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Cientistas unem-se no estudo de maior canhão submarino europeu

Cientistas unem-se no estudo de maior canhão submarino europeu

O canhão submarino da Nazaré, o maior da Europa, começou a ser explorado de uma forma multidisciplinar pela primeira vez este Verão, reunindo cientistas e militares portuguesas no levantamento de toda a área.

Agência LUSA /

O canhão submarino, uma espécie de vale no fundo do mar que se prolonga por mais de 170 quilómetros desde a planície abissal do Atlântico até à praia da Nazaré, está ainda muito por estudar, como confessou Anabela Oliveira, geóloga marinha do Instituto Hidrográfico.

"Esta é uma oportunidade de ouro", afirmou a investigadora, que já anda nestas pesquisas há muitos anos mas só agora pode estudar, de uma forma multifacetada, o fenómeno geológico que é este vale.

Coordenado pelo Instituto Hidrográfico (IH), este projecto prevê o levantamento minucioso do fundo do mar, com identificação de correntes e sedimentos para tentar ajudar a perceber um dos mistérios do mar português.

Alguns jornalistas foram convidados a acompanhar a investigação feita pelos cientistas a 20 quilómetros da costa decorrem no navio oceanográfico D.Carlos I, com colocação de sondas e recolha de várias amostras de água e sedimentos.

Estes trabalhos estão integrados no projecto Hermes, financiado pela União Europeia, está orçado em 15 milhões de euros e prevê trabalhos de três dezenas de equipas em vários locais definidos da costa do continente.

O objectivo é estudar locais com características únicas, como o canhão da Nazaré, corais, bancos de pesca ou solos instáveis, abrangendo as costas da Noruega, Irlanda, Escócia, Portugal, Espanha, França, Itália, Turquia, Chipre, Sérvia, Grécia e Rússia.

"Queremos perceber bem os ecossistemas marinhos, nas suas diversas vertentes", explicou João Vitorino, chefe desta missão de investigadores.

No final dos trabalhos e relatórios, que devem terminar em 2009, os resultados serão disponibilizados gratuitamente à comunidade científica para posteriores investigações.

Quinta-feira, o D.Carlos termina a sua parte da missão, cedendo depois a vez ao navio inglês Discovery, que vai fazer o levantamento biológico do mar da Nazaré, estudando a fauna e flora da área de influência da fossa.

Este canhão pode ser uma das razões para o elevado número de pescado capturado ao largo de Peniche e Nazaré já que os peixes de águas profundas chegam mais facilmente ao litoral, ajudando a tradição pesqueira daqueles dois portos.

Trata-se de "uma depressão profunda junto de uma zona mais superficial", o que permite avaliar as trocas directas entre vários ecossistemas marinhos diferenciados.

Apesar de ter sido sujeito a vários estudos ao longo das últimas décadas, o canhão submarino da Nazaré permanece como um mistério para os investigadores, já que tem origem numa falha tectónica que não é visível para a superfície.

Além disso, os canhões normalmente estão associados a grandes rios, servindo de vazadouros dos seus sedimentos o que também não sucede.

à superfície, a fossa imensa da Nazaré termina no pequeno rio Alcôa e colide depois com a Serra dos Candeeiros e com o maciço calcário estremenho, o que tem levantado várias teorias.

"Há quem defenda que este canhão teve origem no rio Mondego que depois se desviou para norte", explicou Ana Santos, engenheira geóloga e sub-tenente do D.Carlos I.

Depois, o canhão funciona como uma gigantesco aspirador de areia, que engole o areal da costa portuguesa, principalmente na costa a norte da Nazaré.

"Há tempestades de Inverno que provocam avalanches de sedimentos pelo canhão abaixo", explicou João Vitorino, salientando que o IH possui três estações permanentes de observação das correntes, salinidade, marés e movimento de areias no fundo do mar.

O D.Carlos I português foi adquirido aos Estados Unidos e a Marinha actualizou-o com uma série de equipamentos, entre os quais um sonar multifeixes, que permite cartografar grandes extensões do fundo do mar.

Este equipamento constitui o topo de gama dos sonares e é único em Portugal permitindo cartografar a plataforma continental portuguesa, um instrumento essencial para identificar riquezas naturais.

Esta cartografia do fundo mar é muito importante para identificar as potencialidades da plataforma continental e prevenir eventuais usos abusivos dos pesqueiros, como alertou Anabela Oliveira.

"Cada vez mais os barcos de pesca vão mais fundo e temos de estudar esses ecossistemas antes que lá cheguem os arrastões e destruam tudo", criticou esta investigadora, de 39 anos, visivelmente indignada com os "abusos" de alguns navios.

Mais político na resposta foi João Vitorino, que defende a "exploração sustentada" do mar, cabendo a estas equipas de investigação dar os pareceres técnicos aos autores das leis de gestão destes recursos naturais.

Durante a visita de jornalistas ao barco, foi descida uma sonda por duas ocasiões para identificar e estudar pontos definidos no mar, que depois irão servir de base a estudos posteriores sobre toda a área envolvente do canhão.

As areias e os sedimentos são recolhidos para análises posteriores e a água será estudada em conjunto com a equipa de investigação da área da biologia, que se irá seguir.

Ao longo dos últimos dias, a equipa de investigadores foi surpreendida com a força das correntes no fundo do mar e com o tipo de sedimentos encontrados em alguns locais.

No subsolo da zona envolvente do canhão, deverá estar a maior reserva de hidrocarbnonetos da Europa, embora os estudos já realizados não indiquem viabilidade de exploração.

"É uma área ideal para hidrocarbonetos porque temos uma bacia de sedimentos que pode prender grandes quantidades de petróleo", explicou Anabela Oliveira.

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