Cheias de hoje "piores que as de 1967" - habitantes de Sacavém
Sacavém, Loures, 19 Fev (Lusa) - Moradores e comerciantes da Praça da República, no centro de Sacavém, são unânimes em considerar as cheias da madrugada e manhã de hoje "piores que as de 1967".
Fernando Sardinha, 55 anos, há 41 no Café Jardim (primeiro como empregado, depois como dono), passou por todas as cheias na Freguesia: "Com água pelos joelhos, devem ter sido mais de 50", declara.
"A única diferença entre estas cheias e as de 1967 é que, na altura, morreu muita gente", considera, enquanto recolhe os detritos que enchem o seu estabelecimento.
Ao mesmo tempo que os filhos reúnem garrafas e outros materiais espalhados pelas águas, afirma, cabisbaixo, que tem seguro mas que este "não cobre tudo".
"Vivemos disto, estamos `feitos ao bife`", sintetiza, antes de explicar que muito do seu prejuízo virá das franquias para accionar o seguro e dos dias em que o Café estará encerrado.
"Se ao menos houvesse apoios do Estado ou da Câmara...", deixa no ar.
Para as famílias Neto e Nascimento, residentes nos rés-do-chãos esquerdo e direito do número 45 da Rua José Luís Morais, o dia de hoje marca a perda de muita da sua vida.
Ambos os apartamentos ficaram totalmente inundados e a água que os enche permanecia, mais de oito horas depois do pico da inundação (pelas 07:30), por escoar.
"Nem entrar em casa consigo, vou ter de começar a vida do zero", afirma um dos membros da família Nascimento, enquanto olhava para um parente descalço e com os pés enlameados até ao tornozelo.
Ambas as famílias serão provisoriamente alojadas pela Junta de Freguesia de Sacavém mas quanto aos bens materiais que perderam, questionam: "Se nós pagamos as taxas de saneamento, quem se responsabiliza?"
O presidente da Junta de Freguesia de Sacavém, Fernando Marcos, defende que "as pessoas têm de ter seguro" e declara que " a Junta de Freguesia não tem orçamento para ajudar as pessoas".
Instado a referir se a Junta poderia ter feito algo para impedir os estragos, Fernando Marcos refere que "não teria sido possível resolver com antecedência os problemas de hoje" e lembra que a Junta avisou, na sexta-feira, que iria chover durante o fim-de-semana.
Fernando Sardinha aponta como solução para as cheias que regularmente fustigam a Baixa de Sacavém a construção de uma bacia de retenção na Ribeira do Prior Velho (de onde vem a maior parte das águas que enchem a baixa de Sacavém nestas alturas), hipótese avançada pela autarquia quando das inundações de Setembro, opinião corroborada por Fernando Marcos.
"Não resolveria todos os problemas mas resolveria alguns", diz Fernando Sardinha.
Já Paulo Nascimento (sem relação com a família anterior), 45 anos, criado em Sacavém, defende que o problema nasce da "impermeabilização dos solos".
Enquanto ajuda várias pessoas a retirar lama e a escoar a água do café da irmã, afirma que "cada vez se constrói mais e se impermeabiliza mais" e acrescenta: "A minha irmã foi ver se o seguro cobre isto mas eu creio que não".
A Praça da República está coberta de lama, dificultando a passagem de pessoas e estando interdita a viaturas.
Fonte nos Bombeiros Voluntários de Sacavém afirmou à Lusa que a limpeza da Praça demorará "dois ou três dias".
No entanto, tal não impediu que, ao longo da tarde, largas dezenas de populares se concentrassem junto a Praça para averiguar o progresso das operações de limpeza e para comentar o sucedido.
Um desses populares, Justino Martins, residente em Sacavém há 45 anos, conta a outros moradores como abriu a janela de manhã e viu os carros cobertos de água, facto comprovado por meia dúzia de viaturas com vestígios de entulho até ao tecto, em frente ao grupo de pessoas.
"Foi a maior cheia que alguma vez vi", sintetiza.