"As crianças têm de manter contacto com os dois progenitores. Têm direito a ter opinião sobre os dois"

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"Os pais que ficam juntos 'para o bem dos filhos' até podem ter uma vida de família, mas será sempre cheia de conflito e stress e isso vai afetar a criança", diz a investigadora
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As crianças que ficam em sistema de residência alternada têm melhores indicadores de saúde mental que aquelas que ficam só com a mãe ou só com o pai. A investigadora sueca Malin Bergstrom explica o estudo e dá conselhos aos pais em entrevista à RTP.

Na Suécia, o regime de guarda partilhada e residência alternada é mais comum que o modelo monoparental. De acordo com os resultados do Elvis Project, o modelo partilhado é também o que mais ajuda ao bem-estar da criança. A investigadora responsável pelo estudo, Malin Bergstrom, esteve em Portugal para participar numa conferência da Associação Portuguesa para a Igualdade Parental e Direitos dos Filhos e explicou as conclusões à RTP. 

Qual é o impacto de um divórcio na vida de uma criança?
Um divórcio é um momento de crise. Para uma criança, em que a família é grande parte do seu mundo, pode ser uma grande crise. Até porque, durante uma separação, os pais não conseguem ser tão "bons pais" porque estão muito ocupados com coisas para resolver, questões práticas, etc. Mas se conseguirem comunicar e cooperar ente si, as crianças saem-se bem do episódio. 

Quais são os maiores erros que os pais cometem?
Continuarem os conflitos e os problemas associados à relação. Quando o casal se separa, tem de se concentrar no bem estar dos filhos, e para isso precisam de se apoiar um ao outro. Todos os estudos indicam que prolongar o conflito entre os pais é muito duro para as crianças.

Mas como é que os pais fazem isso? Uma separação é um momento muito duro também para eles... 
Se os pais tiverem consciência de que é importante para os filhos que ambos continuem a participar na vida deles, conseguem tudo. Mas primeiro é preciso entenderem isto. Se os pais estiverem num ambiente de conflito, se até disserem coisas feias um sobre o outro aos filhos, isso vai criar confusão na cabeça das crianças - porque elas querem continuar a ser leais aos dois.


O que é que os pais não devem mesmo fazer?
Bom, primeiro é fundamental permitir que a criança passe tempo com os dois. Depois, é muito importante para a criança que isso esteja combinado. Que seja previsível e expectável. Ou seja, aparecer do nada, de surpresa, não é bom. As crianças precisam de saber por antecipação quando é que vão estar com o pai, com a mãe, o que é que vão fazer: se vão viajar, se vão só passar o dia em casa, quando é que vão para casa da mãe, etc. A previsibilidade é muito importante para a rotina das crianças.

Porquê?
Porque ajuda a criança a ter controlo da sua própria vida. O pai aparecer de surpresa e tirá-la do ambiente onde está faz com que ela perca o pé. Cair de repente numa situação que não antecipou é difícil de gerir para ela. E quanto mais nova for a criança, mais importante isto é, porque é nos primeiros quatro anos de vida que as crianças desenvolvem as relações basilares com os pais. A previsibilidade, o saber o que esperar, é um aspeto chave no estabelecimento de relações seguras e sólidas. 

No Elvis Project, concluíram que as crianças que estão no sistema de residência alternada têm melhores indicadores do que aquelas que vivem só com um deles...
Sim, fizemos estudos durante dois anos com crianças do pré-escolar, escolar e também adolescentes. O que vimos foi que, em todas as idades, as crianças que, depois da separação, viviam o mesmo tempo com os dois pais sentiam-se melhor do que aquelas que ficavam só com um progenitor, que é quase sempre a mãe. 

O que é que acontece quando a criança perde contacto com o pai? 
O que acontece é que a figura dele continua a viver no imaginário da criança, e isso marca-a muito. Cria o sentimento de perda. A criança questiona-se: "Porque é que ele já não me ama? Porque é que ele está longe?", etc. Além disto, também sabemos que ser mãe solteira é stressante. Ter de ganhar dinheiro, educar as crianças, equilibrar o trabalho e a família... Também é mais fácil para os pais partilharem a guarda e cooperarem. Os próprios pais que optam por este modelo também ficam mais satisfeitos do que aqueles que cuidam sozinhos dos filhos ou que perderam o contacto com eles. 
Ter os dois pais presentes na vida das crianças é mais importante do que os problemas de logística das deslocações entre uma casa e outra 

Ser mãe solteira também está associado a condições económicas mais fracas, certo? 
Sim. De uma forma geral, é mais difícil apoiar financeiramente uma família quando se está só por sua conta. 

No sistema de residência alternada, são duas camas, duas casas, duas rotinas... Dá para ter um vida estável assim?
Nos estudos mais tradicionais dizia-se que o facto de as crianças terem de se adaptar a dois ambientes familiares e de estarem em constantes viagens entre um sítio e outro lhes causava stress e ansiedade.  Mas o que nós constatámos é que, mesmo no que toca aos níveis de stress, as crianças são menos ansiosas, estabelecem melhores relações com os amigos e colegas e melhores relações com os pais se estiverem num regime de guarda partilhada. Ter os dois pais presentes na vida das crianças é mais importante do que os problemas de logística das deslocações entre uma casa e outra.

E se a criança quiser ficar só com a mãe ou só com o pai?
Não é bom colocar a criança numa posição em que ela possa decidir com quem quer ficar, porque isso vai abrir espaço para um sentimento de culpa. O melhor é que os pais consigam fazer um acordo entre si. Na Suécia, onde a partilha de residência é muito comum, os pais dizem aos filhos: "Nós queremos os dois continuar a ter-vos nas nossas vidas. Nós amamo-vos, vocês continuam a ser importantes para nós os dois, por isso vamos fazer a nossa vida assim - para que ambos possamos estar com vocês". Esta é uma mensagem importante para a criança: "Nós já não temos uma relação amorosa, mas continuamos a ser vossos pais como sempre".

E se os pais estiverem em conflito? 
Independentemente do nível de conflito entre os pais, as crianças ficam melhor num sistema de guarda partilhada do que numa família monoparental. Um conflito entre os pais é sempre difícil para as crianças, independentemente de onde elas vivam. Mas mesmo que os pais estejam em conflito, é importante que as crianças possam ter a sua própria opinião sobre os dois, e não estarem só em contacto com um deles. 

Como é que é a situação na Suécia?
Cerca de 25 por cento das crianças suecas têm pais separados. O sistema de guarda partilhada é duas vezes mais comum do que o sistema monoparental. Na Suécia, quando um bebé nasce, temos uma licença de parentalidade durante os primeiros 16 meses da criança. São oito meses para a mãe e oito meses para o pai, e os pais tendem a aproveitar.

Assim, partilham o tempo de forma igual. E nos estudos que estamos a fazer agora, com crianças de dois e três anos, no que respeita ao bem estar, vemos que estão no regime de partilha igual, que passam o mesmo tempo com os dois, têm os mesmos indicadores de saúde mental e bem estar que aqueles que têm os pais juntos.

Mesmo em idades muito pequenas, os pais tendem a partilhar o tempo de forma igual. E têm melhor saúde mental do que aqueles que vivem só com um dos pais. Mesmo com crianças muito pequenas, com bebés, é possível optar pelo regime partilhado e retirar benefícios dele.

O padrão é o mesmo nas crianças mais velhas?
Sim, vemos os mesmos padrões em todos os nossos estudos. As crianças que vivem sobretudo com um dos pais têm menor desempenho em indicadores sociais e emocionais do que aquelas que estão num sistema de guarda partilhada.

Está a falar de que tipo de indicadores?
Estar satisfeito consigo próprio, o rendimentos na escola, a relação com os colegas, a participação nas atividades. Ansiedade, problemas de comportamento, sentir-se bem ou mal em grupo. Todos os aspetos importantes para uma criança. Olhámos para a saúde física e sobretudo para a saúde mental. 

Mesmo que os pais estejam em conflito, é importante que as crianças possam ter a sua própria opinião sobre os dois

Não será melhor que os pais fiquem juntos "para o bem dos filhos"?
Os pais que ficam juntos "para o bem dos filhos" até podem ter uma vida de família, mas será sempre cheia de conflito e stress e isso vai afetar a criança. Na minha experiência como psicóloga infantil, vejo que os pais tentam ficar juntos, e que se se decidem por uma separação ou um divórcio, na maior parte das vezes, é porque sentem que é mesmo o melhor para os filhos e para eles. Acho que os pais, de uma forma geral, põe os seus filhos antes deles próprios.

Já trabalha nestes assuntos desde 1999, há quase 20 anos. Vê diferenças entre a forma como os pais lidavam com o processo naquela altura e como lidam hoje?
Sim, imensas. Até porque em 1998 tivemos uma mudança na legislação na Suécia que alterou os comportamentos a partir daí - até 1998, a mãe ficava sempre com a custódia e às vezes eram mães que tinham problemas mentais ou até doenças psiquiátricas. Em 1998 foi reformulada a lei da Família, que determinou que os tribunais suecos podem decidir por sistemas de partilha de parentalidade, mesmo que um dos pais não queira. Agora é muito comum que as crianças vivam num sistema de residência alternada. 

Quer deixar um último conselho para os pais que se estão a separar agora?
É importante que se lembrem que os dois vão continuar a ser importantes para os filhos. A vossa disposição para cooperar vai ser determinante para a saúde mental e para o bem estar das vossas crianças. Continuar a viver em conflito vai criar stress. Muito importante: a criança precisa de ter contacto próximo com os dois. 

Tópicos:

Crianças, Divórcios, Pais e filhos, Educação,

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