Bento XVI é o Papa que o mundo e a Igreja precisam
Bento XVI vai ser o papa que o mundo e a Igreja do século XXI precisam, respondendo aos problemas da modernidade e capaz de gerir o conservadorismo dos valores cristãos com o progressismo obrigatório, afirmou D. José Saraiva Martins.
"O cardeal Ratzinger vai ser um bom Papa. Vai ser o Papa que a igreja e o mundo de hoje precisam, continuando na linha de João Paulo II", disse à Lusa.
"É um homem de grande cultura, um pensador, de uma profunda espiritualidade e que conhece bem os problemas da Igreja e a rica herança de João Paulo II", sustentou.
O facto de ter sido perfeito da Congregação da Doutrina da Fé - e identificado como o principal conselheiro teológico de João Paulo II -, a par da grande experiência de Cúria que acumulou, ajudam a reforçar a sua capacidade de gerir a Igreja.
"Tem todos os requisitos para ser Papa", considerou.
Um dos portugueses que melhor conhece o novo Papa, trabalhando ao lado dele durante várias décadas, Saraiva Martins rejeita as críticas à escolha de Bento XVI, afirmando que a descrição mediática que tem sido feita "não corresponde à realidade".
"Quem o conhece bem, como eu, dá-se logo conta que é conservador, mas todos temos que o ser, se queremos manter a nossa identidade. Mas não no sentido de estar fechado à visão do mundo", disse.
E ainda que valores do Evangelho e valores humano e cristão sejam "perenes e imutáveis", obrigando por isso ao conservadorismo, é necessário ser progressista para não ficar agarrado "ao passado".
"Temos que viver a fé no dia de hoje e temos que a proclamar com as categorias de pensamento de hoje, com a linguagem do homem de hoje, uma linguagem simples e acessível", disse, mostrando-se confiante que Bento XVI saberá gerir os dois elementos.
Embora Bento XVI tenha indicado uma vontade de continuidade do trabalho desenvolvido por João Paulo II, Saraiva Martins lembra que nenhum Papa "é a fotocópia" dos seus antecessores, ocupando e enriquecendo a função "com o seu carisma pessoal".
Sem se alargar em comentários sobre o processo eleitoral em si, e confirmando apenas que Ratzinger mereceu "mais do que os dois terços necessários", o cardeal português disse que nas primeiras contagens "houve outros candidatos" e que o ambiente foi pautado pela "serenidade, paz e tranquilidade".
"Foi eleito em apenas quatro votações e isso é muito significativo", disse.
Apesar de sentir "uma grande responsabilidade" por ter feito parte desse selecto grupo de 115 príncipes da Igreja, como são conhecidos os cardeais católicos, Saraiva Martins disse sentir "grande confiança" pela escolha que foi "guiada e inspirada pelo Espírito Santo".
"Num Conclave não há combates eleitorais, nem se deve falar nisso porque não existem. Há uma troca de opiniões e ideias, examinando a situação da Igreja, o identikit (perfil) dos seus problemas e depois ver quem entre os cardeais pode governar melhor a Igreja", afirmou na sua residência, numa das esquinas da Praça de São Pedro.
José Saraiva Martins, que vive em Roma há 50 anos, era até à morte de João Paulo II e desde 1998 o perfeito da Congregação das Causas dos Santos, tida no Vaticano como a segunda mais poderosa depois da que era então comandada pelo actual Papa, a Congregação da Doutrina da Fé.
Natural de Gagos, distrito da Guarda, D. Saraiva Martins - o único português além de D. José Policarpo a participar no Conclave de eleição de Bento XVI - recebeu as insígnias cardinalícias de João Paulo II em 2001.
Todos os cargos, incluindo na Congregação das Causas dos Santos, estiveram vagos durante o período da Sé Vacante, cabendo agora a Bento XVI nomear os responsáveis pelas várias estruturas do Vaticano.
Desconhece-se o calendário para essas nomeações, bem como a nova data da cerimónia de beatificação que antes da morte de João Paulo II estava marcada para domingo próximo, e na qual deveria ser beatificada, entre outros, a portuguesa Rita Amada de Jesus Lopes de Almeida, uma freira portuguesa que viveu entre 1848 e 1913.