Comunidade israelita surpreendida com proposta de memorial sobre massacre judaico
A criação de um memorial ao massacre judaico de 1506 em Lisboa, que será discutida quarta-feira pelo executivo municipal, surpreendeu a comunidade israelita, que afirma não ter sido ouvida, apesar de já ter apresentado um projecto semelhante.
"Fico contente que os vereadores o assumam como uma tarefa importante, mas devia haver um diálogo, sobretudo quando parte de uma iniciativa nossa, que apresentámos em 2006", disse à Lusa Esther Mucznik, vice-presidente da comunidade israelita em Lisboa.
Uma proposta conjunta dos vereadores do PS, Bloco de Esquerda e da vereadora do movimento Cidadãos por Lisboa Helena Roseta, defende a instalação na cidade de Lisboa de um "memorial às vítimas da intolerância, evocativo do massacre judaico de Lisboa de 1506".
O monumento, a instalar no Largo de São Domingos (Rossio), onde há 500 anos cerca de dois mil judeus foram mortos, lembrará igualmente "todas as vítimas que sofreram a discriminação e o aviltamento pessoal pelas suas origens, convicções".
Esther Mucznik afirmou que a comunidade israelita fez uma proposta em 2006 à autarquia, então presidida por Carmona Rodrigues, para um memorial ao massacre.
A Igreja Católica juntou-se depois à iniciativa e "defendeu a ideia de um memorial com duas esculturas, com a ideia de `memória e reconciliação`" entre as duas comunidades religiosas, explicou a representante da comunidade israelita.
"O projecto nunca mais viu a luz do dia apesar de nós dizermos que pagávamos a nossa parte do memorial", acrescentou Esther Mucznik.
A vice-presidente da comunidade israelita em Lisboa referiu ainda que o actual presidente da Câmara, António Costa (PS), visitou enquanto candidato a sinagoga de Lisboa e mostrou interesse pelo projecto.
Na proposta, que será discutida quarta-feira pelo executivo camarário, o monumento "deverá ter, como elemento central, uma oliveira de grande porte e contemplará uma lápide evocativa do massacre judaico de Lisboa de 1506, bem como um arranjo urbanístico da área envolvente".
"Só pagaremos a proposta que fizemos", avisou Esther Mucznik.
A concepção, execução e instalação do monumento competiria aos serviços municipais, refere a proposta.
A inauguração do memorial deverá realizar-se, de acordo com a proposta, a 19 de Abril de 2008 numa cerimónia promovida pela Câmara "para a qual serão convidadas todas as comunidades étnicas e religiosas da cidade".
A proposta recorda que "no ano de 1506 a cidade de Lisboa foi palco do mais dramático e sanguinário episódio anti-judaico de todos os que são conhecidos no nosso território".
"Durante três dias, 19, 20 e 21 de Abril, estes acontecimentos, que tiveram início junto ao Convento de São Domingos (actual Largo de São Domingos) levaram a que cerca de dois mil lisboetas, por mera suspeita de professarem o judaísmo, tivessem sido barbaramente assassinados e queimados em duas enormes fogueiras, no Rossio e na Ribeira", descreve a proposta.