Comoro, o bairro "da GNR", um grande palco de conflitos

A zona de actuação exclusiva da GNR em Timor-Leste, o bairro de Comoro, na parte ocidental de Díli, é uma das mais populosas da cidade e mais problemáticas em termos de segurança.

Agência LUSA /

à semelhança do que aconteceu noutras ocasiões de conflito, nas últimas semanas, o bairro de Comoro tem sido referenciado como um dos locais da capital timorense onde ocorrem mais actos de violência, o que se nota nas dezenas de casas queimadas, no mercado em ruínas e nas muitas barreiras instaladas por populares.

Nenhum exemplo é tão forte como o caso do Bazar de Comoro, o mercado, cujo funcionamento foi consolidado em 2001, quando as autoridades de Díli transferiram para aquele espaço os vendedores do antigo Mercado Municipal e os que exerciam a sua actividade ao longo da estrada principal.

Desde então, o mercado já foi totalmente destruído em duas ocasiões, primeiro a 04 de Dezembro de 2002, quando ocorreram confrontos em Díli de que resultaram dois mortos, e durante a onda de saques e destruição que marcou as últimas duas semanas na capital de Timor-Leste.

Os sinais da violência vêem-se nos ferros retorcidos, nos plásticos azuis e cinzentos queimados, no amontoado de paus de bambu parcialmente carbonizados e até num monte de malaguetas, o único sinal de que ali se vendia, há menos de um mês, aquela especiaria, bem como frutas e legumes.

No grande largo do mercado, vários timorenses, que garantem ser vendedores, sentam-se à conversa com a reportagem da Agência Lusa, recordando os sucessivos confrontos na zona, a destruição de casas e as mortes que garantem ter ocorrido no bairro, sem quantificarem.

Caetano, 25 anos, que diz falar português "devagar", mas que prefere a segurança do tétum, explica que os confrontos foram entre "bandos organizados" e que "isso" da divisão regional, entre os ditos "lorosae" (do leste) e "loromonu" (do ocidente), é "mentira".

"O povo de Timor-Leste é todo igual. Só há um", afirma, explicando que está à espera que a situação estabilize para recomeçar a vender.

A conversa rapidamente salta para a chegada iminente da GNR, que no âmbito de um acordo estabelecido esta semana, após mal- entendidos com a força militar australiana presente em Díli, actuará exclusivamente no bairro de Comoro numa primeira fase, depois da chegada hoje, a Díli, do seu equipamento.

"Diak, GNR, diak", afirmam, em coro, os cinco ou seis timorenses à conversa com a Lusa em Comoro, usando a palavra tétum "bom" para exprimir o seu contentamento com a presença dos efectivos portugueses no bairro.

"A Austrália esteve aqui e não fez nada. Deixavam queimar as casas à frente deles, matar pessoas (Ó) e não faziam nada. Um jovem a levar uma catanada e eles ali. Parece que estão a brincar com as armas", garante.

A mesma opinião é partilhada pelo mais velho do grupo, Manuel Alves, 47 anos.

"Não confiamos nos australianos. A Austrália só quer a nossa riqueza, o nosso petróleo", afirma, gesticulando.

"Deviam mandar mais GNR. Cento e vinte é pouco", acrescenta José Feles, 25 anos.

"E têm de entregar a segurança de todo o Díli à GNR, porque os australianos brincam", acrescenta.

Quando se pergunta que tipo de acção esperam da GNR e como reagem aos que criticam a forma de actuação dos portugueses, os timorenses quase se atropelam para responder.

"Têm que ser duros. A mentalidade da juventude timorense é complicada. Têm que ser fortes", garante Caetano.

Ruben Carvalho, administrador do distrito de Díli, estima que antes dos confrontos viviam no bairro cerca de 25 mil pessoas, a maioria dedicada ao comércio, à agricultura de subsistência ou à recolha de pedra para a construção civil no leito quase seco da Ribeira de Comoro.

Hoje, segundo estimativa de Ruben Carvalho, permanecem na zona menos de 7.500 (30 por cento dos habitantes), tendo a maioria fugido para fora de Díli ou para a relativa segurança dos campos de deslocados.

"Estamos ainda a contabilizar os danos, a avaliar o número de casas queimadas. Esperemos que a GNR ajude as pessoas a voltar para casa. Estamos esperançados que sim", afirmou.

O grande marco arquitectónico do bairro é a ponte de Comoro - a antiga, construída pelos portugueses, foi substituída durante a administração indonésia por uma de ferro, por onde passa a principal via de saída para ocidente e, em particular, para o aeroporto Presidente Nicolau Lobato.

A metade ocidental do que é hoje a confusa zona do bairro de Comoro - com os limites por precisar e a mudarem constantemente - era, no tempo da colonização portuguesa, dominada pela floresta e por uma plantação de tabaco do empresário Manuel Carrascalão.

Os maços de Tata, a marca do tabaco sem filtro ali produzido, custavam na altura cerca de três escudos.

Durante a ocupação indonésia, a componente residencial e comercial da zona cresceu significativamente, e ali moram sobretudo funcionários da administração, militares e polícias.

Hoje, na zona do bairro de Comoro há um pouco de tudo, desde as principais estruturas logísticas da cidade - supermercados, armazéns e empresas de construção - às residências de algumas das mais conhecidas figuras timorenses, como por exemplo membros das famílias Alkatiri e Carrascalão.

É também em Comoro que estão a Academia de Polícia - onde hoje se perfilavam recrutas -, a Igreja Pentecostes, o Colégio D. Bosco (onde estão milhares de deslocados) e a sede do Comité Central da FRETILIN, o partido no poder.

Na "fronteira" de Comoro, em Campo Alor, ergue-se a Mesquita de Díli.

Logo à entrada do mercado de Comoro, está a sede de uma empresa recém-criada, com os vidros partidos e sinais de fumo nas paredes.

A "olhar" para as bancas destruídas, na parede lateral do edifício e quase a desafiar quem passa, destaca-se um cartaz gigante com o nome da firma: "Oportunidade Timor Lorosae".

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