"Caladinhos" da Feira, o biscoito da saudade que ninguém sabe quem batizou

Santa Maria da Feira, Aveiro, 18 ago (Lusa) - Os "caladinhos", um bolo típico da Feira, geram nesta fase o habitual comércio da saudade por parte de emigrantes, que, embora reconhecendo duas correntes quanto à origem do seu nome, preferem a versão que fala da PIDE.

Lusa /

Sérgio Gomes vive há 30 anos na Suíça, mas, durante as suas férias em Portugal, compra caladinhos quase diariamente na Feira, para os consumir no dia ou levar de viagem no regresso a casa.

"Ou os levo eu comigo, quando cá venho, ou peço a quem vem a Portugal que me compre alguns e mos leve para a Suíça", declara o emigrante hoje à Lusa.

"Acho que são uma maravilha e, como aos 16 anos desafiei o [António] Salazar ao fugir para Paris, gosto mais da teoria que diz que o nome dos `caladinhos` surgiu no tempo da ditadura, para enganar a antiga PIDE [Polícia Internacional e de Defesa do Estado]", explica.

Essa versão é a adotada no café Trovador, que, enquanto referência local no fabrico dos pequenos bolos, divulga a história num panfleto próprio: o chamado Augusto Padeiro estaria a confecionar biscoitos quando, ao aperceber-se da chegada da polícia do regime à cozinha, recomendou aos seus empregados "Shiu! Estejam calados".

Os agentes da PIDE, contudo, ouviram-no, pelo que, quando lhe perguntaram "Calados porquê?", o pasteleiro se viu obrigado a disfarçar, respondendo de improviso: "Porque estamos a fazer calados. Estes bolos são os caladinhos".

Para Serafim Costa, gerente do Trovador, a história remonta a 1934, mas "ainda pouca gente a conhece porque, na Feira, o que se promove mais é sempre a fogaça".

Seja pelo carisma que essa teoria vem emprestando ao biscoito seja pela "qualidade da confeção da casa", como o empresário defende ao realçar que "há muita falsificação a circular em cafés, nos vendedores ambulantes e em supermercados", o facto é que "a procura de caladinhos tem aumentado de ano para ano" nesse estabelecimento, com os clientes a comprarem diariamente 10 a 15 sacos de 500 gramas desses bolos.

Já no Café Castelo, outra referência local no fabrico das iguarias tradicionais da Feira, Diogo Almeida diz que "os caladinhos não têm tanta saída como a fogaça, porque não são um doce muito divulgado", mas reconhece que "os emigrantes da Feira compram-nos sempre quando vêm de férias, para comer cá ou levar para o estrangeiro".

Quanto à designação do biscoito, o proprietário do Café Castelo muda de registo. "Já havia caladinhos muito antes da PIDE e, só por causa das coisas, nós encomendámos um estudo ao Museu Convento dos Lóios [na Feira], para ver se eles descobrem qual é a referência histórica mais antiga que existe sobre eles", anuncia.

Para Diogo Almeida, a explicação para o nome do bolo será menos rebuscada do que a de contornos salazaristas: "Como se trata de um bolo muito simples, que não enche muito o olho, o nome deve ter vindo de se dizer `Come e cala-te. Aprecia e caladinho!`".

Farinha, ovos e açúcar são os ingredientes-base da iguaria, mas Ramiro Santos, também do Trovador, realça que "o grande segredo está todo na cozedura, a altíssimas temperaturas".

"Não é um bolinho de aparência muito apetitosa, mas quem prova adora-o, pelo paladar e pela textura que tem no meio", esclarece. "Aí é que está a surpresa", assegura.

Irene Gomes, também emigrante na Suíça, abastece-se dos biscoitos originais durante as férias em Portugal, mas durante o resto do ano, para a família e para os amigos estrangeiros, replica na sua cozinha as receitas que retira da internet. "Só que não há nenhum caladinho feito em casa que se compare aos que compramos nestas pastelarias", confessa.

Tópicos
PUB