Arte milenar chinesa, Feng shui, cada vez mais usada em espaços públicos de Lisboa

A moderna decoração de restaurantes, hotéis e outros espaços públicos recorre cada vez mais ao "feng shui", uma arte milenar chinesa associada à procura da harmonia e cuja bússola se tornou um objecto indispensável para muitos decoradores.

Agência LUSA /

Segundo o "feng shui" (expressão que em chinês significa, literalmente, água e vento), aos pontos cardeais correspondem as energias dos cinco elementos (árvore, fogo, terra, água e metal), diferentes cores e aspectos específicos da vida, como o trabalho, a espiritualidade ou a saúde.

Aplicando uma bússola a uma planta arquitectónica, é possível encontrar as diferentes direcções e elementos, atribuindo assim as funcionalidades e cores correspondentes, de modo a dotar o espaço com um "bom feng shui", como dizem os especialistas.

"Não tem a ver com superstições. Está mais que provado que as energias existem e o +feng shui+ é a arte de as captar e tentar que os espaços tenham um ambiente mais harmonioso, consoante também as energias de cada pessoa", explica Rosa Lee, que cresceu a ver a mãe, chinesa, a usar esta tradição como um ritual de casa, conhecimento que consolidou mais tarde através de cursos.

O Instituto Macrobiótico de Portugal tem há vários anos um curso anual de "feng shui", frequentado sobretudo por arquitectos, decoradores e "designers" que pretendem aprender a criar "um melhor ambiente" nos espaços.

Além destes profissionais, há também cada vez mais "curiosos" que apenas querem conhecer esta filosofia e aplicá-la na sua vida pessoal, explicou à Lusa Francisco Varatojo, presidente do Instituto.

Localizado no segundo andar de um prédio antigo na Rua da Anchieta, no Chiado, o próprio instituto foi recentemente remodelado com base nos ensinamentos desta arte milenar.

"A casa estava em muito mau estado e necessitou de obras muito sérias", afirmou Francisco Varatojo, adiantando que a intervenção passou por "pintar as paredes das divisões consoante as orientações" e dar-lhe o uso mais apropriado de acordo com os pontos cardeais.

Situada a Norte, a sala de aulas, por exemplo, foi pintada de cinzento para proporcionar uma maior concentração dos alunos, enquanto a sala de "shiatsu" (técnica oriental de massagem utilizada para tratamentos) é cor-de-laranja, transmitindo uma maior descontracção.

"Proporcionar um espaço de harmonia" foi também o objectivo de Najma Saiyad, proprietária do "Psi", um restaurante vegetariano perto do Campo Mártires da Pátria, concebido com a ajuda de um arquitecto conhecedor de "feng shui".

A vontade de tornar aquele espaço agradável para os clientes levou Najma Saiyad a trazer muitos objectos da sua própria casa, como um piano, livros e brinquedos: "é natural que as pessoas se sintam bem porque os objectos têm vida, porque vieram de um lar", considerou.

"Seguimos o +feng shui+ naquilo que podíamos, porque há coisas em que é impossível", disse, recordando que esta teoria recomendava que o balcão ficasse de frente para a entrada, mas depois de um roubo, "verificou-se que isso não era possível e o balcão foi posto de lado".

Foi também com o propósito de criar maior harmonia que Marina Sobreira abriu uma loja de decoração, a "Paradise House", em Carnide, de acordo com os conceitos do "feng shui", onde são proporcionados aos clientes os ensinamentos desta filosofia oriental, através de consultas por dois especialistas.

"A ideia é aliar o conceito de decoração, enquanto lado estético, ao lado mais interior das pessoas, porque acredito que os espaços estão ligados à harmonia e bem-estar das pessoas", explicou à Lusa Marina Sobreira.

O antigo "hall" do hotel Tivoli Lisboa, de 1933, foi também remodelado há poucos meses com base no "feng shui".

Depois de aplicar a bússola à planta arquitectónica, há que detectar "o que está a mais" e que possa perturbar a fluidez da energia, bem como ter em conta o público a que se destina, descreveu Marta Amaral, especialista em "feng shui" que colaborou na concepção deste espaço com o decorador Pedro Espírito Santo.

As cores ali predominantes são o cinzento, o castanho e o amarelo, que correspondem ao elemento dominante, a terra, enquanto no bar, situado mais a norte, a cor escolhida foi o encarnado forte, com uma "energia mais masculina".

Aqui e ali, encontram-se antigos "abat-jours" e cadeiras, numa tentativa de conjugar sempre o clássico e o moderno.

A mesma lógica foi repetida no restaurante do Tivoli Jardim, com duas salas distintas, onde as cores e a decoração, com esculturas da Viúva Lamego, correspondem aos diferentes elementos.

Mas se esta filosofia oriental pode ser aplicada a uma casa, uma divisão, um jardim ou mesmo uma mesa de trabalho, pode também dizer-se que um local tem ou não um "bom feng shui".

Os especialistas contactados pela Lusa concordaram que a cidade de Lisboa necessita de ser recuperada para que possa ter "um bom feng shui".

Rosa Lee lamenta a falta de espaços verdes. "Lisboa não tem a parte da árvore e da madeira, e precisa disso", considera, defendendo que a cidade "está muito desgastada, devia estar mais limpa e arranjada, mas está um bocadinho suja, descaída e degradada".

No seu livro "Feng Shui - Lares e Costumes Portugueses", o consultor Alexandre Saldanha da Gama relaciona a prosperidade das grandes cidades mundiais, "que aparecem como pólos de crescimento e expansão", ao facto de terem "uma montanha atrás (tartaruga) e um rio à frente (fénix), o que lhes confere um excelente +feng shui+".

O especialista relaciona o sucesso dos portugueses nos Descobrimentos com o facto de o centro do poder se situar no Terreiro do Paço.

"A Avenida da Liberdade é uma boa tartaruga, que fornece protecção, o Castelo de São Jorge é um excelente dragão, que dá a energia de ser pioneiro e aventureiro, o Bairro Alto é um bom tigre, que confere riqueza e poder, e o rio Tejo é uma bonita fénix, que permite ter vistas alargadas", sustenta.

No entanto, sublinha, o Bairro Alto está hoje "muitíssimo degradado" e talvez isso explique "porque é que o nosso país está em baixo".

Também o arquitecto Luís Lourenço, proprietário da empresa de consultoria "GeoHarmonia", elege a presença da água - rio Tejo - para justificar o "fantástico +feng shui+" da cidade, mas critica igualmente a degradação do património, a abundância de casas devolutas e a primazia dos automóveis.

São casos em que falta o equilíbrio e a harmonia, essenciais no "feng shui" - uma "chave para entender o diálogo silencioso que sempre existiu entre o homem e a natureza".

JH.


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