Câmara quer dar nome de Amália a artéria outora conotada com prostituição, moradores criticam
Viana do Castelo, 29 Jan (Lusa) - Moradores de uma rua de Viana do Castelo que a Câmara quer rebaptizar com o nome de Amália Rodrigues classificaram hoje essa intenção de "pura estupidez", lembrando que a artéria foi outrora conotada com a prostituição.
"Isto chamava-se Viela dos Seitais. Havia aqui três casas de prostituição, toda a gente conhecia isto como a `rua das meninas`. Em finais de 1962, o Governo encerrou essas casas e mudou o nome à rua, que passou a chamar-se Travessa do Hospital Velho. Agora querem pôr o nome da Amália numa rua com este historial? É uma estupidez, uma pura estupidez", insurgiu-se uma moradora.
Maria Bernadete Silva, 70 anos de idade, recorda que a própria casa onde ela actualmente mora foi, em tempos idos, "uma casa de meninas" e que aquela era mesmo a única rua da cidade onde se exercia a mais antiga profissão do mundo.
"Não acham que a Amália merecia melhor? Louvado seja Deus", desabafou a septuagenária.
Morada na mesma rua, Teresa Correia confessa que adora Amália e não esconde que até sentiria um certo orgulho em morar numa rua com o seu nome, mas considera que a fadista "merecia melhor".
"Não é só por esta ter sido a rua das meninas, onde os homens volta e meia vinham bater à porta. É também pelo estado lastimável em que esta rua está", referiu.
Críticas partilhadas por José Brito da Silva, um antigo trabalhador dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo que diz que a travessa onde mora "está uma miséria", com "os esgotos sempre entupidos", o piso constantemente cheio de buracos, as casas "todas sujas e a cair".
"Em vez de mudar de nome, a Câmara devia era olhar por esta rua. Se não fossem os moradores estarem constantemente a remendar o pavimento, ninguém podia circular por aqui", insurgiu-se José Silva.
A Câmara de Viana do Castelo justificou a escolha daquela rua para homenagear Amália Rodrigues por se tratar daquela que, no Centro Histórico, "mais se assemelha às ruas do Bairro Alto", em Lisboa.
"De uma ponta da rua não se consegue ver a outra ponta", explicou a Autarquia.
A homenagem a Amália Rodrigues está prevista para Agosto e é justificada pela Câmara pelo facto de a fadista ter levado aos quatro cantos do mundo o nome da cidade, ao cantar "Havemos de ir a Viana", um poema com letra de Pedro Homem de Mello.
Em Agosto faz 10 anos que Amália foi a presidente da Comissão de Honra das Festas d`Agonia, por delegação do presidente da Câmara.