Areia usada no enchimento de praias deve ser compatível
Um especialista avisou que a areia usada no enchimento artificial de praias, processo em curso na Costa de Caparica, deve ter características idênticas às da que foi anteriormente levada pelo mar.
Escusando-se a comentar em concreto o caso da Costa da Caparica, onde nesta madrugada a força das ondas arrastou um bar de praia, Alveirinho Dias, da Universidade do Algarve, sublinhou a necessidade de usar o mesmo tipo de areia no reforço das dunas, sob pena de esta ser facilmente levada pelo mar.
"O ideal [para conter o avanço do mar] é manter a dinâmica do litoral, introduzindo sedimentos compatíveis com o sistema", adiantou.
A areia deve ter "o mesmo tipo de granulometria da que existia antes ou características parecidas ou grãos maiores", explicou o investigador do Departa mento de Ambiente e Ciências da Terra.
Quanto à colocação de pedras ou outras obras de engenharia mais pesada, solução que tem sido defendida pela Câmara Municipal de Almada e pela Junta de Freguesia de Caparica, o especialista diz que tal só deve acontecer "em último r ecurso".
"O litoral é dinâmico por natureza. Quando introduzimos elementos estát icos, como paredões ou esporões, interferimos de forma muito significativa nesta dinâmica e as consequências podem ser graves", salientou o investigador, admiti ndo contudo que, numa praia "com deficiências sedimentares graves é melhor ter e sporões do que nada".
Alveirinho Dias defendeu ainda que o que está a acontecer na Costa de C aparica passa-se também noutros locais, mas sem visibilidade mediática.
"Existem outros sítios com recuos de vários metros, mas se forem arrast ados uns pinheiros ninguém se preocupa, enquanto se for um apoio de praia ou uma casa já se torna um problema", afirmou.
Os problemas da erosão costeira, aliás, "só existem quando há ocupação" , frisou.
"Quando a costa não está ocupada, o mar vai recuando livremente. Pode t er consequências para os sistemas naturais mas não para o homem, por isso não é visto como um problema", acrescentou.
Portugal é um dos países europeus com maiores problemas de erosão coste ira, com taxas médias de recuo que variam entre os 0,02 e os nove metros nalguma s zonas do litoral, segundo o último Relatório do Estado do Ambiente (2004).
Cerca de 30 por cento da costa portuguesa é actualmente afectada pela e rosão, sobretudo no trecho Foz do Douro-Nazaré, onde existe um intenso processo erosivo numa costa arenosa baixa e sujeita a grande agitação marítima.
Desde Outubro de 2004 foram gastos pelo menos 8,2 milhões de euros em o bras de reparação das estruturas de defesa costeira da Costa da Caparica e da Co va do Vapor.
A necessidade da intervenção foi justificada pelo Instituto da Água (In ag) com a "carência generalizada de areia nas praias, ficando estas praticamente imersas em preia-mar (...) uma degradação clara de grande parte das obras de pr otecção existentes e o rebaixamento e destruição de zonas significativas das sua s estruturas".
Após a conclusão das obras (Maio 2006), estava já previsto o enchimento artificial deste troço de costa, com a colocação de cerca de dois milhões de me tros cúbicos de areias retiradas de locais designados para o efeito pelo Institu to Hidrográfico e/ou em dragagens da Administração do Porto de Lisboa para fins portuários.
O reforço das areias das praias do Norte começou a 10 de Dezembro, depo is de o mar ter destruído cerca de 16 metros de duna.