Auditor belga exclui Hospital Santa Cruz da reestruturação da cirurgia cardiotorácica
Lisboa, 08 out (Lusa) -- Um cirurgião belga esteve a auditar os serviços de cirurgia cardiotorácica em Lisboa e recomendou a concentração de serviços, deixando de fora o Hospital de Santa Cruz, mas considerando que "faz sentido" manter o semipúblico Hospital da Cruz Vermelha.
As conclusões do relatório, a que a agência Lusa teve acesso, estão a preocupar os profissionais do Hospital de Santa Cruz, nomeadamente os médicos do serviço auditado, que não sabem o que a tutela vai fazer com as recomendações de Paul Sergeant, nas quais não está definido um futuro para esta unidade de saúde.
Mas também nos outros hospitais públicos visados -- Santa Marta e Santa Maria -- o relatório não foi bem recebido, tendo mesmo levado o diretor do serviço de cirurgia cardiotorácica do Centro Hospitalar de Lisboa Norte (Santa Maria e Pulido Valente) a escrever à Ordem dos Médicos para que esta se pronunciasse.
Concluiu Paul Sergeant que, com uma melhor organização, são suficientes dois hospitais públicos para a prática de cirurgia cardiotorácica, embora defenda a continuidade do acordo que o Estado tem com o Hospital da Cruz Vermelha, que é semipúblico, para suprimir eventuais necessidades nesta área.
A auditoria identificou uma "considerável duplicação de atividades e serviços na região de Lisboa, sem que tal resultasse em benefícios para os doentes ou a sociedade". As listas de espera também mereceram críticas do cirurgião, bem como a ausência de uma monitorização das mesmas e dos doentes após as cirurgias.
Paul Sergeant considera que devem existir dois centros de cirurgia cardíaca, "bem estruturados e bem organizados", em Lisboa, e que a escolha natural são os hospitais de Santa Marta e Santa Maria.
A cirurgia torácica deve ser concentrada no Hospital de Santa Maria e a cirurgia congénita no Santa Marta, defende o cirurgião, para quem os transplantes cardíaco e pulmonar devem fazer-se no Hospital de Santa Marta, em "estreita colaboração" com o de Santa Maria.
Rui Ferreira, coordenador do Programa Nacional para as Doenças Cérebro-Cardiovasculares e um dos auditores que acompanhou Paul Sergeant, esclareceu à Lusa que se trata apenas de recomendações: "Têm de ser os decisores políticos a decidir".
O especialista -- que exerce no Hospital de Santa Marta, uma das instituições auditadas - nega que seja sugerido o fim do Hospital de Santa Cruz, embora no relatório não seja indicado qual o seu papel nas áreas auditadas.
Sobre a celeuma que estas recomendações estão a provocar, Rui Ferreira disse compreender, mas defendeu que "os profissionais têm de se habituar a que haja uma avaliação dos resultados".
A realização desta auditoria por "uma entidade estrangeira" mereceu o "repúdio" e a "indignação" do Colégio de Especialidade de Cirurgia Cardiotorácica da Ordem dos Médicos, que critica esta nomeação "sem que para tal fosse dada explicação adequada e sem ouvir as entidades que, legalmente, têm a responsabilidade de supervisionar a qualidade e idoneidade dos serviços hospitalares".
"Parece haver, neste caso, outros interesses que não os diretamente relacionados com a qualidade dos serviços e o bem-estar dos doentes que os procuram", lê-se no documento com a posição deste Colégio.
A Lusa tentou obter, sem sucesso, uma reação do Hospital de Santa Cruz. Da parte do Hospital de Santa Maria, a diretora clínica reconheceu que esta "não foi uma auditoria clássica com visita formal, sem consulta de processos, sem avaliação sólida e sem propostas concretas".
Segundo Maria do Céu Machado, algumas das mudanças propostas nesta auditoria já estão em curso. "Nestes últimos meses foram elaboradas normas quanto aos circuitos, marcação de doentes e intervenção médica e de enfermagem", adiantou.
A administração do Hospital da Cruz Vermelha disse à Lusa que não conhece o relatório da auditoria e que, por isso, não se pronuncia.