Câmaras de vídeo subaquáticas procuram tubarões, baleias e golfinhos na Madeira
Com recurso a sistemas de vídeo remotos subaquáticos com isco (BRUV), os investigadores da expedição Madeira Ocean querem observar animais de grande porte, como golfinhos, baleias ou tubarões para depois avaliarem a megafauna marinha.
A reportagem da Lusa esteve hoje a acompanhar o trabalho de campo realizado a bordo do catamarã `Feel Good`, na zona sul da Madeira, onde a investigação marinha é feita de diferentes formas.
"Quando estamos a fazer BRUV pelágicos, o nosso interesse é em animais grandes, megafauna, como golfinhos, baleias ou tubarões", explicou à agência Lusa a coordenadora científica da equipa, Silvia Valsecchi.
A partir dos sistemas de vídeo remotos subaquáticos com isco, os investigadores já observaram alguns animais, mas ainda não foi possível avistar o que Silvia Valsecchi mais deseja: os tubarões, objeto do seu projeto de doutoramento.
"Por enquanto, tivemos a sorte de avistar algumas tartarugas", indicou a investigadora.
A equipa liderada por Silvia Valsecchi colocou, ao largo da Reserva Natural Parcial do Garajau, seis BRUV, que ficaram no mar durante duas horas, a 10 metros da superfície.
Trata-se de uma estrutura de fibra de carbono composta por duas câmaras subaquáticas e um isco, com sardinhas, que regista os animais que se aproximam atraídos pelo odor.
Enquanto os BRUV estão no mar, sinalizados por uma boia, a recolher imagens, os investigadores aproveitam para realizar outro método científico, o `manta trawling`.
Esta metodologia, também coordenada pela investigadora Silvia Valsecchi, é utilizada para recolher, sobretudo, microplásticos e plâncton, que depois são analisados em laboratório.
Decorridas as duas horas, é tempo de ir retirar os BRUV do mar, seguindo-se depois, um longo trabalho, indica a investigadora.
É necessário transferir todos os ficheiros, criar uma cópia de segurança e registar os dados, que serão enviados para um laboratório na Austrália, com `software` capacitado "para analisar os vídeos, contabilizar a biomassa e o número de animais na água".
"E eles vão tratar de tudo e, depois, poderemos ver os resultados do nosso trabalho", realçou.
O trabalho científico é metódico, exige precisão, mas, a bordo do catamarã "Feel Good", há uma tripulação com boa energia e uma banda sonora que proporciona pequenos momentos de lazer enquanto se faz ciência.
A par dos trabalhos no mar, Tiago Dias, técnico de conservação marinha na Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), tenta observar o maior número de aves possível.
"Vimos cagarras, gaivotas e uma freira que, infelizmente, estava muito longe e não deu para identificar se era uma freira-da-madeira ou uma freira-do-bugio", indicou.
Tiago Dias afirmou que nem toda a vida está por baixo do mar, salientando que as aves marinhas são um bioindicador para avaliar a saúde do mar e "perceber as alterações no meio".
"Com este trabalho, conseguimos perceber áreas de alimentação, áreas de uso e áreas de descanso, para saber que áreas as aves estão a utilizar e conseguirmos proteger essas áreas", destacou.
A fazer observação de mamíferos marinhos, mas também tartarugas e tubarões, está a investigadora do MARE-Madeira Anita Alessandrini, mas hoje isso não foi possível.
"Esperamos que nos próximos dias as condições sejam melhores e consigamos ver espécies diferentes", afirmou.
A expedição Madeira Ocean 2026 decorre durante todo o mês de outubro, nas costas norte e sul da Madeira, no Porto Santo e nas Ilhas Desertas.
A iniciativa envolve mais de 100 cientistas nacionais e internacionais, de um total de 200 participantes na expedição, incluindo diversas equipas de investigadores de diferentes áreas, com recurso a várias metodologias que incluem tecnologia simples e também de ponta.