Composições do Metro Sul do Tejo já circulam entre Corroios e Cova da Piedade
A primeira coisa que salta à vista ao entrar na carruagem é o olhar do maquinista: Ana Bacelar, uma das três condutoras do Metro Sul do Tejo, olha sorridente para os viajantes que a vão acompanhar em mais uma viagem entre Corroios e a Cova da Piedade.
Com 21 anos, é a mais nova do grupo de 25 maquinistas escolhidos para conduzir os 24 comboios ligeiros que entram em circulação a partir de terça-feira. No olhar transparece a motivação do primeiro emprego, numa actividade invulgar e rara para uma jovem, ainda por cima mulher.
Enquanto percorre os cerca de cinco quilómetros de linha que separam o Parque de Maquinaria e Oficinas de Corroios do actual terminal da primeira linha do Metro, na Cova da Piedade, Ana Bacelar conta a sua história.
Em Dezembro decidiu aventurar-se e concorrer a esta profissão tendencialmente masculina mas à qual diz ter-se adaptado "muito bem". "Até acho melhor e mais fácil trabalhar maioritariamente com homens do que com mulheres" exclama soltando uma gargalhada, enquanto segue, atenta, a rota traçada, que tem de cumprir em 11 minutos.
A viagem decorre, agradável, calma e confortável, enquanto o olhar tenta captar tudo o que de novo se lhe apresenta, mas o que mais dá nas vistas é a conhecida "arte urbana". As obras ainda não terminaram, mas os graffitis já "embelezam" os muros que separam as linhas do Metro das zonas residenciais.
"Ainda há dias estivemos a limpar um graffiti de uma das paragens do metropolitano e que foi feito no curto espaço de duas horas" explica a responsável de gestão do projecto, Cristina Vasconcelos. "Mas em relação a estes não podemos fazer nada, pois estão feitos no que é considerado espaços exteriores, da responsabilidade das Câmaras Municipais", acrescenta.
Graffitis à parte, e com o privilégio de viajar quase sem ninguém na carruagem, consegue apreciar-se as cores dos novos veículos ecológicos (cinza e azul), o cheiro a novo ou as cores que vão ter todas as linhas do Metro Sul do Tejo quando a primeira fase da obra estiver concluída: amarelo verde e azul, estampadas por cima de todas as portas do comboio e criando uma perfeita estrela de três pontas.
Os primeiros cinco minutos da viagem decorrem com tranquilidade, bruscamente interrompida por uma travagem mais forte. Um autocarro da Transportes Sul do Tejo acaba de largar uma dezena de passageiros na paragem, que atravessam a linha do Metro sem sequer se certificarem de que está algum veículo a circular.
Este é um dos principais problemas referido por todos, nomeadamente as Câmara Municipais de Almada e Seixal, os moradores e até mesmo a concessionária, o facto das paragens dos autocarros estarem situadas, em alguns locais, precisamente em cima da linha do Metro e sem qualquer tipo de resguardo para os utentes.
"Se aliarmos isso ao facto das pessoas ainda não se terem inteirado do facto que teremos comboios a circular diariamente aqui, estão criadas situações de risco que poderiam perfeitamente ser evitadas", afirma o presidente da Metro Transportes do Sul, José Luís Brandão.
Nesse sentido Cristina Vasconcelos alerta para o facto de os comboios terem sempre prioridade em relação tanto a peões como a veículos, em qualquer parte do traçado.
Ainda que a inauguração formal decorra apenas segunda-feira, para os maquinistas e funcionários da concessionária, a Metro Transportes do Sul, a rotina de funcionamento decorre há uma semana.
Há precisamente sete dias que os comboios ligeiros são diariamente conduzidos entre Corroios e a Cova da Piedade, no seu trajecto normal e parando em todos os apeadeiros, para testar o bom funcionamento da maquinaria, da tecnologia, mas também do civismo das pessoas.
Percorrem diariamente o traçado de sete paragens a partir das 06:30 da manhã e com uma periodicidade de cinco em cinco minutos nas horas de ponta (entre as 07:00 e as 09:30 e entre as 17:00 e as 20:00) e de 10 em 10 minutos nos restantes horários.
Com apenas uma pequena diferença em relação ao que será a partir de dia 01 de Maio: os maquinistas circulam a maior parte do dia completamente sozinhos ou acompanhados apenas por membros da empresa concessionária.
Ana Bacelar não é excepção e há sete dias que segue à risca a rotina que a irá acompanhar nos próximos anos: conduzir comboios do Metro Sul do Tejo diariamente, em turnos rotativos semanalmente, consoante o horário que tenha de cumprir.
"Confesso que o facto de termos sempre uma parte do dia sempre livre é muito bom, visto que a nossa carga horária ronda as seis, sete horas. Se entrarmos às 6. 30, por exemplo, ao meio-dia estamos despachados", disse Ana Bacelar.
De acordo com o presidente da concessionária, José Luís Brandão, a preparação dos 25 maquinistas foi fácil, "visto que a equipa é jovem e sem vícios, pois não tinham qualquer experiência na condução deste tipo de veículos", uma situação que se tornou "vantajosa".
E assim, rapidamente, a composição chega ao primeiro destino, a Cova da Piedade, parando apenas o tempo suficiente para que Ana percorra alguns metros entre o início e o fim da carruagem, instalando-se na outra cabine do maquinista, o que lhe irá permitir fazer todo o trajecto de regresso ao Parque de Maquinaria e Oficinas de Corroios.
"O mais difícil do nosso trabalho é estarmos atentos às pessoas e veículos que circulam à nossa volta, porque de resto, é mais fácil conduzir este comboio que um carro. Tal como quando tiramos a carta de condução, o mais difícil foi apreender a teoria, porque, de resto, o sistema é todo ele mecanizado e simples de funcionar", revela a jovem maquinista à Lusa.
José Luís Brandão considera que neste momento estão acauteladas todas as possíveis situações para que qualquer viagem seja agradável e livre de perigo, ainda que "possa haver, de vez em quando, alguma surpresa, visto que se está a atravessar zonas urbanas".
Apesar de troço ainda servir muito pouco a população, visto que as ligações consideradas fundamentais (Cacilhas, Pragal e Universidade) ainda não estão concluída, José Luís Brandão acredita que o fluxo de utentes irá tendencialmente começar a subir, sobretudo a partir do final do ano, "visto que já teremos ligação à paragem do Pragal, por onde passam também os comboios da Fertagus, e à Universidade, onde estudam bastantes alunos residentes nos concelhos de Almada e Seixal".
No final da viagem, ficou a promessa de cumprimento dos prazos previstos a partir de agora, o que permite apontar o final do ano como a data da próxima inauguração, a das seis paragens que separam a Cova da Piedade do "campus" da Universidade do Monte de Caparica.