Autora de "Uns & Outras" critica "androcracia" da sociedade portuguesa

O poder e a tomada de decisão são esmagadoramente dominados pelos homens, defende Teresa Ribeiro da Cunha, autora do livro "Uns & Outras - Despoluir a Democracia", que a editora Temas e Debates vai lançar esta semana.

Agência LUSA /

Em declarações à agência Lusa a propósito da sua obra, a ensaísta - que para o seu estudo realizou inquéritos a algumas das maiores empresas nacionais - considerou que a sociedade portuguesa ainda está longe de ser paritária.

"Quantas mulheres foram Presidentes da República ou da Assembleia da República? Quantas ocuparam o lugar de Presidente do Tribunal de Contas ou do Tribunal Constitucional? Ou foram Provedores de Justiça? E quantas ocuparam o lugar de Governador do Banco de Portugal? Ou foram Presidentes de Tribunais Supremos? Quantas Universidades têm Reitoras?" - são questões colocadas pela escritora.

"O inquérito sobre (des)igualdade conduzido às maiores empresas que operam em Portugal e cujas respostas constam em `Uns & Outras` mostra que nenhuma mulher tinha lugar nas respectivas Administrações", sublinhou Teresa Ribeiro da Cunha, acrescentando que, dado metade dessas empresas serem então públicas, o caso é mais grave.

"O Estado, em vez de ser guia e exemplo, é ele próprio ofensor do direito à não discriminação", disse.

Para a autora, a "androcracia" (regime de domínio masculino) na sociedade portuguesa é evidente, nomeadamente, "na desigualdade da progressão das carreiras profissionais e na possibilidade de frequência de estágios e cursos de actualização e progressão de carreira".

"A quantos homens que se candidatam a empregos é perguntado directa ou indirectamente se têm filhos ou se pensam vir a ter?", pergunta, dando um exemplo - entre os muitos que diz serem possíveis - da discriminação que continua a afectar as mulheres.

Para Teresa Ribeiro da Cunha, "as mulheres portuguesas já tomaram consciência de que trinta anos de promessas paritárias e práticas imparitárias já são tempo demasiado" e sabem que pôr as soluções em prática "está nas mãos de homens e de mulheres que querem para si e para os seus filhos um país mais humano e mais justo".

Nesse sentido, a ensaísta indica que "uma tarefa de base é aplicar a Estratégia da União Europeia para a Igualdade, na sequência dos desenvolvimentos decorrentes da 4ª Conferência Mundial sobre as Mulheres que teve lugar em Pequim há dez anos".

"A melhoria do Plano Nacional de Acção para a Igualdade e dos Acordos e Convenções subscritos por Portugal para a eliminação de todas as formas de discriminação e de violência sobre as mulheres é outra tarefa inadiável", referiu também.

Segundo a autora, outras medidas são sugeridas na terceira parte do livro "Uns & Outras", bem como no site www.unseoutras.net e no blog unseoutras.blogspot.com.

Na obra "Uns & Outras - Despoluir a Democracia", Teresa Ribeiro da Cunha apresenta os resultados dos inquéritos realizados junto das administrações e das trabalhadoras da Portugal Telecom, Caixa Geral de Depósitos, Banco Espírito Santo e Grupo Banco Comercial Português.

Foram também contactadas a Auto-Europa, a Petrogal e o Grupo Modelo Continente que, alegando cada um as suas razões, inviabilizaram as análises que a autora pretendia fazer e que implicavam avaliar até que ponto a política europeia de igualdade entre os sexos fazia parte da estratégia das grandes empresas a laborar em Portugal.

Comparar os patrões "públicos" e "privados" no tocante à igualdade, comparar a prática dos grupos nacionais e estrangeiros nessa mesma área e avaliar os resultados de políticas de igualdade implantadas pelo Estado foram outros dos objectivos da pesquisa.

Teresa Fauvelet Neves Ribeiro da Cunha licenciou-se em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa, foi professora e directora de uma galeria de arte e, nos últimos dez anos integrou o Conselho Consultivo da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, além de ser membro do European Women+s Lobby.


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