Arqueologia resgata memórias de ex-trabalhadores da escavação de castro com cinco mil anos

por Carla Quirino - RTP
VNSP3000

A população que participou nas escavações do castro de Vila Nova de São Pedro, há 70 anos, foi convocada a integrar um novo projeto de investigação arqueológica que tem como objetivo recuperar as memórias desses trabalhos. Os arqueólogos querem juntar aos dados científicos as vivências e detalhes da escavação realizada na época, uma forma de mostrar a importância do conhecimento e conservação do património arqueológico. Com ajuda dos investigadores, os habitantes do concelho da Azambuja assumem o orgulho naquela estrutura classificada há 50 anos como Monumento Nacional.

Eram agricultores e pastores durante a maior parte do ano, mas pela altura do verão, quando a atividade do campo era mais reduzida, alguns deles ajudavam na escavação arqueológica.

Os homens participavam em tarefas mais pesadas enquanto as mulheres peneiravam a terra e recolhiam as peças que ficavam na rede. O salário permitia a estes trabalhadores engrossar o rendimento do mês, com os homens a receber o dobro das mulheres.

Graciente Seco, moradora de Torre de Pevalva e antiga trabalhadora nas campanhas arqueológicas na década de 60 do século passado, conta estas e outras histórias à RTP enquanto percorre, orgulhosa, o povoado fortificado com cinco mil anos. 

À entrada do velho castro de Vila Nova de São Pedro (VNSP), no concelho da Azambuja, Graciete descreve para a câmara a proposta de reconstituição do que poderia ter sido aquele sítio povoado ao longo do III milénio a.C. Com 78 anos, ainda pula muralhas fora, e aponta o local que escavou.

O castro de Vila Nova de São Pedro foi identificado em 1936, tendo sido escavado por Afonso do Paço e Eugénio Jalhay entre 1937 e 1967. O padre Jalhay morreu em 1950 e o Tenente-coronel Afonso do Paço assumiu a direcção das intervenções arqueológicas até 1967, falecendo no ano seguinte.

Ao longo destas 30 campanhas foram identificadas três linhas de muralha, que circundavam um reduto interior, interpretado como o centro do povoado de uma comunidade agro-metalúrgica atribuída ao periodo Calcolítico, há cerca de cinco mil anos. Das escavações foram resgatadas milhares de peças arqueológicas que documentam as vivênvias daquela comunidade.

Também Acilda Moreira Silva, de 86 anos, residente de Vila Nova de São Pedro, trabalhou nas escavações em 1952 e 53, anos antes de Graciete. Recorda os verões animados de criança quando chegavam os arqueólogos e a tarefa de peneirar a terra trazida em vagonetes do interior da muralha.
Projeto VNSP3000

Depois da morte de Afonso do Paço houve apenas pontuais trabalhos arqueológicos associados ao castro, pois os arqueólogos da geração pós-25 de Abril preferiram abraçar projetos novos onde as modernas metodologias de escavação poderiam ser aplicadas de raiz.

Só em 2017 a população de Vila Nova e Torre de Penalva voltou a ver uma mobilização importante de arquélogos para desenvolver o projecto "VNSP3000". A equipa é constituída por Mariana Diniz e Andrea Martins do Centro de investigação de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, UNIARQ-FLUL, Cesar Neves da UNIARQ-Associação dos Arqueólogos Portugueses (AAP) e José Arnaud da AAP. Conta ainda com a colaboração de alunos da licenciatura e mestrado em arqueologia da Universidade de Lisboa.

Durante os cinco anos de investigação os arqueólogos procuraram atualizar os dados do sítio usando modernos métodos de investigação. Caracterizar o espaço fortificado e a população que lá vivia são planos associados ao projeto de "requalificação de um dos mais importantes povoados calcolíticos da Península Ibérica" destacam os arqueólogos.

Os trabalhos de campo desencadearam também visitas dos moradores, alguns deles, antigos trabalhadores. Esta aproximação surpreendeu a equipa de investigação, não só porque foi calorosa, mas também porque vinha acompanhada de testemunhos referentes aos momentos vividos com Afonso do Paço e o padre Jalhay, sobre os quais há escassez de informação.

Os arqueólogos decidiram acrescentar ao projeto de investigação a componente de "preservação das lembranças e histórias contadas pelos seus protagonistas".
Arqueologia da Memória
A ausência de informações arqueológicas das campanhas das décadas de 40, 50 e 60 do século passado podem ser agora colmatadas com os contributos dos antigos trabalhadores. O resgate dessa memória ajuda a construir a história do sítio para além de trazer às comunidades locais um sentimento de orgulho e de identidade.

Contributos como os de Acilda e Graciete acrescentam história. "A memória contemporânea permite a construção de uma outra narrativa, por vezes secundária às intervenções arqueológicas tradicionais, numa perspectiva historiográfica e de uma abordagem antropológica e cultural", sublinha a equipa de arqueólogos.
Materiais arqueológicos - "cartas" decoradas
No espólio recolhido, encontram-se centenas de placas de cerâmica decoradas e perfuradas, identificadas como pesos ou elementos de tear. Integram um conjunto diversificado de artefactos que testemunham a economia de há cinco mil anos.

Afonso do Paço dizia às trabalhadoras que eram "cartas de jogar" do tempo calcolítico, conforme recordou Acilda.

As sociedades pré-históricas do III milénio a.C. são caracterizadas tanto pela prática da metalurgia com instrumentos em cobre, como pela intensificação da agricultura e pastorícia. Surge também uma nova tecnologia, a tecelagem. O linho e a lã constituirem novas matérias primas para manufatura de produtos diferentes, como o pano. A tecelagem torna-se uma atividade fundamental para gerar riquesa e fomentar as trocas com outros povoados.
População como guardiã
O serviço público da arqueologia ganha forma ao envolver as comunidades locais neste intercâmbio de conhecimento, conservação, proteção e divulgação do património. 

Se a remuneração desta atividade, ao longo de três décadas, trouxe beneficios à população de Vila Nova de São Pedro e Torre de Penalva, o reconhecimento da importância do sítio que ajudaram a resgatar também marcou a população das duas aldeias. 

Os muros de pedra daquele planalto começaram a contar novas histórias sobre os moradores de há cinco mil anos e o local passou a atraír um grande número de pessoas vindas de dentro e fora de Portugal.

"Esta comunidade reconheceu e apreendeu a verdadeira importância do sítio arqueológico e da arqueologia, como motor de desenvolvimento local a nível económico, cultural e patrimonial", sublinham os investigadores.

Para Acilda, o regresso dos arqueólogos ao castro desde 2017 é sinal de esperança. "Sinto muita alegria de eles virem renovar aquilo que era do passado. Estava tudo parado e agora vejo tudo a renascer novamente. Vem continuar a dar a conhecer ao mundo tudo o que aparece".

Graciete acrescenta que gosta de ver "o trabalho feito atualmente que está a pôr em evidência o monumento" e sente que os vizinhos também partilham essa satisfação. Diz que está sempre pronta a explicar aos mais novos a importância de conhecer como viviam os antepassados.
O castro foi classificado Monumento Nacional há 50 anos e para assinalar a data, decorre esta semana o "Congresso VNSP, 1971-2021, Cinquenta anos de investigação sobre o Calcolítico, no Ocidente Peninsular", que incluí também visitas ao local.

As fotografias para esta reportagem foram cedidas pelo Arquivo da Câmara Municipal da Azambuja e pelo Projeto de Investigação VNSP3000, assim como as imagens aéreas captadas por drone. A ilustração que documenta a proposta de reconstituição localizada na entrada do castro foi produzida por Guida Casella em 2019 no âmbito do Projeto de Investigação VNSP3000 para a Junta de Freguesia Manique do Intendente, Vila Nova de S. Pedro e Maçussa, Câmara Municipal da Azambuja. 
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