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Burnout pode afetar até 75% dos médicos internos, alerta revisão científica

Burnout pode afetar até 75% dos médicos internos, alerta revisão científica

O burnout pode afetar até 75% dos médicos internos e comprometer a qualidade dos cuidados e a segurança dos doentes, segundo uma revisão publicada na Acta Médica Portuguesa, que defende políticas nacionais de prevenção e proteção da saúde mental.

Lusa / Adicionar como fonte informativa

O artigo "Burnout nos Médicos Internos: Uma Perspetiva Atual" analisou 22 artigos científicos, publicados entre 2000 e 2024, e a prevalência identificada varia entre 17% e 75%, o que, segundo as investigadoras, evidencia "a heterogeneidade metodológica e a necessidade de maior investigação e compreensão".

Apesar dessas diferenças, a revisão conclui que o `burnout` é frequente entre médicos internos, com valores superiores a 50% em vários estudos, sobretudo no primeiro ano do internato e em determinadas especialidades, sendo o fenómeno descrito como multifatorial e fortemente influenciado pelas condições organizacionais.

O artigo, publicado na revista científica da Ordem dos Médicos, cita um estudo realizado em 2023 pelo Conselho Nacional do Médico Interno da OM, com 1.737 respostas, segundo o qual 84,8% dos inquiridos disse fazer horas extraordinárias e trabalhar, em média, 52,8 horas por semana, acima da referência europeia de 48 horas semanais.

No mesmo estudo, 61% dos inquiridos identificaram a carga de trabalho excessiva como principal fonte de sofrimento psicológico e 46% referiram falta de apoio institucional.

Além disso, 29% disseram ter sofrido assédio ou abuso de poder durante o internato, 18% ponderaram abandonar a formação devido ao esgotamento e 37% manifestaram incerteza profissional quanto ao futuro.

O artigo alerta para as consequências do `burnout` na saúde dos médicos e na prestação de cuidados, sublinhando que o esgotamento profissional está associado a dificuldades no desempenho e pode afetar a segurança dos doentes, embora a maioria dos estudos analisados não permita estabelecer relações causais definitivas.

Também assinala as diferenças entre especialidades: Um dos estudos incluídos, que reuniu 31 estudos e cerca de 9.000 médicos internos, identificou prevalências de `burnout` de 48,3% nas especialidades médicas e de 57,1% nas especialidades cirúrgicas.

Em especialidades com forte componente emocional, como a psiquiatria e a pediatria, estudos longitudinais identificaram taxas de esgotamento emocional superiores a 60%, frequentemente associadas ao contacto prolongado com doentes vulneráveis e a dificuldades de comunicação com os familiares.

Outro estudo registou valores superiores a 70% em obstetrícia e ginecologia, atribuindo estes valores à imprevisibilidade dos casos, ao fardo emocional associado à perda fetal.

Perante estes resultados, as autoras defendem intervenções integradas, com prioridade para as medidas institucionais, em vez de estratégias exclusivamente individuais, assim como a reorganização dos horários, períodos de descanso adequados, supervisão estruturada, programas de apoio psicológico e mecanismos confidenciais de comunicação de problemas.

A revisão refere iniciativas que combinaram horários mais equilibrados com supervisão estruturada e nas quais foram registadas reduções de 22% na exaustão emocional e de 18% na despersonalização, além de um aumento de 25% na satisfação.

"Estes resultados dizem respeito às intervenções descritas nos estudos e não demonstram que os mesmos efeitos possam ser reproduzidos em todos os serviços", sublinha.

Segundo as autoras, a investigação disponível apresenta limitações: dos 22 artigos analisados, apenas um era longitudinal, dificultando a compreensão da evolução do fenómeno ao longo do tempo.

Cerca de 80% dos estudos utilizaram o questionário `Maslach Burnout Inventory`, mas a diversidade de métodos e critérios de avaliação limita a comparação direta das prevalências.

O estudo recomenda políticas de proteção da saúde mental dos internos, mecanismos formais de prevenção e monitorização e maior integração desta questão na organização da formação médica.

Defende ainda a realização de estudos multicêntricos e longitudinais, com amostras de maior dimensão, para melhorar o conhecimento sobre a evolução do problema e avaliar a eficácia das medidas adotadas.

As autoras concluem que "o `burnout` deve ser abordado como um risco ocupacional que exige uma resposta coordenada das instituições de saúde, das entidades responsáveis pela formação médica e das organizações profissionais".

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