneladas, o que ainda é muito pouco", assinalou a especialista, se gundo a qual são criados em regime de aquacultura em Portugal "o robalo e a dour ada, a truta, a amêijoa e algumas ostras".

De acordo com Teresa Dinis, "o pargo e o sargo são espécies a introduzi r no futuro, bem como o goraz, que está a ser objecto de trabalhos de investigaç ão entre Portugal e a Galiza, o mesmo sucedendo com o linguado, que ainda não es tá a ser produzido massivamente".

Florbela Soares, investigadora do Projecto Reprosol, do Programa Mare, lançado pela Direcção Geral das Pescas e Aquicultura, acrescentou à lista "o rod ovalho, um peixe plano como o linguado", e referiu estudos acerca da corvina, "p ara a introduzir a longo prazo".

Por seu turno, Maria Leonor Nunes, engenheira do Instituto de Investiga ção das Pescas e do Mar (Ipimar), destacou à Lusa a produção de bivalves como "a conquilha e a lamejinha ou os mexilhões criados no estuário do Tejo".

Uma diversidade de espécies para corresponder "à crescente procura dos portugueses", embora continue por estudar o universo e as características dos co nsumidores, como indicou Jorge Dias, que se deu conta desta lacuna ao preparar a sua intervenção nas Jornadas de Aquacultura, realizadas terça-feira na Universi dade do Algarve.

Com vista à sua comunicação, o investigador procurou em vão dados sobre o consumidor português: "Se os há, estão mal divulgados e eu vi-me obrigado a e xtrapolar conclusões a partir de estudos europeus que incluíam os nossos vizinho s espanhóis, que julgo terem hábitos semelhantes aos dos portugueses", referiu.

Também Maria Teresa Dinis considerou fundamental "fazer estudos que per mitam saber o que é que o consumidor deseja nesta área", sobretudo num momento e m que o consumo está a aumentar, "havendo até importação de salmão, criado em ág uas muito frias, ou de amêijoa vietnamita", como sublinhou Leonor Nunes.

Para a engenheira do Ipimar, a aproximação ao consumidor passa também " por tornar os produtos mais apelativos, nomeadamente disponibilizando o peixe já pronto a cozinhar, em filetes ou postas, o que é mais adequado ao ritmo de vida actual".

Outra barreira que pode dificultar o interesse dos consumidores é o pre ço dos peixes e bivalves criados em viveiro.

"Já se produzem alguns espécies em cativeiro com as dimensões pretendid as pelo mercado mas essas espécies têm, regra geral, um custo elevado, pois de o utro modo não se justificava investir na sua produção", esclareceu Florbela Soar es.

Apesar disso, argumentou Teresa Dinis, "a aquacultura pôs muita gente a consumir espécies que antes eram proibitivas, caso do salmão, cuja criação em c ativeiro na Escócia e na Noruega permitiu uma substancial redução no preço de ve nda ao público".


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