Comunidade de vinte judeus mantém viva a tradição no Algarve

Cerca de vinte judeus "algarvios" querem manter vivas as tradições judaicas na região, formando uma comunidade empenhada em celebrar com rigor os principais feriados da sua religião.

Agência LUSA /

A comunidade judaica do Algarve foi restabelecida em 1991 na casa do actual líder comunitário, Ralf Pinto, quando sua mulher Judith organizou uma celebração do "Chanukah", um dos mais importantes feriados do calendário judaico, com mais de quinze pessoas.

Esta pequena comunidade é a continuação da última de ascendência hebraica que existiu em Faro entre meados do século XVIII e o ano de 1936 e acabou por se perder devido à emigração causada pela crise económica da época.

A Páscoa Judaica ("Pessah") é a mais importante cerimónia religiosa organizada por Ralf Pinto no Algarve, festa que costuma reunir cerca de 70 pessoas, muitas delas vindas propositadamente do estrangeiro, sobretudo dos Estados Unidos.

A "Pessah", que este ano se celebra a 23 de Abril, unirá os escassos judeus "algarvios", convidados para uma cerimónia em que se recitam passagens da Torah (bíblia hebraica) e são proibidos os alimentos fermentados.

Curiosamente, a celebração algarvia do "Pessah" - palavra que significa "passagem" e simboliza a saída do povo hebreu do Egipto - decorrerá num restaurante situado na mesma rua onde se pensa ter existido uma judiaria, na parte velha de Portimão.

Desde que se estabeleceu na região, a comunidade realizou o primeiro casamento judaico dos últimos quinhentos anos no Algarve e um "Barmitzvah", cerimónia de iniciação de um adolescente, que não se efectuava na região desde 1923.

Para atrair os judeus eventualmente residentes na região, Ralf Pinto costuma publicar anúncios na imprensa, mas muito poucos aparecerem.

"Durante estes anos temos conhecido cá muitos judeus, mas o problema no Algarve é que as pessoas chegam e passados alguns anos vão-se embora", diz, admitindo que também possa haver pessoas com receio de expor as suas origens judaicas.

Contudo, considera que no Algarve não existe anti- semitismo, talvez por ignorância, porque "muitas pessoas nem sabem bem o que é um judeu".

A viver no Algarve há cerca de quinze anos e apesar de ser um fervoroso praticante do judaísmo, o casal Pinto também já assimilou algumas tradições cristãs.

Apesar de se recusar a ir à missa, já festejou o Natal em casa de amigos e no Euro 2004 até tocou o "shofar" - instrumento de sopro feito em chifre de cabrito utilizado em cerimónias religiosas judaicas - para festejar a vitória dos portugueses nas meias-finais.

A estrutura que mais tem contribuído para manter viva a comunidade, já que a sinagoga mais próxima é em Lisboa, tem sido o cemitério judaico de Faro, praticamente o único testemunho da Diáspora hebraica na região e um símbolo de identidade para os cerca de 20 judeus praticantes residentes no Algarve.

Embora pequeno, é um dos maiores da Europa e um emblema de resistência cultural para os sobreviventes da antiga comunidade judaica local, uma das mais vigorosas do País, que no início do século XX chegou a contar com cerca 60 famílias.

"Não vale a pena fazer uma sinagoga no Algarve, mas um dia faremos um centro cultural", admite Ralf Pinto, consciente de que a comunidade não tem o número mínimo de adultos exigíveis para a construção de um templo.

Agora reformado, tem dedicado o seu tempo a pesquisar a história da família e as origens do seu apelido português, embora não tenha ainda conseguido chegar a esse antepassado, provavelmente fugido do País no século XVI, após o decreto de D.

Manuel.

Contudo, o sul-africano, cujos avós paternos foram mortos nos campos de concentração nazis, conseguiu recuar até à 10ª geração, em 1650, na cidade de Amesterdão.

Os cerca de três mil judeus que formam a actual comunidade em Portugal têm na sua origem os grupos de judeus que se instalaram no país no início do século XIX, nomeadamente em Lisboa, Faro e nos Açores.

A partir dos anos 60, com a criação do estado de Israel, muitas famílias judaicas partiram, dando origem a uma quebra demográfica no seio da comunidade.

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