Avó de Vanessa incriminada pela filha
A tia de Vanessa Filipa, a criança de cinco anos que morreu em 2005 vítima de maus-tratos, atribuiu à sua mãe e avó da criança, Aurora, a principal responsabilidade pelas sevícias fatais.
O depoimento da co-arguida Sandra foi prestado na tarde de hoje perante o Tribunal de São João Novo, no Porto, e contradiz a versão que Aurora produziu horas antes perante o mesmo colectivo.
Aurora tinha dito que nunca maltratou a neta, atribuindo à criança a responsabilidade pelas queimaduras que lhe terão provocado a morte.
O depoimento de Sandra foi marcado por uma altercação com Aurora, sentada num banco imediatamente atrás da depoente, que a acusou de mentir.
"Não digas que estou a mentir! Sabes que estou a falar a verdade!", exclamou Sandra, voltando-se para Aurora, que, por ordem da juíza-presidente, Maria Luísa Arantes, passou a sentar-se em local mais afastado.
No seu depoimento, Sandra atribuiu também responsabilidades pelo sucedido ao seu irmão, Paulo, mas argumentou que este muitas vezes agia por incitamento de Aurora, desculpando-o por ser toxicodependente referindo que por vezes, estava em "ressaca".
A tia da vítima argumentou ainda que nunca denunciou às autoridades os maus-tratos à Vanessa Filipa porque dependia da sua mãe para efeitos de alojamento.
Inicialmente acusada do crime de omissão de auxílio, Sandra viu a sua acusação agravada para o crime de homicídio qualificado, em co-autoria.
Aurora e Paulo, ambos em prisão preventiva, são, por sua vez, acusados homicídio qualificado, maus-tratos continuados e ocultação de cadáver.
Num depoimento prestado em tom choroso - e que chegou a ser interrompido para a co-arguida se recompor - Sandra confirmou a tese do Ministério Público segundo a qual Aurora e Paulo colocaram Vanessa Filipe numa banheira com água a ferver, a 26 de Abril do ano passado.
A criança terá morrido na sequência de graves queimaduras em 30 por cento do corpo, contraídas neste banho forçado em água a escaldar, sustenta o Ministério Público (MP).
Vanessa morreu quatro dias depois, a 30 de Abril, sendo o seu corpo sido atirado ao rio a 01 de Maio pelo pai e pela avó, precisa a peça acusatória.
Sandra disse não ter presenciado o banho em água a ferver aplicado a Vanessa Filipa, já que se encontrava noutro quarto, mas referiu um comentário produzido quando viu a criança com queimaduras:
"Ai, mãe, olha o que fizeste!".
Segundo Sandra, a mãe recusou desde logo responsabilidades no sucedido, dizendo que "foi ela [a Vanessa] que abriu a torneira [de água quente]".
A co-arguida confirmou também que, antes do banho fatal em água a escaldar, Aurora e Paulo queimaram Sandra com um ferro de cozinha e afirmou saber que eram frequentes os castigos à menina através de banhos de água fria.
O primeiro banho de água a escaldar para castigar Vanessa terá sido o que lhe provocou queimaduras em 30 por cento do corpo, acabando por provocar a sua morte, disse.
Sandra disse ainda nada saber sobre o estratagema alegadamente usado por Aurora e Paulo para se livrar da criança, após a sua morte.
De acordo com o Ministério Público (MP), Vanessa Filipa, de cinco anos, foi sujeita a uma sucessão de maus-tratos, durante os cinco meses que esteve à guarda do pai e da avó, no Bairro do Aleixo, Porto.
Vanessa morreu a 30 de Abril, sendo o seu corpo atirado ao rio a 01 de Maio pelo pai e pela avó, precisa a peça acusatória.
O julgamento prossegue dia 28, às 14:00, e o arguido Paulo, que hoje se escusou a prestar depoimento, deverá então contar a sua versão dos factos, disse o seu advogado, Carlos Duarte.
Para essa sessão, está prevista também a audição de dez das 25 testemunhas do processo.