Centro de Estudos considera "intolerável" separação de crianças em escola
Lisboa, 17 Mar (Lusa) - O vice-presidente do Centro de Estudos Ciganos, Bruno Gonçalves, classificou hoje de "intolerável" a separação de uma turma de meninos ciganos na escola de Barqueiros, em Barcelos.
À margem da apresentação do relatório da comissão parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura das audições sobre portugueses ciganos, Bruno Gonçalves, que é também mediador sócio-cultural, admitiu apenas a separação entre as várias etnias por "um pequeno espaço de tempo para fazer o diagnóstico da situação das crianças".
Em causa está o facto de uma turma de alunos ciganos daquele estabelecimento estar em aulas separadas num contentor, uma medida que a direcção da escola justificou com o facto de se tratar de jovens que não frequentavam o ensino.
Por isso, foi nomeada uma equipa de professores para os acompanhar, justificou a direcção escolar.
No entanto, Bruno Gonçalves considera que "separar as turmas é intolerável: parece que estão a brincar connosco. Não estamos no século XIX, estamos no século XXI".
O relatório parlamentar, entre outras sugestões, aponta a importância do trabalho de mediadores, nomeadamente em escolas, mas Bruno Gonçalves critica o atraso, em 10 anos, da homologação da carreira de mediador, acrescentando ainda não haver data para a sua concretização.
Segundo o responsável, deverão existir entre 60 a 70 mediadores formados, que estão desempregados, uma vez que quando trabalhavam tinham "contratos muito precários, sem direito a subsídio de desemprego e férias.
Por outro lado, esta situação era agravada com o facto dos mediadores entrarem nas escolas "a meio do ano lectivo. Não fazemos milagres, mas ajudamos a minimizar os problemas".
Existe pouca vontade política, defendeu Bruno Gonçalves, embora recordando os "os milhares de contos investidos pelo Estado na formação".
Na sua experiência passou por quatro escolas e uma Organização Não Governamental (ONG).
Numa escola de Coimbra, Bruno Gonçalves orgulha-se de ter contribuído para reduzir o absentismo escolar.
"O mediador é uma ponte: fala com os pais, vai buscar as crianças para irem à escola e descodifica a linguagem junto dos professores, que não têm formação e desconhecem a cultura cigana", contou.
Defendendo a educação das meninas ciganas, Bruno Gonçalves admite que a comunidade não gosta de ver as jovens casadas fora da etnia pelo que é necessário a introdução de mediadores.
Em muitos casos, como a Segurança Social ou os hospitais D. Estefânia e de Beja, os mediadores têm tido um sucesso assinalável, salientou Bruno Gonçalves, que reclama novas medidas.
"O ACIDI (Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural) tem um novo projecto de mediadores municipais ciganos a implementar em 10 cidades portuguesas. Mas o que eu pergunto é para quando?" - questionou Bruno Gonçalves.