País
Centro de esterilização investe três milhões em Portugal
Com um investimento de três milhões de euros e a criação de 27 postos de trabalho, o Cenes, primeiro centro de esterilização de dispositivos médicos em outsourcing em Portugal, está equipado com uma das mais avançadas tecnologias.
Desde maio deste ano que está pronto para atuar junto de todas as unidades de saúde, públicas ou privadas, num raio de operação de 60 quilómetros, existindo um plano de expansão para operar em todo o país, (região norte, centro e ilhas) Angola e Moçambique, no decorrer dos próximos 5 anos.
A maior novidade é a operacionalização de um equipamento avançado de descontaminação de material hospitalar. Este equipamento (túnel de lavagem e desinfeção de contentores, carros hospitalares e outros dispositivos de transporte em unidades de saúde) reforça assim o seu posicionamento no setor. A certificação será obtida até final do ano.
O SAMS, prestação integrada de cuidados de saúde dos bancários, é o primeiro parceiro a participar neste projeto, com vista à otimização do seu desempenho e ao atual quadro regulamentar no controlo de infeção.
Para Sílvia Ribeiro, gestora operacional do Cenes, a maioria dos serviços de reprocessamento do país são muito antigos e não há verbas para os recondicionar. “Se há uma área onde entram os dispositivos contaminados e onde se faz a lavagem dos mesmos e a seguir não se faz a separação para a área seguinte, com controle ambiental, pode-se depois contaminar a área onde estamos a tratar já os dispositivos, supostamente, limpos e descontaminados. Corremos um risco desnecessário”, adianta a responsável.Infeções devem-se a dispositivos contaminados ou mal reprocessados
Segundo a gestora operacional do Cenes, “a contaminação existe mas não está contabilizada e grande parte das infeções é adquirida através do uso de dispositivos médicos contaminados ou mal reprocessados. Por exemplo, segundo um estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre o assunto, a taxa europeia é de sete por cento, ou seja, sete pessoas em cada 100 que dão entrada num hospital, saem com uma infeção nosocomial” (qualquer tipo de infeção adquirida após a entrada do paciente num hospital ou após a sua alta quando essa infeção estiver diretamente relacionada com um procedimento hospitalar como, por exemplo, uma cirurgia).
Para Sílvia Ribeiro, "a aposta nesta área tem a ver com a necessidade de melhorar o reprocessamento em Portugal. A tendência mundial é ter centrais de esterilização até porque os custos são muito menores. Em Itália, por exemplo, embora os valores não sejam comparáveis com o nosso país, conseguiram reduzir os custos em 30 por cento, um valor que também esperamos alcançar".
Equipamentos de esterilização do Hospital de Faro em condições deficientes
Os problemas da infeção hospitalar não são de agora e há muito tempo que se coloca a questão da qualidade dos equipamentos existentes, muitos considerados obsoletos. É o que acontece no Hospital de Faro, denuncia o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP), dizendo que não é caso único.
Contactado pela RTP Online, Nuno Manjua, do SEP, diz que naquela unidade “há apenas dois equipamentos para esterilizar o material hospitalar, sendo que um tem mais de 15 anos e não está nas devidas condições. As máquinas são obrigadas a ter um registo para sabermos como correu todo o processo de lavagem. Não existindo, não conseguimos dar garantias a 100 por cento de que o material foi bem lavado. Se houver algum foco de infeção, mesmo que passe pelo processo de esterilização, que não é 100 por cento eficaz e pode desencadear infeções”.

Nuno Manjua acrescenta ainda que os dois esterilizadores estão constantemente a avariar, o que implica ficar sem um deles durante dois ou três dias. “O problema é que alguns dos materiais não são esterilizáveis num dos equipamentos, que faz a operação a temperaturas mais baixas. Se já são insuficientes os equipamentos existentes, quando um avaria ficamos a meio gás, tal como aconteceu no fim de semana passado”.
O sindicalista alerta ainda para o que diz ser ridículo. “Há um equipamento novo há mais de dois anos no Hospital que não é utilizado porque a sala de esterilização necessita de obras de ampliação, o que não faz qualquer sentido. Portanto, está lá inutilizado e nem sequer se substitui pelo que já está obsoleto”, adianta o mesmo responsável.
Centro Hospitalar do Algarve desdramatiza a situação
Contactado pela RTP Online, Pedro Nunes, presidente do Centro Hospitalar do Algarve (CHA), desdramatizou a situação dizendo que os equipamentos estão a funcionar a 100 por cento. Reconhece que “avariam com facilidade” mas nunca se pôs em causa o atendimento e a segurança prestada aos utentes.
“Sei que o equipamento novo está lá desde que eu vim, não o conheço e não foi instalado porque as obras custam dinheiro e, nestes últimos dois anos, fez-se a reestruturação dos serviços de urgência dos hospitais de Faro e Portimão, que chegam a ter mil atendimentos diários, e onde não existe uma única cama nos corredores”.
O antigo bastonário da Ordem dos Médicos referiu ainda que há dois anos e meio, quando foi nomeado responsável do CHA, encontrou uma dívida de 90 milhões de euros (atualmente 30 milhões) e que, por isso, o plano de investimentos teve outras prioridades, como a área de nefrologia, gastrenterologia e cuidados intensivos.
Se tudo correr como o previsto, as obras para alargar a área de esterilização só deverão acontecer no próximo ano. Ainda assim, este responsável diz que não há quaisquer motivos para alaridos.
Quatro milhões de europeus contraem infeções associadas aos cuidados de saúde
Quanto à existência do novo Cenes, que Pedro Nunes desconhecia, “acha muito bem que tenha sido criado, desde que esteja certificado. Já está na altura de nós deixarmos de ser roubados”.
Há poucas estatísticas em Portugal sobre a temática das infeções hospitalares e as que há já têm muitos anos. Contudo, e de acordo com uma tese de doutoramento a que RTP Online teve acesso, sobre o controlo de qualidade dos dispositivos médicos reutilizáveis em Portugal, “de acordo com a DGS, estudos internacionais revelam que cerca de trinta por cento das infeções associadas aos cuidados de saúde são evitáveis”.
“Anualmente, cerca de quatro milhões de indivíduos europeus contraem infecções associadas aos cuidados de saúde (IACS) sendo que trinta sete mil perecem. Os dias de internamento prolongam-se, em média, por quarto dias totalizando uma média anual de dezasseis milhões de dias, que se traduz em sete biliões de euros em custos hospitalares”, adianta a mesma investigação da autoria de Vânia Tomé de Carvalho, orientada por Adalberto Campos Fernandes, que foi durante cinco anos presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de Lisboa Central.
A maior novidade é a operacionalização de um equipamento avançado de descontaminação de material hospitalar. Este equipamento (túnel de lavagem e desinfeção de contentores, carros hospitalares e outros dispositivos de transporte em unidades de saúde) reforça assim o seu posicionamento no setor. A certificação será obtida até final do ano.
O SAMS, prestação integrada de cuidados de saúde dos bancários, é o primeiro parceiro a participar neste projeto, com vista à otimização do seu desempenho e ao atual quadro regulamentar no controlo de infeção.
Para Sílvia Ribeiro, gestora operacional do Cenes, a maioria dos serviços de reprocessamento do país são muito antigos e não há verbas para os recondicionar. “Se há uma área onde entram os dispositivos contaminados e onde se faz a lavagem dos mesmos e a seguir não se faz a separação para a área seguinte, com controle ambiental, pode-se depois contaminar a área onde estamos a tratar já os dispositivos, supostamente, limpos e descontaminados. Corremos um risco desnecessário”, adianta a responsável.Infeções devem-se a dispositivos contaminados ou mal reprocessados
Segundo a gestora operacional do Cenes, “a contaminação existe mas não está contabilizada e grande parte das infeções é adquirida através do uso de dispositivos médicos contaminados ou mal reprocessados. Por exemplo, segundo um estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre o assunto, a taxa europeia é de sete por cento, ou seja, sete pessoas em cada 100 que dão entrada num hospital, saem com uma infeção nosocomial” (qualquer tipo de infeção adquirida após a entrada do paciente num hospital ou após a sua alta quando essa infeção estiver diretamente relacionada com um procedimento hospitalar como, por exemplo, uma cirurgia).
Para Sílvia Ribeiro, "a aposta nesta área tem a ver com a necessidade de melhorar o reprocessamento em Portugal. A tendência mundial é ter centrais de esterilização até porque os custos são muito menores. Em Itália, por exemplo, embora os valores não sejam comparáveis com o nosso país, conseguiram reduzir os custos em 30 por cento, um valor que também esperamos alcançar".
Equipamentos de esterilização do Hospital de Faro em condições deficientes
Os problemas da infeção hospitalar não são de agora e há muito tempo que se coloca a questão da qualidade dos equipamentos existentes, muitos considerados obsoletos. É o que acontece no Hospital de Faro, denuncia o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP), dizendo que não é caso único.
Contactado pela RTP Online, Nuno Manjua, do SEP, diz que naquela unidade “há apenas dois equipamentos para esterilizar o material hospitalar, sendo que um tem mais de 15 anos e não está nas devidas condições. As máquinas são obrigadas a ter um registo para sabermos como correu todo o processo de lavagem. Não existindo, não conseguimos dar garantias a 100 por cento de que o material foi bem lavado. Se houver algum foco de infeção, mesmo que passe pelo processo de esterilização, que não é 100 por cento eficaz e pode desencadear infeções”.
Nuno Manjua acrescenta ainda que os dois esterilizadores estão constantemente a avariar, o que implica ficar sem um deles durante dois ou três dias. “O problema é que alguns dos materiais não são esterilizáveis num dos equipamentos, que faz a operação a temperaturas mais baixas. Se já são insuficientes os equipamentos existentes, quando um avaria ficamos a meio gás, tal como aconteceu no fim de semana passado”.
O sindicalista alerta ainda para o que diz ser ridículo. “Há um equipamento novo há mais de dois anos no Hospital que não é utilizado porque a sala de esterilização necessita de obras de ampliação, o que não faz qualquer sentido. Portanto, está lá inutilizado e nem sequer se substitui pelo que já está obsoleto”, adianta o mesmo responsável.
Centro Hospitalar do Algarve desdramatiza a situação
Contactado pela RTP Online, Pedro Nunes, presidente do Centro Hospitalar do Algarve (CHA), desdramatizou a situação dizendo que os equipamentos estão a funcionar a 100 por cento. Reconhece que “avariam com facilidade” mas nunca se pôs em causa o atendimento e a segurança prestada aos utentes.
“Sei que o equipamento novo está lá desde que eu vim, não o conheço e não foi instalado porque as obras custam dinheiro e, nestes últimos dois anos, fez-se a reestruturação dos serviços de urgência dos hospitais de Faro e Portimão, que chegam a ter mil atendimentos diários, e onde não existe uma única cama nos corredores”.
O antigo bastonário da Ordem dos Médicos referiu ainda que há dois anos e meio, quando foi nomeado responsável do CHA, encontrou uma dívida de 90 milhões de euros (atualmente 30 milhões) e que, por isso, o plano de investimentos teve outras prioridades, como a área de nefrologia, gastrenterologia e cuidados intensivos.
Se tudo correr como o previsto, as obras para alargar a área de esterilização só deverão acontecer no próximo ano. Ainda assim, este responsável diz que não há quaisquer motivos para alaridos.
Quatro milhões de europeus contraem infeções associadas aos cuidados de saúde
Quanto à existência do novo Cenes, que Pedro Nunes desconhecia, “acha muito bem que tenha sido criado, desde que esteja certificado. Já está na altura de nós deixarmos de ser roubados”.
Há poucas estatísticas em Portugal sobre a temática das infeções hospitalares e as que há já têm muitos anos. Contudo, e de acordo com uma tese de doutoramento a que RTP Online teve acesso, sobre o controlo de qualidade dos dispositivos médicos reutilizáveis em Portugal, “de acordo com a DGS, estudos internacionais revelam que cerca de trinta por cento das infeções associadas aos cuidados de saúde são evitáveis”.
“Anualmente, cerca de quatro milhões de indivíduos europeus contraem infecções associadas aos cuidados de saúde (IACS) sendo que trinta sete mil perecem. Os dias de internamento prolongam-se, em média, por quarto dias totalizando uma média anual de dezasseis milhões de dias, que se traduz em sete biliões de euros em custos hospitalares”, adianta a mesma investigação da autoria de Vânia Tomé de Carvalho, orientada por Adalberto Campos Fernandes, que foi durante cinco anos presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de Lisboa Central.