Associação aponta falta de “inspecção sistemática” e “lacunas de segurança”

A falta de "inspecção sistemática" a equipamentos de diversão abre caminho a "lacunas de segurança" que poderiam ser colmatadas por instituições como a ASAE e o Ministério da Economia, defende a Associação para o Desenvolvimento das Actividades em Portugal de Circos, Divertimentos e Espectáculos. Um acidente com um carrossel em Esmoriz fez ontem quatro feridos.

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A Câmara de Ovar decidiu levantar um auto de contra-ordenação por falta de pedido de licenciamento do carrossel RTP

Pela segunda vez em pouco mais de três meses, um acidente com um equipamento de diversão provoca feridos numa festa popular. Desta feita, a notícia chega de Esmoriz, a Norte, onde quatro pessoas da mesma família, um pai e três filhos, sofreram ferimentos quando a cadeira do carrossel em que seguiam se desprendeu da estrutura. O acidente ocorreu perto da meia-noite.

O pai, de 42 anos, e um dos filhos, de 14, terão sofrido fracturas múltiplas e hemorragias internas, segundo o comandante dos Bombeiros Voluntários de Esmoriz, Jacinto Oliveira.

O rapaz encontra-se internado no Hospital de São João, no Porto, em situação "clinicamente estável". O pai, transferido para uma segunda unidade portuense, o Hospital de Santo António, está em situação "estável" mas vai "manter-se em observação nas próximas 24 horas".

Cadeiras projectadas a grande velocidade

A 24 de Maio, nas festas do Senhor de Matosinhos, um acidente semelhante fizera oito feridos. Uma cadeira de um carrossel desprendeu-se, então, a mais de 100 quilómetros por hora. Algo que se terá repetido em Esmoriz, segundo o comandante dos Bombeiros Voluntários da localidade.

O acidente, adiantou Jacinto Oliveira à agência Lusa, "poderia ter tido consequências muito trágicas se ocorresse noutra altura": "Antes do fogo de artifício era quase impossível circular junto aos carrosséis devido ao aglomerado de pessoas. A sorte foi que a grande maioria começou a deslocar-se para Sul para assistir ao fogo".

O proprietário do equipamento, entretanto selado pela GNR, não quis prestar declarações à RTP. Por sua vez, o presidente da Comissão de Festas, António Gomes, sublinhou que a fiscalização das condições de segurança não é da sua responsabilidade: "Nós não somos obrigados a pedir documentação nenhuma em como isto está legal ou deixa de estar legal. Eles chegam aqui, pedem-nos o terreno, nós cedemos e deve haver autoridades que façam a análise para saber se o divertimento está em condições de andar".

"Não há inspecção sistemática"

Em declarações à Lusa, Mário Loureiro, da Associação para o Desenvolvimento das Actividades em Portugal de Circos, Divertimentos e Espectáculos (ADAPCDE), defendeu ser necessário garantir uma "fiscalização por parte da administração directa do Estado para salvaguardar os cidadãos".

"Neste momento, umas câmaras têm e outras não têm pessoas competentes", frisou o dirigente da ADAPCDE, acrescentando que as entidades promotoras "passam a vida a ser vistoriadas pelas autarquias com exigências ridículas e outras com sentido". O que falta, vincou Mário Loureiro, "é uma inspecção sistemática e é claro que, por isso, há lacunas de segurança".

A Associação considera que a fiscalização no plano legal poderia recair na esfera de competências da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), entregando a análise de detalhes técnicos a elementos do Ministério da Economia. A ADAPCDE propõe ainda a elaboração de um registo de acidentes e o estabelecimento de horas de formação para os responsáveis pela certificação de equipamentos.

O Conselho de Ministros aprovou a 13 de Agosto um conjunto de regras técnicas e de segurança para a instalação e funcionamento de equipamentos de diversão, mas o diploma ainda não foi publicado em Diário da República. As novas normas prevêem a exigência de uma certificação de inspecção aos equipamentos, mediante uma licença única de instalação.

Em entrevista à RTP, Jorge Morgado, da DECO, considerou "francamente má" a legislação em vigor, que data de 2002, e manifestou a esperança de que o diploma aprovado em Conselho de Ministros "possa ser francamente melhor".

Câmara Municipal de Ovar levanta auto de contra-ordenação

A autarquia de Ovar confirmou, entretanto, que "não houve pedido de licenciamento para o carrossel" instalado nas proximidades da Praia de Esmoriz., apenas "um pedido de licenciamento para uma romaria por parte da Comissão de Festas".

"Sobre o divertimento, o carrossel, não foi apresentado qualquer pedido de licenciamento, daí já termos accionado a fiscalização para ver se o divertimento respeita todos os compromissos", indicou o vereador do Ambiente na Câmara de Ovar, José Américo Sá Pinto, citado pela agência Lusa.

O edil disse ainda ter sido informado pelas autoridades policiais de que o equipamento em causa dispõe de seguro e tinha as vistorias em dia. "Mas como não houve licenciamento por parte da autarquia vamos agir de acordo com a lei, levantando auto de contra-ordenação", garantiu.

Quanto ao diploma já aprovado em Conselho de Ministros, Américo Sá Pinto considera "fundamental" a publicação em Diário da República, de modo a que "estas responsabilidades fiquem bem delimitadas" e "para que todas as entidades saibam qual é o seu papel".

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