Avaria nas válvulas de fundo é explicação mais provável para naufrágio do Bolama
Uma avaria nas válvulas de fundo é a explicação mais provável para o naufrágio do Bolama, acredita o almirante Mendes Rebelo, que há 15 anos participou nas tarefas de localização e identificação do arrastão luso-guineense.
"Nas circunstâncias em que o navio se afundou, sem tempo para um aviso de socorro, sem ninguém ter visto um abalroamento, e tendo caído a direito no fu ndo do mar, só pode ter sido uma coisa repentina, como um problema nas válvulas de fundo", disse Mendes Rebelo em entrevista à Agência Lusa.
Mendes Rebelo era, na altura, o director-geral do Instituto Hidrográfic o, a quem foi entregue a tarefa de localizar o navio desaparecido a 04 de Dezemb ro de 1991 e que só foi encontrado cerca de dois meses depois.
"É a única justificação que encontro. O navio tinha estado em reparaçõe s e foi modificado para fazer um tipo especial de pesca de arrasto. Será que as válvulas de fundo não ficaram bem fechadas?", interrogou-se o almirante.
Mendes Rebelo explicou que quando estas válvulas abrem "a água entra in stantaneamente e o navio afunda imediatamente".
"O navio estava perfeitamente assente no fundo do mar, direitinho, no e nfiamento da barra Sul do Tejo (uma das duas que são usadas pelos navios que sae m de Lisboa)" quando foi encontrado pela lancha Auriga, descreveu.
Recentemente, representantes das vítimas e o Sindicato Livre dos Pescad ores iniciaram uma nova "ofensiva" junto das entidades oficiais para tentar reab rir o processo que foi arquivado pelo Tribunal de Instrução, onde uma juíza conc luiu que o afundamento ocorreu por "causas naturais".
Um buraco no casco do navio, visível nas imagens recolhidas pela Marinh a e aparentemente feito já depois do afundamento, estão entre os factos apontado s e apresentados à Procuradoria-Geral da República.
O pesqueiro, que não pediu autorização às autoridades marítimas para sa ir da barra, tinha partido para uma prova de mar a fim de testar o novo sistema de redes, com 30 pessoas a bordo, e desapareceu poucas horas depois.
A Marinha esquadrinhou várias zonas em busca do arrastão, cruzando info rmações das capitanias de Lisboa e Cascais e elementos que foram surgindo durant e as buscas.
"à saída da Barra, o patrão do Bolama perguntou a um outro com o qual s e cruzou qual seria o melhor sítio para deitar as redes. De acordo com essa info rmação, definimos uma área de pesquisa para as operações de busca", contou Mende s Rebelo.
O surgimento de um corpo ao largo das Berlengas levou também a Marinha a pesquisar nessa zona.
Informações que davam conta de um avistamento de uma silhueta semelhant e à do navio desaparecido na Praia das Maçãs foram também investigadas.
O aparecimento de um outro corpo, a Sul de Cascais, levou a Marinha a p rocurar o Bolama também nesta zona.
Mas, durante cerca de um mês e meio, a lancha hidrográfica Auriga nada encontrou.
"Estivemos quase para desistir, mas lembrámo-nos então de procurar na B arra", adiantou o ex-responsável do Instituto Hidrográfico.
O navio viria a ser localizado a poucas milhas da saída da barra do rio Tejo, a uma profundidade de 110 metros.
"Apareceu nitidamente um objecto no sonar e fomos investigar melhor com um aparelho - o ROV (aparelho operado por controlo remoto, ROV na sigla em ingl ês) - que dispunha de uma câmara de vídeo e era controlado a partir do navio", d isse o almirante.
O navio, onde o nome Bolama aparecia nitidamente escrito no costado, fo i rapidamente identificado, mas as causas do afundamento ficaram, até hoje, por esclarecer e foram alvo das mais diversas teorias.
Mendes Rebelo diz não ter visto qualquer indício de abalroamento na alt ura em que o ROV captou as primeiras imagens do Bolama e referiu que um rombo vi sionado em filmagens posteriores não teria sido suficiente para afundar o navio.
"Além disso, se houvesse um abalroamento o navio teria afundado tombado , e não a direito. A hipótese de ter sido uma coisa repentina é a que me parece mais lógica", vincou.
Só é possível saber ao certo o que aconteceu trazendo o navio de novo à superfície.
Mas a grande complexidade e elevados custos da operação ("uma fortuna", segundo o almirante Rebelo) devem deixar para já os segredos do Bolama no fundo do mar.