Ataque de tigre no jardim zoológico de São Francisco matou sonho de luso-descendente

Lisboa, 25 Jan (Lusa) - Na página que mantinha na Internet revelava o sonho de ser "disc-jockey", mas o ataque de um tigre-fémea, no zoológico californiano de São Francisco, no dia de Natal, liquidou o objectivo do luso-descendente Carlos Sousa Júnior.

Eduardo Lobão© 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

Nascido em Berkeley, Carlos Sousa Júnior, 17 anos e filho de um português, natural da ilha do Pico, Açores, e de uma brasileira, emigrados nos Estados Unidos, viveu a maior parte da sua vida em San Jose, e foi a única vítima mortal de mais um caso de fuga de animais do Jardim Zoológico de São Francisco.

Aquele espaço de diversões tem, aliás, um historial de negligência na guarda de animais perigosos, que começou em 1952 com uma condenação em tribunal, depois de um urso polar ter ferido um visitante, quando tentava alimentar o animal.

No caso do luso-descendente, o tigre-fémea escapou do espaço em que se encontrava, porque o fosso que separa os animais dos visitantes do zoo tinha, aquando da fuga do tigre-fémea, a altura de 3,8 metros, bastante menos do que a altura mínima de 5,5 metros aconselhada pela Associação de Mundial de Zoos e Aquários (WAZA).

A morte de Carlos Sousa Júnior foi testemunhada pelos irmãos Paul Dhaliwal, 19 anos, e Kulbir Dhaliwal, 23 anos, com quem partilhava o gosto pelo basquetebol, festas e futebol americano, que tinha nos Oakland Raiders a equipa preferida.

Do que se passou efectivamente no passado dia 25 de Dezembro sabe-se ainda muito pouco.

A polícia de São Francisco abriu um inquérito para apurar eventuais responsabilidades nos irmãos Dhaliwal nos momentos que antecederam a fuga do animal, porque há a suspeita de que o atiçaram, levando-o a subir o muro e a fugir da área que lhe estava confinada.

O tigre-fémea, baptizado Tatiana, tinha quatro anos e pesava 159 quilogramas, tendo sido morto por uma equipa de guardas, que não chegou a tempo de evitar a morte do luso-descendente e ferimentos nos dois irmãos.

Para dirimir estes casos, o zoo, gerido conjuntamente pela câmara municipal de São Francisco e pela Sociedade Zoológica local, é representado pelo gabinete jurídico da cidade, enquanto a família de Carlos Sousa Júnior e os irmãos Dhaliwal escolheram advogados de elevada notoriedade pública para uma batalha jurídica que se antevê mediática e demorada.

O representante legal da família do luso-descendente é também luso-descendente, mas de segunda geração.

Trata-se de Michael Cardozo, neto de açorianos da ilha do Pico, que nasceu em São Francisco e tem escritório em Walnut Creek, Califórnia.

Com presença regular em programas de televisão e rádio, Michael Cardozo envolveu-se em casos conhecidos como, por exemplo, em 2001, o caso de maus tratos a cães, em que representou Sharon Smith, morta pelos animais dos vizinhos.

Os irmãos Dhaliwal são defendidos por Mark Geragos, que tem no currículo uma carteira de clientes mediáticos em casos polémicos como o cantor Michael Jackson, em abuso de menores, a actriz Winona Ryder, no roubo de produtos de uma loja, e Susan McDougal, envolvida no escândalo Whitewater.

Em declarações à Lusa, Michael Cardozo disse que "não tem nenhuma estratégia conjunta" com Mark Geragos.

"São casos diferentes, com alguns factos comuns. Mas trabalhamos de forma independente. Representamos a família e apesar de os factos serem os mesmos, temos interesses diferentes", vincou.

A família do luso-descendente vai interpor uma acção cível com pedido de indemnização, em valor que ainda não foi apurado, disse Michael Cardozo.

"Não temos ainda um número. Vamos investigar os factos e, de concreto, sabemos que é muito difícil estabelecer um valor para uma vida de 17 anos, a que foi posto termo de forma tão violenta", acrescentou.

"Vamos fixar esse valor, mas o dinheiro não substituirá uma vida. Não recompensa a perda de um filho. A cidade (de São Francisco) e o jardim zoológico não têm dinheiro que recompense a perda de um filho", concluiu o causídico, que acredita que o julgamento deste caso apenas se deverá iniciar dentro de um ano.

Lusa/Fim


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