Azul é tristeza e vermelho alegria para as crianças
Crianças e jovens tendem a associar o vermelho à alegria e o amarelo à cólera, mas para as outras emoções, os mais velhos elegem cores diferentes das escolhidas pelos mais pequenos, revela um estudo científico inédito em Portugal.
Denominado "Expressão facial: a influência das cores na identificação e reconhecimento das emoções básicas", o estudo foi realizado pelo Laboratório de Expressão Facial da Emoção e pretendeu perceber de que forma as crianças e os jovens percepcionavam as emoções e quais as cores que instintivamente associavam a cada uma, explicou o director do laboratório, Freitas-Magalhães.
No estudo participaram 364 crianças (182 rapazes e 182 raparigas) com idades entre os seis e os dez anos e a frequentar o 1º Ciclo do Ensino Básico, bem como 254 jovens (127 mulheres e 127 homens) com idades entre os 18 e os 25 anos, a frequentar o Ensino Superior.
As cores escolhidas foram o amarelo, laranja e vermelho (quentes), violeta, azul e verde (frias) e preto, branco e cinzento (neutras) e as emoções básicas em estudo foram a alegria, a tristeza, a cólera, o medo, a aversão, a surpresa e o desprezo.
As conclusões apontam para que as crianças associem instintivamente as mesmas cores às mesmas emoções, sem se verificar qualquer diferença de género nessa escolha.
Assim, a maioria das crianças associa a alegria ao vermelho, a cólera a o amarelo e o desprezo ao cor-de-laranja, sendo estas as emoções a que ligam as cores quentes.
À tristeza associam o azul, à surpresa o branco e à aversão e ao medo o preto.
Freitas-Magalhães salientou que os resultados do estudo indiciam diferenças na identificação das emoções em idade adulta, à excepção da alegria e da có lera, a que associam exactamente as mesmas cores (vermelho e amarelo).
Mas nos jovens o padrão aponta para uma associação do violeta à tristeza, do cor-de-laranja à surpresa, do verde à aversão e do cinzento ao medo e ao desprezo.
Foi também entre os jovens que se verificou diferenças significativas de género: fugiram a este padrão a maioria das mulheres ao observar as emoções básicas exibidas por homens.
Nestes casos, à cólera associam o cinzento (em vez do amarelo), à tristeza o azul (em vez do violeta) e ao medo o preto (em vez do cinzento).
O estudo conclui ainda que as emoções são identificadas e reconhecidas, quer pelas crianças, quer pelos jovens, mais pelas cores quentes e neutras do que pelas frias.
O laboratório realizou anteriormente um estudo semelhante com crianças, no qual lhes era pedido que associassem notas musicais às emoções básicas.
Contudo, explicou o director do laboratório, neste caso não se pedia às crianças que fizessem a associação de forma instintiva, pois o objectivo era o de verificar as suas capacidades cognitivas.
Assim, as crianças vizualizavam as imagens das emoções básicas, sendo atribuída uma nota musical a cada uma delas.
O que se verificou foi que mais tarde conseguiam associar as notas às emoções, ou seja, memorizaram-nas, explicou Freitas-Magalhães.
"Verificou-se que há um padrão mnemónico na associação que fazem de sons e imagens, o que é importante para verificar que há uma aprendizagem que se faz desde a infância", explicou.
Com estes estudos, o laboratório de expressão facial está a desenvolver um brinquedo didáctico inédito, disse o mesmo responsável.
Trata-se de uma plataforma informática de identificação e detecção da expressão facial, que pode ser usada em diversos domínios, como a educação.
A aplicação desta plataforma, que pode ser utilizada em crianças a partir dos dois anos, vai permitir o contacto precoce destas com as emoções, através da música e das cores, contribuindo para a sua correcta identificação e reconhecimento e, ao mesmo tempo, ajudando e facilitando a consequente assertiva educação emocional.