Brutalização de professora impõe “introdução de regras claras para alunos”

O vídeo que mostra um confronto entre aluna e professora numa sala de aula da escola secundária Carolina Michaelis, no Porto, configura um “desafio claro” à autoridade dos docentes e impõe “a introdução de regras muito claras para os alunos”, sustentou o presidente do Conselho das Escolas em entrevista à RTP.

Carlos Santos Neves, RTP /
Novas tecnologias "têm colocado novos problemas às escolas", afirmou o presidente do Conselho das Escolas RTP

O vídeo de um minuto e 48 segundos, divulgado na Internet com o título “9.º C em grande”, deixa patente uma situação comum a muitas escolas do país – a falta de autoridade experimentada pelos professores. Um quadro que o presidente do Conselho das Escolas considera estar também a ser alimentado pela utilização de novas tecnologias, com os telemóveis em lugar de destaque.

“Penso que aquilo que espoleta esta situação é, de facto, o uso dos telemóveis e uso de novas tecnologias, que têm colocado novos problemas às escolas”, afirmou Álvaro Almeida dos Santos, entrevistado esta sexta-feira no Jornal da Tarde.

Para o presidente do Conselho das Escolas, os telemóveis constituem hoje “um dos aspectos que desencadeiam mais situações de conflito e também de perturbação dentro das escolas e nas salas de aula.

A proibição da utilização de telemóveis no interior das salas de aula está regulamentada no novo Estatuto do Aluno. O caso da secundária Carolina Michaelis deixou visível a fragilidade das regras estabelecidas.

“É um desafio muito claro relativamente à autoridade da professora. É necessária, antes de mais, a introdução de regras muito claras para os alunos”, reconheceu Álvaro Almeida dos Santos. "Eu sei que muitas escolas o fazem eficazmente. Há escolas que têm mecanismos de detecção e de ataque aos problemas de indisciplina causados pelo uso destas máquinas”, ressalvou.

“As escolas desencadeiam mecanismos de ataque ao problema, seja através do trabalho conjunto dos professores, dos conselhos de turma, seja inclusivamente pelo estabelecimento de um conjunto de medidas de auxílio de professores coadjuvantes dentro da sala de aula”.

Receio de “censura social”

O incidente ocorreu durante a última aula de Francês antes das férias da Páscoa. No vídeo, uma das alunas parte para o confronto físico com a professora depois de esta lhe retirar o telemóvel. O confronto é filmado pelo telemóvel de outro aluno.



Até quinta-feira a professora ainda não tinha apresentado queixa, tão-pouco o conselho executivo da escola desencadeara um inquérito interno, afirmando mesmo desconhecer o caso. A Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) ordenou entretanto ao órgão executivo da Carolina Michaelis a abertura do inquérito.

O presidente do Conselho das Escolas admite a possibilidade de ter havido “receio ou porventura inibição”.

“O receio é mais pela censura social que este caso comporta”, sustentou. “Penso que há já aqui uma censura social. O caso é lamentável e esta censura atinge professores e também alunos. E no fundo traz à superfície alguns problemas que, devo salvaguardar, não são regra nas escolas. Estes casos são excepção”.

Na óptica de Álvaro Almeida dos Santos, “há agora uma maior visibilidade, até pelo uso destas máquinas (telemóveis)”.

“Esta maior visibilidade e toda a amplificação que é feita, em termos da própria comunicação social, leva a que haja todo este ruído em torno do caso”, argumentou.

O responsável considera, no entanto, que o eco do caso tem também “um aspecto positivo”: “Permite sensibilizar as famílias, os pais, para o facto de o telemóvel não ser um direito inalienável dos alunos para as aulas. Pelo contrário. Eles constituem muitas vezes um factor que leva a que os próprios alunos perturbem a sua aprendizagem”.

O presidente do Conselho das Escolas rejeita “estabelecer quaisquer juízos de valor em relação à actuação da professora”. “As circunstâncias serão apuradas e esse aspecto será esclarecido. Penso que o conselho executivo e a DREN encontrarão medidas adequadas para lidar com este tipo de situações”.

CONFAP deixa apelo a pais e encarregados de educação

Esta sexta-feira, a Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP) veio condenar o incidente ocorrido na secundária Carolina Michaelis, apelando aos pais “para que imponham regras muito firmes quanto ao uso de telemóveis pelos seus filhos”.

Em comunicado citado pela Agência Lusa, a CONFAP “condena todos os actos de indisciplina praticados por alunos nas escolas”.

“Este caso não pode ser visto de forma isolada”, defende a estrutura, uma vez que “a disciplina deve ser entendida no sentido da partilha da responsabilidade de aprender, dos fins que justificam a existência da escolha numa sociedade moderna e democrática”.

A sociedade portuguesa está hoje confrontada, no entendimento da CONFAP, com uma “crise de autoridade” e uma “crise da educação”.
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