Congresso de Marranos no Porto
O Porto acolhe entre sexta-feira e domingo o primeiro congresso de marranos, destinado a resgatar a estes "cristãos-novos" a sua identidade judaica e criar condições para que a comunidade possa viver melhor em Portugal.
"Depois de 500 anos, este é o primeiro congresso aberto aos 'cristão-novos' que queiram recuperar a sua verdadeira identidade", afirmou à Agência Lusa o rabino da comunidade israelita do Porto, Elisha Salas.
O rabino estima que 60 por cento dos portugueses tenha origem judaica, a maioria sem o saber, e convida os marranos, ou seja "todos aqueles judeus que depois do reinado de D. Manuel II foram forçados a converter-se ao cristianismo para permanecer no país", a participar neste encontro.
A decorrer no complexo da Rua Guerra Junqueiro, com a presença prevista de cerca de 80 judeus de vários países, o congresso permitirá traçar o actual panorama judaico em Portugal.
"É um assunto pouco conhecido do grande público e que tem a sua importância cultural para o conhecimento de um povo que está no país há muitos séculos", acrescentou.
Destaque também para o lançamento da Associação Portuguesa de produtos Kasher-Sepharad, um organismo que pretende a curto prazo aumentar a produção nacional destes alimentos específicos.
Esta associação, que será liderada por Elisha Salas, permitirá criar condições para que se preparem em Portugal alimentos Kasher, nomeadamente bolachas, vinho, azeite, frutos secos e produtos lácteos.
Os alimentos Kasher pouco diferem dos normais: a grande diferença está no seu modo de preparação e no facto de serem benzidos antes de ingeridos.
Para Elisha Salas, a lançamento desta associação representa um passo muito importante para o incremento da comunidade judaica no país.
"O objectivo é criar condições para que a comunidade tenha melhores condições para viver de acordo com a religião e hábitos", disse, acrescentando que muitas pessoas deslocam-se especificamente a Espanha, França e/ou Israel para adquirir os produtos alimentares.
A produção de um alimento implica a supervisão de um rabino, que controla ainda se os produtos utilizados estão autorizados.
Quanto ao vinho, por exemplo, todas as fases da sua produção, desde a recepção da uva até ao engarrafamento, têm que se feitas por judeus.
Além de rejeitarem carne de porco, os judeus não comem animais que não sejam mortos por um dos seus profissionais.
"A associação vai permitir que se prepare para consumo normal produtos vendidos a preços normais, exactamente iguais aos que estão nas lojas, mas que obedecem a uma preparação distinta", sustentou.
Sem querer adiantar números, o rabino do Porto apenas afirmou que a comunidade judaica em Portugal "é muito fraca".
"Não há vida judaica, os que permanecem aqui são 'cristão-novos', porque Portugal não tem condições para que vivam de acordo com a religião", disse.
A Associação Portuguesa de produtos Kasher-Sepharad, cujo lançamento vai decorrer domingo num hotel do Porto, ganha assim especial importância, na medida em que permitirá "criar melhores condições" de vida aos judeus.