Cavaco Silva foi oficial, cavalheiro e.... cineasta
Os dois anos que o presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, passou em Moçambique, onde cumpriu entre 1963 e 1965 uma comissão militar, revelam um apaixonado por viagens e desconhecido cineasta, segundo testemunhos recolhidos pela Lusa.
"O Cavaco um dia veio-nos mostrar um filme que tinha feito, já com alguns requintes de ordem técnica. Além de ser um filme com música, era animado e apresentava uma montagem já quase semi-profissional", disse.
O cinema era um dos passatempos extra-serviço militar que Cavaco Silva mantinha na então Lourenço Marques, hoje Maputo.
"Os filmes eram filmados em `super-8`, que víamos em nossas casas. Por acaso, o filme que ele fez foi projectado pela primeira vez em minha casa", recordou.
A Aníbal Cavaco Silva e José Macedo e Cunha, ambos casados, juntavam-se outros alferes milicianos como Manuel Frasquilho e Levy Vermelho.
"Vivíamos no mesmo prédio, na Avenida Pinheiro Chagas (actual Avenida Eduardo Mondlane). Era um prédio novo, inaugurado por nós, oficiais do quadro, quase todos do Quartel-General", acrescentou.
Os quatro oficiais estavam colocados nos vários serviços da Administração Militar, com Cavaco Silva nas Finanças e Contabilidade.
José Macedo e Cunha recorda-se de que viver na época em Lourenço Marques "era muito agradável".
"Era uma vida muito agradável. Juntávamo-nos por vezes num café. Cada um de nós tinha os seus `hobbies`, como o cinema ou a música. Estávamos a começar e cada um de nós fazia filmes da vida diária", continuou.
Nas tertúlias que alimentavam não havia grande espaço para a política.
"Eram conversas sobre o dia-a-dia, sobre os nossos afazeres, sobre automóveis. Não me recordo de termos grandes conversas sobre política", vincou José Macedo e Cunha, que apontou as viagens como outra forma de ocupar o tempo livre.
"Eu já tinha um filho, mas ele e a mulher viajavam. Estavam lá outros dois camaradas, o Manuel Frasquilho e o Levy Vermelho, com quem fizeram viagens ao longo de Moçambique, África do Sul e Rodésia (actual Zimbabué). Os quatro fizeram uma ou duas grandes viagens", adiantou.
Outro camarada de armas contemporâneo de Cavaco Silva em Moçambique foi o hoje coronel Raul da Costa Dionísio.
"Na altura, eu era capitão. A nossa relação era mais profissional do que pessoal. Tinha dois adjuntos, do mesmo tempo que o Cavaco Silva, que eram o Manuel Frasquilho e o Levy Vermelho, e por vezes confraternizávamos juntos, mas o relacionamento era mais profissional", acentuou.
Do alferes Cavaco Silva, o hoje coronel Raul da Costa Dionísio guarda a imagem de alguém "muito profissional, muito consciente dos seus deveres. Um oficial aprumado", destacou.
"Ele era daquelas pessoas em quem se podia confiar para que uma tarefa fosse feita como deve ser. Fiquei com esta ideia de austeridade, de exigência e profissionalismo", acrescentou.
Outro oficial que esteve em Moçambique ao mesmo tempo que Cavaco Silva foi o coronel Fernando Queirós de Azevedo.
"Fiz dois anos em Moçambique e o então alferes miliciano Cavaco Silva estava lá, mas só falei com ele duas ou três vezes. Ele estava em Administração Militar, na direcção de Contabilidade, mas nunca convivi com ele", referiu.
"Eu estava numa companhia de instrução e ele estava na parte da Administração Militar. Pareceu-me uma pessoa simpática, aprumada, mas não tive contacto com ele", reforçou.
Num depoimento ao semanário Expresso, publicado na edição de 10 de Junho de 2005, Aníbal Cavaco Silva falou da paixão das viagens e do gosto pelo cinema.
"Em Novembro de 1963, como alferes miliciano mobilizado para uma comissão militar de dois anos e com menos de um mês de casado, desembarquei no porto de Maputo (então Lourenço Marques) acompanhado pela minha mulher. Decidimos aproveitar a estadia forçada pela guerra colonial para descobrir o que pudéssemos da África Oriental e das suas gentes. Apaixonámo-nos definitivamente por Moçambique", escreveu.
"Fascinados pela aventura e pela descoberta de um mundo que era novo para nós, registámos em muitas horas de filme imagens para mais tarde recordar com a família", acrescentou.
Cavaco Silva inicia no próximo dia 24 uma visita oficial de três dias a Moçambique, mas antes, acompanhado da família, gozará uma semana de férias até ao dia 23, tornando-se no primeiro chefe de Estado português a passar férias numa antiga colónia portuguesa.
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