Chefe das Finanças reconhece que integrou "pelouro" que geria o saco azul

Felgueiras, 28Mar (Lusa) - O actual chefe da Repartição de Finanças de Felgueiras, António Ferreira Dinis, admitiu hoje ao tribunal desta cidade que integrou o chamado "pelouro das finanças" que geriu as despesas da campanha eleitoral de Fátima Felgueiras em 1997.

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Esse pelouro geria uma conta bancária, que viria a ficar conhecida como "saco azul", onde eram depositadas verbas atribuídas por empresários locais, alegadamente em troca do licenciamento, pela autarquia, de pavilhões industriais irregulares.

Neste processo, a presidente da autarquia responde pela alegada prática de 23 crimes e por ter lesado o nunicípio, num total de 785.349 euros.

Falando como testemunha arrolada pela autarca, no âmbito do processo saco azul, António Ferreira Dinis assegurou que numa reunião da comissão política concelhia do PS, em 1997, na qual participou Fátima Felgueiras, se ofereceu voluntariamente para integrar o referido pelouro.

Desse grupo - garantiu ao tribunal - vieram ainda a fazer parte o antigo assessor da presidente, Horácio Costa, e o empresário local, Joaquim Freitas, ambos arguidos neste processo.

A testemunha garante que participou numa reunião para elaboração de uma lista de empresários e particulares a quem o partido iria pedir dinheiro para suportar as despesas da campanha e do Futebol Clube de Felgueiras e do jornal local próximo do PS, "O Sovela".

Ferreira Dinis garantiu que foi afastado do pelouro e que, por isso, não participou na sua gestão nem fez quaisquer contactos com empresários.

Disse ainda que Fátima Felgueiras não acompanhava de perto as questões financeiras da campanha, preocupando-se apenas com matérias de natureza política e estratégica.

A versão da testemunha foi de seguida rebatida pelo arguido Horácio Costa, o qual negou que António Ferreira Dinis tenha feito parte do pelouro das finanças pelo que não estava em condições de dizer que a presidente não acompanhava as contas do "saco azul".

Esta sessão ficou também marcada pelo depoimento da testemunha, Anabela Gonçalves, técnica superior da autarquia responsável pelas relações internacionais, a propósito das viagens a França e Cabo Verde que a câmara terá pago a familiares de Fátima Felgueiras.

A testemunha confirmou que a autarquia pagou uma deslocação a França do filho da autarca, João Felgueiras, no âmbito de uma visita, em 1997, a uma cidade geminada com Felgueiras.

Confirmou também que foi paga uma viagem a Cabo Verde a Sandra Felgueiras, filha da autarca, e ao seu irmão, João, também no âmbito de um acordo de geminação com a cidade de S. Vicente.

A técnica afirmou que "era normal familiares dos eleitos locais acompanharem as viagens ao estrangeiro no âmbito de geminações".

O procurador Pinto Bronze exibiu à testemunha três bilhetes de viagens de avião, alegadamente realizadas entre Porto e Lisboa por Fátima Felgueiras e os seus dois filhos antes de embarcarem para Cabo Verde.

A técnica disse que nunca tinha visto os bilhetes e afirmou que tinha ideia da presidente lhe ter dito que essa deslocação tinha sido feita de carro, versão que foi reforçada pelo advogado da autarca, Artur Marques.

Após requerimento da defesa, o tribunal decidiu solicitar à TAP que informe se essas viagens foram ou não realizadas.

A próxima sessão está marcada para 2 de Abril, com audição de mais testemunhas arroladas por Fátima Felgueiras, nomeadamente dois autarcas que recentemente se afastaram dos partidos pelos quais foram eleitos: Carlos Zeferino (PS), de Lagares, e Augusto Faria (PSD) de Idães.


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