Comunidade portuguesa é "sui generis"
Goa, Índia, 25 abr (Lusa) - A comunidade portuguesa de Goa é "sui generis" comparada com as outras espalhadas pelo mundo, descreve o cônsul-geral de Portugal em Goa, António Sabido da Costa, cujo papel ainda passa um pouco por afastar fantasmas do passado.
"Existe um pequeno número de portugueses provenientes do continente europeu em Goa [a residir numa base permanente são duas] - "mas, por outro lado, um grande número de pessoas que adquiriu recentemente a nacionalidade portuguesa.
Em média, por dia, entram no consulado três pedidos de nacionalidade portuguesa, de acordo com dados facultados à agência Lusa pelo diplomata que ressalvou, porém, que 90% "são feitos diretamente através de agentes ou advogados em Portugal".
Neste sentido, a comunidade em Goa "é um pouco diversificada": Há goeses com nacionalidade portuguesa "sem grande apetência" pela cultura lusa, outros que nutrem grande afeição por essa herança e, por fim, um terceiro segmento que, embora mantenha a sua cidadania indiana, "tem uma ligação grande a Portugal" e vontade de manter viva e de conhecer melhor a cultura portuguesa.
"Por isso mesmo é que, de certa maneira, este consulado se justifica: tem não apenas uma parte consular ?stricto sensu`, mas também uma vertente cultural importante", realça António Sabido da Costa.
Em muitas ocasiões, "funciona quase como uma loja do cidadão, em que os utentes, depois de obterem o cartão de cidadão ou o passaporte, não têm mais contacto", mas também há todo um outro lado.
"No âmbito das iniciativas que temos realizado, acho que atingimos quase o máximo", avaliou o cônsul-geral de Portugal em Goa.
Prova disso é o "grande sucesso" do festival da canção portuguesa ("Vem Cantar"), donde têm saído cantores "que se tornaram expoentes da música em Goa", como a fadista Sónia Shirsat, ou do Festival do Monte, bem como a Semana da Cultura Indo-Portuguesa, que arrancou em 2008 e deixou de se cingir a sete dias.
Em 2012, foi a vez de Lisboa acolher uma Semana de Goa, naquela que "foi talvez a maior demonstração de cultura goesa que foi a Portugal desde 1961", de acordo com o diplomata.
"Acho que o pouco que fazemos e damos [Consulado, Camões e Fundação Oriente] tem uma repercussão muito grande porque os goeses têm grande interesse. Basta ver esta Semana, que envolve largos milhares de euros: foi tudo foi pago pela comunidade goesa. O cônsul aqui tem o trabalho muito facilitado graças à [sua] boa vontade", sustentou António Sabido da Costa.
Nunca o sentiu na pele da parte das autoridades locais, mas reconhece que ainda "há questões pontuais" relacionadas com o passado colonialista em Goa.
"Tivemos um regime ditatorial, fomos uma potência colonial e cometemos uma série de erros que nós, hoje em dia, temos dificuldade em compreender", pelo que, apontou, "é normal e extremamente compreensível que as pessoas se sintam um pouco ressentidas".
Neste sentido, o cônsul português reconhece que a sua função ainda passa um pouco por afastar fantasmas do passado. "Infelizmente a visão que muitas pessoas têm do nosso país é muito ultrapassada, [fruto] do que ouviram dos pais e que nada tem a ver com a realidade", realça.
"O que é preciso mostrar é que tanto Goa como Portugal passados 50 anos seguiram os seus caminhos, o que é muito bom, e que não estamos aqui numa posição saudosista", apontou.
Porém, salienta, "há um ponto que convém não descurar: Existe ainda alguma ligação independentemente de, muitas vezes, a própria população não ter um conhecimento muito exato do que é a história ou a realidade portuguesa".
Por isso, "é que se vê tanta gente aqui, sobretudo da comunidade católica - mas não apenas - com os carros com dísticos, bandeiras ou autocolantes com o escudo português".
"É gente que nunca encontrei em atividades organizadas pelo consulado ou outras instituições portuguesas", como aquela com que se deparou aquando da passagem do Navio-escola Sagres, em 2010, por Goa, por ocasião dos 500 anos da chegada dos portugueses à Índia.
"Os pescadores de Vasco da Gama fizeram espontaneamente uma manifestação de apoio, trazendo os seus barcos todos engalanados com as cores portuguesas, vestindo camisolas da seleção, tocando música portuguesa, acompanhando o Navio-escola Sagres até à Barra".
"Muitos deles já não sabem falar português e os seus filhos não falam, mas sentem que, de certa maneira, alguma coisa existe com Portugal", concluiu.