Arouca abre passadiço em áreas "intocadas" de águas bravas, cristais e espécies ameaçadas

Arouca, Aveiro, 17 jun (Lusa) - Os oito quilómetros de passadiços sobre o Rio Paiva, em Arouca, são inaugurados este sábado para proporcionar ao público um passeio "intocado" junto a descidas de águas bravas, cristais de quartzo e espécies em risco de extinção na Europa.

Lusa /

Suspenso acima do rio por uma estrutura fixa à encosta rochosa, o percurso pedonal estende-se entre a praia fluvial de Espiunca e a do Areínho e representa um investimento global de 1,8 milhões de euros, financiados em 85% pelo PROVERE - Programa de Valorização Económica dos Recursos Endógenos.

"Durante os dois primeiros concursos públicos que lançámos para esta obra não havia ninguém no mercado com coragem para a fazer, pela dificuldade de acesso a desfiladeiros muito íngremes e a locais até aqui intocados e nunca antes percorridos, aos quais só se chegava de barco", recorda à Lusa o presidente da autarquia, José Artur Neves.

"Mas fomos elevando o preço-base da adjudicação e à terceira tentativa finalmente acertámos, tendo agora aqui um percurso especial, de contacto privilegiado com um património natural impressionante, de grande biodiversidade, com espécies raras e muitas aspetos de interesse ao caminho", realça.

A empresa responsável pela obra é a DST, que, segundo José Artur Neves, "foi continuamente afinando os seus métodos construtivos e concluiu a obra dentro do prazo". O resultado é um passadiço que é essencialmente plano, mas que, sensivelmente a meio do trajeto, inclui 500 degraus desde a Garganta do Paiva até à cascata da Aguieira e ainda uma ponte móvel de acesso a Alvarenga, "para que os habitantes da aldeia possam cruzar o rio para usufruir da estrutura pedonal".

Ao longo do trajeto há oito "bio-spots" com painéis informativos sobre as espécies animais, vegetais e minerais que podem observar-se na envolvente.

No primeiro caso, a oferta inclui lontras, rãs, trutas, bogas e salamandras, mas o destaque vai para cinco tipos de libélulas em risco de extinção na Europa e cuja fisionomia poderá parecer idêntica à de espécies mais vulgares, pelo que os painéis ensinam a detetar as diferenças de acordo com o tórax de cada inseto. Rara é também a borboleta Aurinia, que integra a lista das espécies protegidas, mas no Paiva se pode observar com facilidade tanto na fase de lagarta, nas madressilvas, como na de crisálida ou adulta.

No que se refere à flora local, por sua vez, há para descobrir no novo passadiço de Arouca freixos, amieiros e salgueiros, sendo que os medronheiros chegam a assumir porte de árvore. Entre as fissuras rochosas deteta-se também urze branca e fetos reais, e, ao longo do percurso, identifica-se ainda carqueja, que é quase exclusiva da Península Ibérica, e queiró, só observável em Portugal, Espanha e Norte de África.

Já quanto aos minerais, alguns setores das margens do Paiva revelam filões de quartzo leitoso entre as fraturas rochosas, assim como metaconglomerados constituídos por fragmentos de quartzo, quartzito e até xisto, e ainda os chamados "espelhos de falha", superfícies de pedra polida cujas estrias foram originadas pela fricção entre dois blocos de rocha.

José Artur Neves realça que todo esse património integra a Rede Natura 2000 e reflete "uma longa história" evolutiva, que se estima em 550 milhões de anos, desde a formação das rochas mais antigas do leito do rio até aos processos de meteorização e erosão que modelam atualmente esse curso de água.

Para usufruto pleno desse trajeto, os seus oito quilómetros estarão equipados com fontes naturais de água potável," devidamente testadas para consumo", e com indicações regulares de localização geográfica, para rápida contextualização em caso de emergência. "Assim, se alguém que não conhece a zona se sentir mal, os bombeiros saberão o local exato a que devem aceder", explica o presidente da Câmara.

Tópicos
PUB