Cavaco Silva o 18.º Presidente da República
Vinte anos depois de ter assumido o cargo de primeiro-ministro e após dez anos de afastamento da `ribalta` política, Cavaco Silva chega hoje a Belém para cumprir o mandato de cinco anos como Presidente da República.
Longe da política activa desde 1996, Cavaco Silva regressou em Outubro de 2005 para tentar conquistar a Presidência da República, que lhe tinha escapado para Jorge Sampaio dez anos antes.
Um regresso meticulosamente preparado, onde não houve margem para imprevistos.
Tal como tinha feito durante os dez anos em que esteve afastado da vida política, desde que apresentou a sua candidatura presidencial, a 20 de Outubro, e até ao início da campanha eleitoral, as suas intervenções foram poucas e sempre estudadas ao pormenor.
Durante a volta que fez ao país nas três semanas que antecederam as eleições de 22 de Janeiro, onde conseguiu alcançar a vitória à primeira volta com 50,4 por cento dos votos, Cavaco Silva visitou os 18 distritos do continente e fez uma curta passagem pela Região Autónoma da Madeira.
Nos discursos, Cavaco Silva repetiu habitualmente as mesmas ideias, prometendo cooperar com o Governo, mas mantendo sempre um "olhar" vigilante às acções e políticas do executivo de José Sócrates.
O novo Presidente da República assumiu ainda a sua intenção de manter um papel decisivo na melhoria da situação económica e na recuperação do atraso do país em relação à média da União Europeia, garantindo que irá "ajudar o país a sair da crise".
As polémicas estiveram praticamente ausentes da campanha, com Cavaco a recusar entrar em "diálogo" com os seus adversários e a evitar falar de questões "quentes" da actualidade política.
O homem que acha que "quase nada acontece por acaso", foi primeiro-ministro durante dez anos (1985-1995), nos primeiros anos de Portugal na Comunidade Europeia, da política de betão, das auto- estradas e das reformas, obtendo para o PSD duas maiorias absolutas afastou-se, em 1996, da ribalta.
Aníbal Cavaco Silva nasceu em Boliqueime (Algarve) em 15 de Julho de 1939. Na escola, foi um aluno médio e aos 13 anos chumbou no terceiro ano da Escola Comercial. Como castigo, o avô obrigou-o a trabalhar de enxada na mão na horta.
Em 1964, licenciou-se em Finanças no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF), com uma média de 16 valores.
Já casado com Maria Alves da Silva, de quem teve dois filhos (Patrícia e Bruno), Cavaco Silva cumpriu, em 1964, o serviço militar obrigatório em Moçambique, como oficial miliciano da Administração Militar.
A carreira docente é iniciada em 1966, como assistente do ISCEF, mas dois anos depois Cavaco ingressa na Universidade de York (Reino Unido), onde, em 1973, faz o doutoramento.
Regressado a Portugal, foi professor auxiliar no ISCEF (1974), professor na Universidade Católica (1975), professor extraordinário na Universidade Nova de Lisboa (1979) e Director do Gabinete de Estudos do Banco de Portugal.
A política só entra na sua vida após o 25 de Abril de 1974, aderindo logo nesse ano ao então PPD, de Sá Carneiro, de quem é um admirador.
Antes de chegar à liderança do partido, Cavaco Silva esteve no gabinete de estudos do PSD e foi ministro das Finanças do Governo de Francisco Sá Carneiro (1980-81).
Com a morte de Sá Carneiro, em Dezembro de 1980, e a crise na Aliança Democrática, abandona o executivo e lidera com Eurico de Melo uma oposição a Pinto Balsemão. É deputado (1980) e presidente do Conselho Nacional do Plano (1981-1984).
Em 1985, Cavaco Silva vai ao congresso da Figueira da Foz fazer a rodagem do seu Citroen BX e ganha supreendentemente a liderança do partido na disputa com João Salgueiro.
Depois, rompe o acordo de coligação com o PS (Bloco Central), iniciado pelo falecido Mota Pinto, e provoca eleições antecipadas.
Após ganhar as legislativas de 1985, com maioria relativa, Cavaco Silva forma um governo minoritário que durou cerca de dois anos.
Em 1987, o executivo cai com uma moção de censura apresentada pelo PRD no Parlamento. É então que conquista a primeira maioria absoluta do pós-25 de Abril, que repete nas legislativas de 1991.
É na fase final do seu mandato - ironicamente depois de o PSD ter apoiado a reeleição de Mário Soares para Belém - que atravessa o período mais conturbado das relações com o Presidente da República.
Em 1994, alimenta durante largos meses o famoso "tabu" sobre a sua hipotética recandidatura ao cargo de primeiro-ministro, que só seria quebrado muito próximo das legislativas de 1995.
Quebrado o tabu, Cavaco deixa a liderança social-democrata para Fernando Nogueira e, em 1996, decide candidatar-se a Belém, mas perde para o socialista Jorge Sampaio.
De 1996 até à data em que anunciou a sua candidatura a Belém, o primeiro-ministro que fez do sigilo uma regra do seu gabinete e entende que "a qualidade nunca é um acidente e que quase nada acontece por acaso" quebrou poucas vezes o silêncio para comentar a política portuguesa.
Agora, Cavaco Silva está de regresso, com a promessa de ser um Presidente "activo e empenhado".