Barroso não queria equipa apoiada pela extrema-direita
O presidente eleito da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, declarou hoje em Roma que "nunca" aceitaria ver a sua equipa investida pelo Parlamento Europeu por uma pequena maioria graças aos votos da extrema-direita.
"Nunca quereria uma Comissão apoiada apenas pela direita e extrema-direita", afirmou, confirmando informações do diário francês Le Monde, segundo as quais terá sido abordado terça-feira em Estrasburgo pelo eurodeputado da Frente Nacional (FN) francesa, Jean- Claude Martinez.
"Disse claramente que queria evitar um resultado que fosse mau para a Europa", recordou, fazendo referência à sua declaração de quarta-feira, em que anunciou que não iria submeter a sua equipa de comissários à aprovação do Parlamento Europeu.
"O que teria sido mau para a Europa era uma derrota da Comissão, ou mesmo uma pequena vitória, sobretudo uma vitória com o apoio de forças que não partilham os valores que são os meus e os da Comissão", frisou à imprensa.
Durão Barroso, que falou terça-feira com o presidente francês, Jacques Chirac, não quis revelar o conteúdo da conversa, tendo-se limitado a dizer que o chefe de Estado francês o "apoiou ao longo de todo este processo".
De acordo com Le Monde, Chirac tê-lo-á advertido contra o cenário de um executivo investido com os votos da extrema-direita - o que o Eliseu considerava "inaceitável" - e terá referido a ameaça de uma "crise maior".
Inquirido em Roma sobre a posição francesa, no caso de Barroso ter procurado constituir uma maioria desse tipo, Chirac afirmou não conseguir "imaginar que tal situação pudesse ocorrer".
"Em qualquer caso, a França, efectivamente, e provavelmente muitos outros, não o teriam aceite", disse.
"Se há matéria em relação à qual não preciso de ser persuadido, é precisamente sobre a extrema-direita", sustentou, por sua vez, Durão Barroso, recordando o seu apoio a Chirac na segunda volta das presidenciais francesas de 2002 contra o líder da FN, Jean-Marie Le Pen.
"Dei instruções formais e precisas ao nosso embaixador em Paris para que ele participasse na campanha eleitoral ao lado de Jacques Chirac, pois considerei naquele momento que não se tratava apenas de uma questão nacional, mas de uma questão de civilização europeia", sublinhou o ex-primeiro-ministro português.
O presidente eleito da Comissão justificou, em contrapartida, o seu encontro em Estrasburgo com Jean-Claude Martinez, sublinhando que este último foi, à semelhança dos seus colegas eurodeputados, eleito democraticamente.
"Os valores do pluralismo impõem-nos que recebamos todos os deputados, porque todos representam os europeus", concluiu, assegurando que continuará a receber os eurodeputados de todos os quadrantes políticos que o solicitem.