O primeiro som, quase impercetível, é o ruído seco do papel a ser dobrado entre os dedos. Neste grupo de mulheres, de vez em quando, alguém dispara uma gargalhada que atravessa a garagem. Há também quem conte uma história e a resposta ouve-se do outro lado.
Estamos no estacionamento subterrâneo onde funciona a ótica de Elsa Muacho. As paredes parecem refletir um rosa intenso.
A cor não vem da tinta mas das centenas de pétalas espalhadas sobre a mesa comprida, onde mulheres de várias gerações trabalham lado a lado.
Aqui não há relógios. Há apenas um calendário invisível que começou em janeiro e termina quando Campo Maior voltar a vestir-se de flores. É neste espaço discreto que tudo acontece.
São os preparativos para engalanar uma das cerca de 100 ruas que, nos próximos oito dias, vão transformar a vila de Campo Maior num enorme jardim feito em papel, para receber, 11 anos depois, as Festas do Povo.
À frente de tudo está Elsa Muacho. É a cabeça de rua da Avenida dos Combatentes da Grande Guerra. É também a pessoa sobre quem recai a responsabilidade de transformar centenas de milhares de pedaços de papel em autenticas esculturas.
"Nós começamos por inscrever a rua, mas primeiro temos de fazer uma reunião, com as pessoas para ver se querem participar", explica.
Enquanto fala, segura um caderno já gasto pelo uso. As páginas estão preenchidas por números, contas, medidas e pequenos apontamentos. À primeira vista parece apenas um bloco de notas. Na verdade, é o mapa de meses de trabalho, onde há números que já nem precisa de consultar. "A nossa rua mede exatamente 190 metros", diz, sem hesitar.
São mais de 100 mil flores. 1.600 cordas suspensas no teto e cada uma vai suportar cerca de 35 flores.
Mas, antes de assumir a responsabilidade de ser cabeça de rua, foi primeiro um sonho. "As primeiras festas que eu vivi foram em 1998. Já era casada e tinha os meus filhos", recorda.
"Eu era emigrante e quando regressava para França os paus já estavam na rua e as pessoas já estavam a organizar tudo, e nós íamos embora. E eu e a minha mãe íamos a chorar porque não podíamos ver as festas", lamenta Elsa Muacho.
Hoje é ela quem ajuda a fazer acontecer a festa.
Regressou definitivamente a Portugal em 2004 e, incentivada pelas vizinhas, aceitou assumir a função de cabeça de rua. Desde então, cada edição passa-lhe pelas mãos.
O trabalho nunca termina quando sai dali. "À tarde faço em casa um bocadinho", conta.
À noite volta aos serões, na companhia de todas as outras mulheres, para continuar aquilo que deixou a meio.
Para Idaulina Ribeiro, aquelas noites significaram muito mais do que preparar flores.
"Para mim foi uma terapia", assume Idaulina. Sem levantar os olhos do papel que continua a dobrar, acrescenta: "Tive um problema de saúde e isto fez-me bem".
Nesse dia, Idaulina começou o trabalho do corte e cola de flores ainda antes do nascer do sol. "Eu comecei às 6 e meia da manhã a trabalhar em flores". Contam-se sete meses de trabalho voluntário, em que os serões fazem parte da rotina de dezenas de pessoas. "Eu tenho todos os dias, à volta de sete, oito pessoas a ajudar. São sete meses de trabalho sem parar, a contar com os fins de semana, feriados", explica Elsa Muacho.
Nesta espécie de oficina improvisada, cada pessoa encontra naturalmente o seu lugar.
As crianças são poucas. Talvez porque as férias convidem a outras brincadeiras. Mas Mariana Pinheiro escolheu um caminho diferente. Tem apenas nove anos.
Nunca viu as Festas do Povo. Conhece-as apenas através das fotografias, dos vídeos e das histórias que lhe contam desde pequena. Ainda assim, decidiu trocar parte das férias passadas com a avó por horas de trabalho na garagem.
Quer aprender. E já sabe o que deseja ser um dia: cabeça de rua. "Há crianças que não se importam mas eu estou desde janeiro à espera desta festa e estou muito entusiasmada", diz, incapaz de esconder o sorriso.