Bar no rés-do-chão de igreja causa alarido na cidade
Bragança, 24 Jan (Lusa) - Uma paróquia de Bragança, que decidiu abrir um bar no rés-do-chão de uma igreja para atrair mais juventude, tornou-se por causa disso o centro das conversas na cidade.
Para espanto de muitos e reprovação de alguns, a paróquia dos Santos Mártires transformou o espaço ocupado até há poucos meses por uma ATL para crianças num local de diversão e encontro para a juventude.
Espectáculos, exposições, teatro, música ao vivo e debates são algumas das actividades previstas, mas em Bragança o espaço é já conhecido como o "bar da Igreja".
Não há nada no edifício que indique que ali existe esta infra-estrutura e a sua localização não foi sequer divulgada nos convites distribuídos pela cidade.
A gerência do "BA", assim se designa o bar, convidava a estar presente na inauguração, dia 22, às 20:00, mas nada no convite identifica a natureza ou o local.
Bar da Academia é o que significam as iniciais, segundo disse à Lusa a coordenadora do projecto Sandra Cordeiro.
"Não acho bem", observou Antónia Lopes, em frente à igreja onde aos domingos costuma ir à missa.
Tinham acabado de lhe contar que abrira justamente por debaixo do templo um bar e este era o tema de conversa com outra vizinha que preferiu o anonimato, mas que se diz "indignada".
Não é católica, mas considera que aquele espaço podia ser "melhor aproveitado" numa zona onde há "tantas necessidades" como é o bairro dos Formarigos, um dos mais problemáticos da cidade.
"Agora só falta abrir ali ao lado uma casa de meninas, isto tem algum jeito?", questiona.
Fernando Sorna, outro habitante do bairro, prefere encarar o assunto com alguma ironia, pelo que até acha que "é boa ideia".
"Se a igreja é um negócio, faz dinheiro com comunhões, baptizados, porque não com um bar? Até com um dancing", disse.
Logo a seguir, um jovem desce as escadas de acesso ao local e confirma à Lusa: "isto agora aqui é um bar", acrescenta, apontando o caminho para o interior.
Com uma decoração apelativa, o espaçoso local tem a aparência de um café/concerto com uma zona reservada para os espectáculos, mobiliário moderno e os respectivos balcões para servir bebidas concessionados a um empresário da noite da Bragança.
A coordenadora do projecto, Sandra Cordeiro, disse à Lusa que aquele espaço "é muito mais que um bar".
Três noites por semanas, às terças, quartas e quintas, "é uma montra de espectáculos para os jovens" e serve também de espaço de encontro e para desenvolverem projectos.
Os frequentadores têm condições para estudar, aceder à Internet ou participar em iniciativas como palestras e workshops.
No mesmo local é também ensinada catequese.
Sandra Cordeiro acredita que "os jovens querem mais do que um espaço à noite para beberem uns copos".
O público-alvo são os mais de cinco mil estudantes do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), que fica mesmo em frente da igreja.
Segundo o pároco local, José Bento, estes jovens representam 65 por cento dos residentes na paróquia dos Santos Mártires e é a eles que a igreja pretende chegar.
O pároco desvaloriza o alarido em torno do bar e acredita que "será apenas inicial".
José Bento realçou que "não pode entrar ali qualquer pessoa: só estudantes com cartão e os sócios da academia".
A Academia da Juventude surgiu nesta paróquia há cerca de três meses e dinamizou o projecto para ocupar o lugar deixado vago pelo fim do ATL para as crianças, no complexo da igreja inaugurada há pouco mais de um ano.
Que não vê com bons olhos este novo bar são os proprietários de outros estabelecimentos nocturnos.
"Não pela concorrência, mas pelo local" faz questão de frisar Emília Fernandes, proprietária de um dos bares nocturnos mais frequentados na cidade por estudantes - o Academia.
"Não param de nos surpreender, não sei se uma discoteca na catedral não será o próximo projecto da cidade", ironizou.
Esta empresária entende que "aquele espaço da igreja deveria ser ocupado por projectos sociais num bairro com tantas carências".
Para o proprietário de uma pastelaria próxima da igreja, que tem nos estudantes do IPB os principais clientes, "isto é imoral".
"Em cima estão os santos e em baixo os bêbedos", afirma.
Apesar de dizer que pretende ir conhecer aquele espaço não lhe soa bem a expressão "vamos ao bar da Igreja".
"O bar não tem nenhumas escadas de acesso à igreja", garante o padre José Bento, embora para a população o argumento seja insuficiente para dissociar o bar da igreja.
José Bento garantiu que a paróquia está também atenta aos problemas sociais da zona e prova disso é o projecto de apoio à comunidade cigana que vive naquele bairro.
A juventude é, no entanto a principal aposta deste pároco, também ele ainda jovem, que já dinamizou um grupo de trabalho para apoiar os estudantes do ensino superior da cidade.
HFI.