Cientistas norte-americanos suspeitam que febre da carraça pode causar doenças degenerativas
Cientistas norte-americanos suspeitam que a febre da carraça pode originar doenças degenerativas-neurológicas, como a esclerose múltipla, foi revelado num seminário em Bragança, o distrito português com maior incidência desta febre.
De acordo com o delegado distrital de saúde, Victor Lourenço, as suspei tas norte-americanas "são ainda hipóteses" que carecem de comprovação, mas que e stão a merecer a atenção da comunidade científica.
Os pressupostos dos que defendem esta tese baseiam-se nas afinidades de stas patologias com o sistema nervoso central.
Segundo Vítor Lourenço, nos casos mais graves, a bactéria que é transmi tida pela mordedura do parasita e que provoca a febre escaro-nodular, vulgarment e conhecida pela febre da carraça, afecta o sistema nervoso central e a parte pu lmonar.
As doenças degenerativas-neurológicas, como a esclerose múltipla ou esc lerose em placas e as esclerodermias (lesões na pele), resultam de uma deteriora ção do sistema nervoso central, cujas causas permanecem desconhecidas para a med icina.
Investigadores norte-americanos acreditam que possa haver alguma intera cção entre os danos causados pela febre da carraça e o desenvolvimento destas pa tologias que levam à paralisia e atrofia muscular.
O delegado de saúde disse ter referido esta suspeita norte-americana pa ra alertar "as instituições a unirem-se no combate à febre da carraça", que tem a maior prevalência nacional no Nordeste Transmontano.
A incidência desta doença no Distrito de Bragança é oito vezes superior à média nacional e dez vezes superior em relação à região norte, com 80 casos p or cem mil habitantes, enquanto a média nacional é de 10 em 100 mil habitantes.
Esta doença resulta da mordedura da carraça, que transmite uma bactéria responsável pelo aparecimento de escaras cutâneas, febres altas, cefaleias e do res musculares.
Pode ainda provocar atrofia do sistema nervoso central e da parte pulmo nar e, em casos extremos, a morte, se o organismo da vítima estiver debilitado p or outras questões de saúde.
Em mais dez por cento dos casos, obriga a internamento hospitalar.
Segundo um estudo divulgado no seminário sobre o tema que decorre hoje em Bragança, o número de casos diminuiu na última década.
A diminuição da prevalência no grupo etário entre um e 15 anos, que con stituíam metade dos doentes em 1996 e agora correspondem a um quarto, foi aponta da como uma evolução positiva.
A coordenadora da sub-região de saúde atribui esta melhoria também à al teração dos estilos de vida, com as brincadeiras ao ar livre substituídas por co mputadores ou actividades em recintos fechados.
Berta Nunes admitiu, porém, que "não tem sido feita muita coisa em term os de campanhas de prevenção e investigação" e concordou com a necessidade defen dida pelo delegado de saúde de um plano de combate à doença.
Aquela responsável espera que este seminário seja o início de uma maior articulação entre as diversas entidades ligadas à problemática, nomeadamente a medicina veterinária e humana.
O Instituto Ricardo Jorge de Lisboa está, por seu turno, a desenvolver um estudo sobre estes parasitas na região, que estão a provocar novas doenças no s animais, atribuídas pelos investigadores também às alterações climatéricas, e que podem trazer novas preocupações em termos de saúde humana.