Comparticipação na obesidade restringe acesso e exclui cuidados primários, criticam os médicos

Comparticipação na obesidade restringe acesso e exclui cuidados primários, criticam os médicos

Os médicos de família lamentaram hoje que o Governo dê "uma no cravo e outra na ferradura" na comparticipação dos medicamentos para tratar a obesidade, ao restringir o acesso, excluir os cuidados primários e entupir consultas hospitalares.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
AFP

"Mais uma vez, isto é dar uma no cravo e outra na ferradura. Queremos fingir que estamos a acompanhar estes doentes e que vamos acompanhar os doentes com obesidade em Portugal e, depois, criamos aqui uma limitação gigantesca no acesso", considerou o presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), Nuno Jacinto.

Em declarações à Lusa a propósito da portaria publicada hoje que define a comparticipação dos medicamentos para tratar a obesidade, Nuno Jacinto lembrou que muitas Unidades Locais de Saúde (ULS) têm falta de endocrinologistas e de médicos de medicina interna, duas das especialidades autorizadas a prescrever esta medicação.

"Nada [temos] contra a prescrição por estas especialidades, mas temos diversas ULS neste país que não têm endocrinologistas ou que têm um acesso muito difícil", afirmou, acrescentando: "e com a medicina interna temos enormes dificuldades de acesso também".

A portaria hoje publicada define que o estado passará, a partir de fevereiro do próximo ano, a comparticipar em 15% esta medicação, desde que prescrita por endocrinologistas, médicos de medicina interna ou pediatras.

O diploma prevê ainda que, para ter acesso a esta medicação, os utentes tenham de ser seguidos no Núcleo de Cuidados Hospitalares não Cirúrgicos da Equipa Multidisciplinar de Obesidade (EMO) da respetiva ULS, integrados num modelo de abordagem multidisciplinar que inclua planeamento de atividade física e intervenção nutricional e psicológica.

"Dizer às pessoas que só podem ter acesso à comparticipação nestas consultas é a mesma coisa que dizer a muitos doentes que não vão ter acesso à medicação comparticipada para a obesidade", considera Nuno Jacinto, para quem não faz sentido excluir os cuidados primários de saúde, e os médicos de família, da possibilidade de prescrever estes fármacos.

"Vamos ter que referenciar todos os obesos com indicação terapêutica para esta consulta hospitalar, ou seja, vamos entupir estas consultas com milhares de utentes. É o que vai acontecer", afirmou.

O responsável lamentou ainda que, com esta opção, se esteja a dizer que aos médicos de família que têm competência para acompanhar o doente na diabetes, na dislipidemia ou na hipertensão, mas não na obesidade.

"Não somos capazes de dizer claramente que não temos dinheiro para tratar toda a gente. É o que isto significa. Não há dinheiro para comparticipar a medicação para todos os obesos e isto tem que ser assumido de forma clara", acrescentou.

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