Bastonário da Ordem dos Médicos exige política que valorize acto de curar
O bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, exigiu uma "nova visão" da política de saúde em Portugal, que não valorize "o império dos números, da estatística", mas sim o "acto de curar" e a "vontade de investigar".
Ao intervir hoje, em Coimbra, no congresso "Gerir em Saúde", Pedro Nunes disse que os médicos "estão preocupados", porque "temem a desarticulação" do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
"Temem que perdure no tempo, para além do aceitável, para além do sustentável, perigosamente, a actual indefinição sobre a estrutura de carreiras", concretizou, lembrando que, "até ao advento das novas formas de gestão, (as carreiras) garantiam uma vida inteira de qualidade profissional aferida inter pares".
Garantiu que "não estão em causa somente hierarquias", nem "guerras entre médicos ou entre estes e os gestores", mas "a evidência patente em todos os momentos, em cada decisão, todos os dias, que a competência tem cada vez menos retorno" e que "o saber fazer, o ser capaz de decidir, de gerir, de organizar, pouco importa quando se trata de nomear responsáveis".
Segundo Pedro Nunes, o que preocupa os médicos portugueses "é a consciência de que o império dos números, da estatística, dos indicadores, se sobrepõe ao acto humano de curar" e também "ao tempo de um conforto", "à vontade de investigar, de fazer melhor".
"Para nós, só são indicadores os do progresso, a mortalidade perinatal e infantil, a esperança média de vida. Para nós são valores o que está em causa", garantiu.
Neste âmbito, o bastonário frisou que os médicos querem "uma nova visão", como a que deu origem ao SNS, ao Serviço Médico à Periferia, aos centros de saúde e aos hospitais distritais.
No entanto, disse não negar "a racionalidade e a contenção de custos, a concentração de meios, a procura das economias de escala ou do lucro marginal".
"Mas, porque a queremos, não aceitamos ver encerrar um serviço útil e insubstituível para uma população abandonada no interior, pelo único critério de só realizar três ou quatro atendimentos numa noite", justificou, lembrando que "um desses atendimentos pode ser o filho único de alguém que fica sozinho" ou "o velho que não consegue ir mais longe".
"Porque jurámos protegê-los, não somos capazes de nos calar quando assistimos a decisões tomadas em subordinação ao critério de qual o mais forte, de quem detém o maior interesse", frisou.
O bastonário disse que irritam os médicos, porque os distraem do essencial, "as técnicas de marketing social, das formas mais rasteiras da política" e os ofendem "relógios de ponto electrónico", porque habitualmente sabem-se controlar e trabalham até mais do que aquilo que lhes pagam.
"Para nós, critérios técnicos não são negociáveis, não entram em saldos, não se trocam por rotundas, ambulâncias ou unidades de AVC", afirmou.
Dirigindo-se ao secretário de Estado da Saúde, Francisco Ramos, presente no congresso, Pedro Nunes pediu para não entender as suas palavras como uma crítica, mas sim "como um convite a que aceite" o apoio que os médicos lhe querem dar.
"Estamos dispostos a deixar arrastar-nos para sonhos de reforma, mesmo quando o esforço acrescido não parece comportar acréscimo de gratidão ou reconhecimento. Somos capazes, aos cinquenta anos, de começar tudo de novo por uma forma mais gratificante de trabalhar, como nas Unidades de Saúde Familiares", garantiu.
No entanto, disse que os médicos jamais aceitarão "ser meramente tolerados ou meramente ignorados".
O secretário de Estado referiu que, passados dois anos, tem um "duplo sentimento": por um lado o do sucesso de ter retirado da agenda mediática "a questão das contas, o `buraco` na saúde" e, por outro, o de não ter trazido "para a ribalta" questões como o combate à obesidade ou a prevenção das doenças cardiovasculares.
"Cumprimos, pela primeira vez, a execução do orçamento do Serviço Nacional de Saúde", frisou.
Garantiu que esta contenção de despesas não se traduziu em menos produção, dando como exemplos o aumento do número de consultas e de cirurgias e a redução do número de doentes em lista de espera.
Aludindo à reestruturação da rede de urgências, admitiu que é uma das áreas "politicamente muito sensíveis", mas na qual "há uma mudança indispensável a ser feita", baseada num "excelente trabalho feito por um conjunto de peritos dos melhores que há em Portugal", a ser aplicada de forma gradual no terreno.
O objectivo é, segundo o governante, que Portugal fique com "uma rede de urgências tecnicamente irrepreensível e que promova alternativas de acesso, nomeadamente às populações mais isoladas".
"É uma política de melhoria das condições técnicas nas urgências, mas também libertando recursos para montar as alternativas", justificou.